Cabeçote: Obrigado por tudo, Black Sabbath

O Black Sabbath chegou ao fim. A última apresentação da turnê de despedida do grupo, “The End”, ocorreu no último sábado (4), na Genting Arena, em Birmingham, Inglaterra.

(Foto: Ross Halfin / divulgação)

A escolha do local foi estratégica: o show derradeiro do grupo ocorreu na mesma cidade onde tudo começou. Foi em Birmingham que o guitarrista Tony Iommi e o baterista Bill Ward deram início ao Black Sabbath, que começou como um projeto de blues rock, chamado de Polka Tulk Blues Band.

Iommi e Ward convocaram o baixista Geezer Butler e o vocalista Ozzy Osbourne para a banda, que mudou de nome para Earth. O grupo quase não foi para frente, pois Tony – logo ele, que foi o único membro constante do Black Sabbath em quase 50 anos – abandonou a formação para integrar o Jethro Tull. Ainda bem que ficou ao lado de Ian Anderson por apenas dois meses.

Em 1969, o Earth se tornou Black Sabbath e gravou seu primeiro disco, autointitulado. Dá para dizer que, antes deste álbum, o heavy metal existia. Grupos como Cream, Steppenwolf, Iron Butterfly e Blue Cheer praticavam uma sonoridade pesada e intensa, como o gênero em questão pede. Mas foi o Sabbath quem estabeleceu as regras para a fundação de um dos estilos musicais mais venerados do mundo.

Em quase 50 anos, foram lançados 19 discos de estúdio, com mais de 70 milhões de cópias vendidas mundialmente – deste montante, 8 milhões somente nos anos 1970, mesmo sem apoio de rádios e críticos especializados. Contudo, mais importante que o sucesso comercial, deve-se reconhecer o legado que o Black Sabbath deixa.

Musicalmente, além de pioneiro em um estilo musical, o Black Sabbath influenciou centenas de bandas que vieram logo após. Todos os grandes nomes do heavy metal têm um quê de Sabbath: de Judas Priest a Metallica, de Iron Maiden a Slipknot, de Sepultura a Queens Of The Stone Age, dos nomes surgidos na década de 1970 aos grupos que nasceram nos últimos anos, seja de qualquer subgênero do metal ou de segmentos mais pesados do rock. É indissociável.

A simplicidade presente em sua música inovadora também é notável na personalidade de seus integrantes. Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward não nasceram em berços de ouro: vieram de famílias de operários e conquistaram seu espaço de forma orgânica, com trabalho, talento e, por que não, um pouco de sorte.

Isto se refletiu em praticamente toda a carreira do Black Sabbath, mesmo com os períodos de excessos, e até mesmo em seu fim. Apesar de ter contado com uma turnê que girou por todo o planeta, o Black Sabbath não teve uma despedida exibicionista.

O grupo poderia ter convidado nomes consagrados para aparições em shows e ter feito uma mega performance de encerramento em Londres, ao invés de Birmingham. Mas a opção pela cidade natal em um “adeus” honesto revela um pouco sobre os envolvidos. Apenas lamento que Bill Ward não tenha participado de algum momento desta turnê. Uma banda que passou por tantas mudanças na formação, infelizmente, acabou com uma rusga ainda pendente.

O Black Sabbath ainda pode voltar para shows esporádicos, em ocasiões especiais ou até mesmo para um disco de inéditas. Mas, infelizmente, a condição de saúde de Tony Iommi, que há anos enfrenta um linfoma, pode não permitir que isto aconteça.

Independente se haverá alguma reunião esporádica para um show isolado ou para um novo álbum, o Black Sabbath da forma que conhecemos chegou ao fim. Resta-nos seguir desfrutando da obra que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward fizeram juntos, bem como os trabalhos feitos ao lado de Geoff Nicholls, Ronnie James Dio, Tony Martin, Vinny Appice, Ian Gillan, Bev Bevan, Eric Singer, Cozy Powell, Glenn Hughes, Bob Daisley, Ray Gillen, Dave Spitz, Neil Murray, Laurence Cottle, Brad Wilk, Tommy Clufetos, Don Airey e Bobby Rondinelli.

