Memórias do Futebol: Os dez anos do penta – parte final

A adrenalina não me deixou dormir. Foi um mês de sacrifício, dobrando o sono, conciliando as noites da faculdade, o estágio à tarde e as madrugadas de futebol – que se estendiam até o início da manhã. Mas o resultado final compensou. E como. Nasci em 1983. Não lembro nada da Copa de 86, no México. Recordo um choro infantil irrompido após a eliminação contra a Argentina, em 1990. E uma mistura maluca de emoções após o tetra, quatro anos mais tarde. Ainda anestesiado pela morte de Ayrton Senna, foi duro ouvir o tema da vitória após o pênalti chutado por Roberto Baggio. Foi bonito, mas deixou aquela sensação no ar. Mesmo assim, tenho um grande carinho por aquele Mundial e aquela seleção, criticada, porém vencedora, que é o que me importa enquanto torcedor.

A mesma coisa posso dizer sobre o Brasil de 2002. O massacre público aos comandados de Luiz Felipe Scolari despertou em mim um sentimento de raiva que desde o fim das eliminatórias fez com que decidisse comprar a briga e, se necessário, morrer abraçado em uma derrota. Sabendo que seria difícil, me tomei de um espírito verde-e-amarelo como poucas vezes. E a recompensa definitiva veio no dia 30 de junho de 2002. Quando Oliver Khan não segurou o chute de Rivaldo e Ronaldo completou para a rede alemã, a emoção tomou conta de maneira que eu não esperava. Mas assim foi até o fim do jogo, passando pelo segundo do Fenômeno, que me fez entender o verdadeiro significado de um milagre – sim, eu achei que ele não conseguiria voltar após aquela terrível cena de seu joelho quase saltando para fora do corpo.

Foi a conquista emocionante de quem esteve contra todas as expectativas. De quem apostou todas as fichas no improvável, no azarão. E se deu bem. O Brasil era o primeiro (e até hoje único) pentacampeão mundial de futebol. E misturando todos os ingredientes em um produto tipicamente nacional. E 1998 não foi citado antes, pois não fazia mais sentido naquele momento.

Brasil 2×0 Alemanha
30 de junho de 2002

Brasil: Marcos, Lúcio, Edmilson e Roque Júnior; Cafu, Gilberto Silva, Kléberson, Ronaldinho (Juninho) e Roberto Carlos; Rivaldo e Ronaldo (Denilson). Técnico: Luiz Felipe

Alemanha: Kahn, Metzelder, Ramelow e Linke; Frings, Hamman, Jeremies (Asamoah), Schneider e Bode (Ziege); Klose (Bierhoff) e Neuville. Técnico: Rudi Vöeller

Gols: Ronaldo aos 21 e 33 minutos do segundo tempo
Cartões amarelos: Roque Júnior e Klose
Arbitragem: Pierluigi Collina (Itália), auxiliado por Leif Lindenberg (Suécia) e Philip Sharp (Inglaterra)
Local: Estádio Internacional de Yokohama, Japão

Publicado em Memórias do Futebol por João Renato Alves. Marque Link Permanente.