Carta aberta aos leitores: a Van está encerrando atividades

Por si só, o título explica o conteúdo do grande texto que estou publicando – e desta vez, ao contrário de tantas outras, me permito usar a primeira pessoa do singular. Não pensem que essa é uma decisão motivada pelo calor do momento. Para ser bem exato, comecei a escrever estas linhas na madrugada do dia 3 de março. Não há uma razão específica para decretar o fim. É uma combinação de questões pessoais, profissionais e até mesmo mercadológicas que levaram à decisão. Pretendo explicá-las nos próximos parágrafos, me reservando o direito de não aprofundar algumas que não são de interesse público.

Em primeiro lugar, desde 2009 eu praticamente sacrifiquei minha vida social. Nunca tirei mais que dois dias longe do site. Nenhuma dessas ocasiões foi para realmente descansar a cabeça, era alguma viagem, doença, acontecimento inesperado, jamais férias. De domingo a domingo, manhã até madrugada, se necessário. Opção minha, fique claro, não estou me queixando. Sempre preferi centralizar o processo a encher de colaboradores e desvirtuar a linha editorial. Os únicos que participaram são amigos pessoais, com quem já tinha contatos anteriores e contribuíam de forma esporádica, com quadro fixo ou resenha. E foi melhor dessa forma. Nada vai para frente sem um líder.

Há também uma pessoa que vai além do site e do gosto pela música. Quem acompanha com mais atenção já deve ter visto, em algum momento, eu contar que sou jornalista formado desde 2004, pós-graduado em comunicação e mídias digitais em 2008. Desde então, interrompi meus estudos para entregar o máximo a este projeto. Sinto saudades da vida acadêmica e pretendo retomá-la. Também quero viajar, reencontrar amigos e aproveitar a vida junto à minha esposa e nossas duas crianças. Enfim, coisas que não são exatamente compatíveis com uma página que se orgulha de ter “as notícias mais rápidas do Rock e Metal”.

É inegável que a crise dos últimos anos provocou um efeito devastador. Basta ver a quantidade de páginas que sucumbiram. A coisa fica ainda pior em um meio amador como o nosso. Ser profissional na cena Rock/Metal nacional é quase como se convidar a sair. Assessorias e músicos que trabalham na base do tapinha nas costas, tentando forçar amizade e intimidade em troca de um post. Gravadoras que tentam comprar opinião com CD de graça – e conseguem, em alguns casos. Produtoras que pedem merchan gratuito em troca de autorização para cobrir o evento. Blogueiros que têm vergonha de fazer crítica negativa e dão nota 8 para qualquer disco. Enfim, não é um ambiente legal, especialmente quando você luta para fazer a coisa da maneira mais correta possível. Em um mundo onde a profissionalização é cada vez maior, a cena não acompanhou. E parece se orgulhar de ser assim, tosca.

Nessa quase uma década de funcionamento, a Van manteve uma postura totalmente independente. Nunca tivemos parceria com portal, jamais colocamos panos quentes, expusemos maracutaias e nunca chamamos show cancelado por baixa venda de ingressos de “problemas de logística”. Os frequentadores mais antigos vão lembrar do caso Metal Open Air, quando fomos um dos poucos sites a denunciar em tempo real a patifaria que acontecia no Maranhão. Foi um episódio que rendeu muitos desafetos, mas também, credibilidade enorme. E podem ter certeza, não trocaria um pelo outro. Até porque entrei nessa para exercer minha profissão, não para fazer amizades. Porém, há um preço a se pagar quando se adota essa postura.

Quero ressaltar que, apesar de sempre ter prezado pela independência e deixado claro que não mudaria uma vírgula por conta de reação da opinião pública, os leitores foram o grande combustível da Van. Uma vez, recebi email de um jovem que declarou ter começado no jornalismo por nossa causa. Em diversas oportunidades, li depoimentos de pessoas que conheceram determinados artistas após nossa indicação. Isso é muito, mas muito mais importante que ter entrevistado fulano ou visto show da banda tal. Aliás, convenhamos, a maioria desses caras possuem valor pela obra que criam, não pelas figuras humanas que são. Vocês e eu somos muito melhores, mais puros e sinceros que quase todos eles.

Tudo na vida acaba, inclusive a própria vida. A Van do Halen sai de cena com a cabeça erguida. Fomos muito vitoriosos. Não vou citar nome por nome, pois cada envolvido sabe que foi muito importante. Jamais vai ser a mesma coisa. Mas quem disse que deve ser? A página do Facebook permanecerá aberta e sendo atualizada quando der vontade. Nada muito dedicado, alguns comentários, clipes, curiosidades e um monte de outros nadas. De resto, muito obrigado a todos que nos acompanharam até aqui. Como disse Kevin Arnold, foram anos incríveis!

João Renato Alves
Jornalista
Email para contato: jrenato83@hotmail.com
https://www.facebook.com/VanDoHalen/

Cabeçote: Cinco anos de Van do Halen em infográfico

Números nem sempre resumem uma relação entre um veículo ou uma marca com quem os/as acompanha. Mas podem apresentar um pouco do que foi a Van do Halen nos cinco anos de existência, comemorados hoje. Desde os tempos de Blogspot, em que os textos começaram a ser escritos como um refúgio bobagento para o finado blog Combe do Iommi, até a atualidade, em que nos referimos à Van como um dos sites referência em jornalismo musical, especializado em rock e metal.

Participo de perto desse aniversário – em quase quatro anos, estive na ativa, especialmente ao lado de João Renato Alves. Agora, sou apenas um colunista, que vos traz opiniões e listas sempre às 21h de segundas-feiras. Não escondo: admiro muito o monstro que se tornou essa Van. Mesmo de um pouco mais longe atualmente. Espero que dure por muitos anos. E sempre com muito sucesso.

Veja o infográfico preparado para essa especialíssima ocasião:

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