É muito provável que o Black Sabbath ainda seja lembrado daqui a 50 anos. E isto é o maior mérito que um trabalho artístico pode conquistar. Obrigado por tudo, Black Sabbath.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Os produtivos últimos meses de David Bowie

O fim de David Bowie foi cercado por coincidências no que diz respeito a datas. Ele faleceu em 10 de janeiro de 2016, dois dias depois de seu aniversário e de ter lançado seu último álbum, “Blackstar”.

Graças a esta infeliz coincidência de datas, a obra de David Bowie tem sido celebrada, nos últimos dias, com diferentes tipos de tributos. Seja pelo primeiro aniversário de morte ou pelos 70 anos que o Camaleão comemoraria.

Um desses tributos, feito pela gravadora Columbia Records, é o EP “No Plan”, que apresenta três músicas inéditas de David Bowie, gravadas durante as sessões de “Blackstar”. Elas estão presentes na trilha sonora do musical “Lazarus”, dirigido por Ivo van Hove. Trata-se de uma amostra do que o Camaleão poderia ter feito se o destino tivesse lhe permitido viver um pouco mais.

O produtor Tony Visconti havia revelado, em entrevista concedida dias após o falecimento, que David Bowie sabia, desde novembro de 2015, que seu câncer era terminal. A notícia veio, inclusive, no fim de semana em que Bowie gravava as cenas para o clipe da música “Lazarus”. Contudo, mesmo em suas últimas semanas, o cantor falava em gravar uma sequência para “Blackstar”.

O tempo e o destino foram implacáveis para David Bowie – muito devido a seus abusos ao longo dos anos. Ele sentiu dores no peito em 25 de junho de 2004, enquanto se apresentava em um festival na Alemanha. Foi diagnosticada uma obstrução em uma artéria e ele precisou fazer uma angioplastia. Tudo isso enquanto ele tinha apenas 57 anos.

Desde então, David Bowie não se apresentou mais ao vivo. Já não havia mais vontade, nem ritmo para tal. Foram somente algumas participações, em shows de Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys, entre 2005 e 2006. Depois disso, deu adeus, em definitivo, aos palcos – e, de certa forma, tentou se despedir da música, apesar de não ter conseguido. Optou por aproveitar um pouco do que havia conquistado em seus anos anteriores, bem como curtir a família.

Bowie só voltou a trabalhar em algo na década seguinte, ao lançar “The Next Day”, em 2013. E, segundo relatos, seus últimos 18 meses de vida foram muito produtivos.

Sabia-se do câncer de pulmão desde meados de julho de 2014. Foi aí que David Bowie decidiu que retomaria o nível de suas produções. “Blackstar” foi gravado entre janeiro e abril de 2015, com o melhor material produzido por Bowie no período anterior, entre os últimos meses de 2014.

As primeiras demos foram entregues ao saxofonista de jazz Donny McCaslin, ao invés de qualquer outro músico de rock. O material evoluiu e as sessões de gravação ocorriam entre 11h e 16h, três vezes por semana. A saúde de David Bowie ainda não havia sido deteriorada, mas o ritmo de trabalho era um pouco menos intenso.

Após o fim da produção de “Blackstar”, David Bowie começou a trabalhar no musical “Lazarus”. As três faixas inéditas de “No Plan”, inclusive, aparecem na trilha sonora da peça, que também reúne uma série de clássicos gravados pelo músico em sua carreira.

Durante os ensaios para “Lazarus”, David Bowie manteve a sua classe. Esteve presente em boa parte dos compromissos relacionados e não reclamou de sua doença em nenhum momento, segundo relatos. Além disso, optou por não fazer nenhuma intervenção ao trabalho de direção de Ivo van Hove. Assim como o disco, tudo era feito em segredo.

Ivo sabia da doença de Bowie desde novembro de 2014, quando o próprio cantor o contou, dizendo, ainda, que não sabia se sobreviveria até a conclusão do projeto. Acabou por viver até a estreia, em dezembro de 2015.

Quando David Bowie não estava bem, simplesmente se afastava, tanto durante a produção do disco quanto do musical. Não se forçava a trabalhar demais. Somente os envolvidos sabiam do problema. Ainda assim, especialmente no período em que a peça era ensaiada – Bowie já estava mais debilitado na época -, o cantor fez o possível para participar de todos os eventos relacionados.

A noite de abertura de “Lazarus” ocorreu em 7 de dezembro de 2015, em Nova York. Foi a última aparição pública de David Bowie. A saúde do cantor já definhava, mas a aparência seguia impecável.

Entre os ensaios e a estreia do musical, David Bowie gravou dois videoclipes para promover “Blackstar”. O primeiro foi feito para a faixa que dá nome ao disco: um vídeo surrealista, dirigido por Johan Renck – o diretor de “The Last Panthers”, série para a qual a canção foi feita. Com seu senso multiartístico apurado, Bowie deu diversas sugestões para Renck durante o processo.

Em novembro, o segundo clipe foi gravado. “Lazarus”, também com direção de Johan Renck, é encarado como uma espécie de despedida por parte de David Bowie. Como dito anteriormente, na semana das filmagens, ele soube que seu câncer era terminal. Mesmo que nas entrelinhas, as cenas e a estética do vídeo transmitem a ideia de “adeus”.

John Renck nega tal hipótese. Ele disse, em recente entrevista para um documentário feito pela BBC, que o clipe de “Lazarus” não foi pensado como uma despedida. “Para mim, tem relação com o aspecto bíblico, com o homem que voltaria a renascer. Não tem nada a ver com a doença”, afirmou. Apesar disso, ganhou tais ares – com justiça. Basta assistir para entender o porquê.

Cada clipe tomou apenas cinco horas de um dia para ser gravado. Era o que a saúde de David Bowie suportava.

Em janeiro de 2016, vieram à tona o clipe de “Lazarus” (o outro vídeo havia sido lançado em novembro) de 2015, o álbum “Blackstar” e a morte de David Bowie. Mesmo com toda a tristeza que cerca este período, há de se destacar que seu adeus foi um dos mais elegantes da história da música.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Previsões e especulações sobre o rock/metal em 2017

No mundo da música, o ano de 2016 ficou marcado por ter sido ruim em geral, devido às mortes de impacto. Todavia, bons discos foram lançados e ótimos shows aconteceram no Brasil.

Em 2017, é provável que voltemos a ter bons discos de bandas de renome nas prateleiras. No metal, o maior destaque é “Machine Messiah”, do Sepultura, que sai em 13 de janeiro. “Gods Of Violence”, do Kreator (27 de janeiro) e “The Grinding Wheel”, do Overkill (10 de fevereiro), também merece atenção.

O cardápio é um pouco mais amplo no hard/classic rock. Além de “Infinite”, do Deep Purple (7 de abril), lançamentos de Gotthard (“Silver”, 13 de janeiro), Black Star Riders (“Heavy Fire”, 3 de fevereiro) e Steel Panther (“Lower The Bar”, 24 de fevereiro) estarão disponíveis para o público logo mais.

Entre as bandas que devem lançar material em 2017, mas ainda sem data marcada, estão Accept, Alice in Chains, Five Finger Death Punch, Iced Earth, Judas Priest, Mastodon, Queens Of The Stone Age, Saxon, Soundgarden e System Of A Down, entre outros. Já o aguardado disco do Guns N’ Roses com Slash e Duff McKagan não deve sair tão cedo, visto que a banda, provavelmente, passará o ano todo na estrada.

No que diz respeito a shows, enquanto 2016 começou com apresentações de grande porte no Brasil, de nomes como Iron Maiden e Rolling Stones, o ano de 2017 será um pouco mais tímido neste aspecto. As performances de maior destaque confirmadas até agora são as de Ace Frehley (março), Korn e Opeth (ambos em abril) e King Diamond (junho), além dos festivais Lollapalooza (março), Maximus (maio) e Rock In Rio (setembro).

Quanto às despedidas, apenas a do Black Sabbath, até o momento, ocorre em 2017. O Aerosmith anunciou que sairá de cena, mas só depois de alguns anos. Mesmo cenário do Deep Purple, que ainda não confirmou a aposentadoria.

Por fim, entre os retornos especulados, o único que parecia ter algum fundamento era o do Skid Row. Todavia, semanas depois de ter revelado que existiam negociações, Sebastian Bach afirmou que o retorno subiu no telhado.

Resta-nos esperar por um 2017 mais movimentado para bons assuntos. Que a seção de Obituário fique parada por um tempo.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: A história do disco blues de Mick Jagger que jamais foi lançado

“Blue & Lonesome”, disco dos Rolling Stones com releituras de clássicos do blues, reforçou a conexão que a banda tem com o tradicional gênero musical. Entretanto, não foi a primeira experiência de um dos integrantes do grupo com um projeto do tipo.

Em 1992, Mick Jagger trabalhou em um disco de releituras de clássicos do blues. Na época, ele contou com a colaboração do produtor Rick Rubin para tirar o projeto do papel.

A ideia

Mick Jagger pensava em gravar um álbum do tipo desde agosto de 1990, com o fim da turnê que divulgava o álbum “Steel Wheels” (1989). Entretanto, ele já trabalhava, também com Rick Rubin, em um full-length com com músicas autorais, que viria a ser “Wandering Spirit” (1993).

O frontman dos Stones deu uma pausa nas gravações de “Wandering Spirit” e retomou o projeto de blues que havia pensado. Rick Rubin, por sua vez, recomendou a contratação da banda Red Devils (foto abaixo), de Los Angeles, para acompanhar Jagger no projeto.

Antes, era necessário um teste de fogo: em maio de 1992, Mick Jagger foi a um show dos Red Devils e cantou alguns standards do blues, como “Who Do You Love?” (Bo Diddley) e “Blues With A Feeling” (Little Walter). Deu certo: com a química que rolou durante o show, Jagger se empolgou e começou a projetar o novo disco com releituras de canções blues.

Gravações

Em junho de 1992, Mick Jagger, Rick Rubin e os Red Devils começaram a trabalhar, juntos, no estúdio Ocean Way Recording, em Hollywood.

O processo de gravação foi bastante simples: Jagger pegou alguns discos de blues, tocou suas músicas favoritas apenas uma vez e pediu para que os instrumentistas fizessem uma jam a partir do que haviam escutado. A ideia era que tudo soasse espontâneo, sem ensaios.

O resultado foi uma maratona de 13 horas de gravação, regada a muito blues, que renderam mais de 12 músicas. A maior parte das canções foi gravada em takes iniciais. Nada sofisticado, assim como “Blue & Lonesome“, registrado todo ao vivo.

Material engavetado

Apesar de ter agradado, Mick Jagger nunca lançou o material gravado com os Red Devils. E não há, nem mesmo, uma justificativa aparente, visto que o material é de boa qualidade: os Devils tocam muito bem e Jagger interpreta o cancioneiro bluesy de forma legítima.

Curiosamente, Mick Jagger voltou a trabalhar em “Wandering Spirit” logo após a aventura blues. Em termos comerciais, foi a melhor aposta que Jagger poderia ter feito: o disco vendeu bem e chegou ao top 15 das paradas dos Estados Unidos e Reino Unido. Nada nas proporções dos Rolling Stones, mas um bom resultado para quem tem uma tímida discografia solo.

A única canção de tais sessões que chegou à luz do dia no catálogo de Jagger foi a versão para “Checkin’ Up On My Baby” (Sonny Boy Williamson II). A faixa está presente na coletânea “The Very Best Of Mick Jagger” (2007).

Por outro lado, há anos, as gravações têm sido distribuídas por meios não-oficiais, em formato de bootleg. Hoje em dia, evidentemente, a versão completa está presente no YouTube.

Ouça:

Mick Jagger & The Red Devils – Studio Blues Sessions (1992)

Mick Jagger (vocal)
Lester Butler (gaita)
Paul Size (guitarra)
Jonny Ray Bartel (baixo)
Bill Bateman (bateria)

1) Blues With A Feeling (Little Walter)
2) I Got My Eyes On You (Buddy Guy)
3) Still A Fool (Muddy Waters)
4) Checkin’ Up On My Baby (Sonny Boy Williamson II)
5) One Way Out (Sonny Boy Williamson II)
6) Talk To Me Baby (Elmore James)
7) Evil (Howlin’ Wolf)
8) That Ain’t Your Business (Slim Harpo)
9) Shake ‘m On Down (Bukka White)
10) Somebody Loves Me (George White’s Scandals)
11) Dream Girl Blues (J. D. Miller & Slim Harpo)
12) 40 Days, 40 Nights (B. Roth)

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: As agonizantes últimas horas de Freddie Mercury

Nenhum relato sobre os últimos anos, dias ou momentos de Freddie Mercury é tão fiel quanto o de Jim Hutton. O cabeleireiro, morto em 2010, se relacionou com o lendário vocalista do Queen de 1985 até o último dia da vida do astro, 24 de novembro de 1991. Ele viu todo o sofrimento do cantor de perto.

O relato está presente no livro “Mercury And Me”, escrito por Jim Hutton e Tim Wapshott e lançado em 1995. Em homenagem a Mercury, cujo falecimento completa 25 anos na próxima quinta-feira (24), segue, abaixo, a tradução, adaptada, da parte do livro que descreve os últimos momentos do cantor.

Momentos derradeiros

Dores severas afligiam Freddie Mercury diariamente em seus momentos derradeiros. Segundo Jim Hutton, a última vez que Freddie Mercury esteve consciente foi em 21 de novembro de 1991, uma quinta-feira, três dias antes da morte dele, quando Hutton o visitou na Garden Lodge, mansão extravagante que Mercury tanto gostava.

Jim Hutton se deitou ao lado de Freddie Mercury. O vocalista disse, suspirando: “pronto, todos saberão”. Na ocasião, Freddie se referia à carta em que anunciava, oficialmente, que estava com Aids. Ela foi enviada à imprensa e divulgada no dia 23 de novembro, um sábado, apenas um dia antes de sua morte.

Já no dia 23, às 22h, Freddie Mercury começou a se contorcer de dor e pediu seus remédios a gritos, que eram quatro pílulas analgésicas. Descrente, Mercury havia abandonado o tratamento com AZT e outros medicamentos algum tempo antes. Jim Hutton dormiu abraçado a Freddie nesta noite.

O último dia

Na madrugada do dia 24, um domingo, Freddie Mercury acordou Jim Hutton e pediu que ele o trouxesse uma fruta. Hutton levou fatias de manga e um copo com suco, para combater a desidratação que Freddie sofria.

Pouco após às 3h, Freddie Mercury acordou Jim Hutton de forma brusca. Seu rosto mostrava desespero. Freddie abria a boca desesperadamente, apontando para a garganta. Hutton não sabia o que fazer.

Cerca de 30 minutos depois, um dos enfermeiros de Freddie Mercury, chamado Joe, chegou ao local. Ele viu que havia um pedaço de manga na garganta de Freddie, que, sem forças, não conseguia nem engolir, nem cuspir. A fruta foi retirada.

Fim da linha

Às 6h, Freddie Mercury pronunciava as suas últimas palavras: “xixi, xixi”. Joe e Jim Hutton levaram Freddie ao banheiro, pois ele não conseguia se locomover. Quando o colocaram de volta na cama, ouviram um barulho de um osso quebrando. Mercury se contorceu de dor e passou a ter convulsões.

O médico Gordon Atkinson chegou ao local e receitou uma injeção de morfina a Freddie Mercury, mas o vocalista era alérgico à substância. Horas depois, Elton John e Dave Clark, amigos de Freddie, o visitaram. O cantor estava com os olhos opacos e mal respondia a estímulos externos.

Sem forças, Freddie Mercury não conseguiu pedir para que o levassem ao banheiro. Então, fez suas necessidades na cama onde estava deitado. Jim Hutton trocou as roupas de Freddie, que, com muito esforço, subiu levemente a sua perna esquerda.

A perna logo perdeu força e, assim, Jim Hutton percebeu que Freddie Mercury estava morto. Jim abraçou Freddie e o cobriu de beijos. O sofrimento havia acabado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Alec John Such só tocou em um disco do Bon Jovi

Alec John Such, aniversariante desta segunda-feira (14) – ele completa 65 anos na data -, só tocou em um disco do Bon Jovi. É o que seu substituto, Hugh McDonald, diz.

O Bon Jovi é a “banda margarina”. Algo no estilo da família idealizada que é apresentada em comerciais de margarinas, só que no âmbito de grupos musicais.

Em mais de 30 anos de carreira, houve sempre um esforço em esconder os escândalos do Bon Jovi. Não que eles tenham sido verdadeiros “bad boys” – o momento mais “intenso” neste sentido foi o vazamento de fotos de Jon Bon Jovi com mulheres na década de 1980 -, mas toda banda em atividade por tanto tempo tem alguns esqueletos em seu armário.

A diferença é que, no caso da banda de Nova Jersey, não se fala publicamente sobre nada. Evita-se até mesmo declarações relacionadas à saída do guitarrista Richie Sambora, em 2013. Um dos principais compositores saiu do grupo sem motivo aparente. Só depois de algum tempo, revelou-se que o músico estava cansado da rotina intensa de trabalho – e seus colegas, em especial Jon Bon Jovi, se recusaram a diminuir o ritmo.

Ao longo da trajetória da banda, o episódio com menos explicações contundentes foi a saída do baixista Alec John Such, em 1994. O músico foi demitido, mas não se fala o motivo disto publicamente.

O posto de Alec John Such foi ocupado por Hugh McDonald, velho conhecido de Jon Bon Jovi e creditado por gravar o baixo de “Runaway”, primeiro single da banda. Mas o grupo se recusa a tratá-lo como um real integrante da formação: para eles, o membro demitido é “insubstituível”. Situação constrangedora tanto para Such quanto para McDonald.

A questão é que, na verdade, Hugh McDonald sempre esteve na banda. Ao menos é o que ele afirma em algumas entrevistas e em seu antigo site, hoje desativado.

As afirmações de McDonald

Hugh McDonald afirmou, em diferentes ocasiões, que tocou em todos os álbuns do Bon Jovi, com exceção de “7800° Fahrenheit”. Isto inclui os discos com créditos a Alec John Such, como “Slippery When Wet”, “New Jersey” e “Keep The Faith”, além do álbum de estreia, onde McDonald é mencionado somente por “Runaway”.

Na extensa discografia listada em seu antigo site, Hugh McDonald acrescentou todos os discos do Bon Jovi, com exceção de “7800° Fahrenheit”. Há, ainda, menções a álbuns como “Trash” e “Hey Stoopid”, de Alice Cooper; “Love Hurts”, de Cher; “Dancin’ On The Edge”, de Lita Ford; “Ringo The 4th”, de Ringo Starr; “Shotgun Willie”, de Willie Nelson, entre outros petardos que contaram com a participação dele.

Em uma seção de perguntas e respostas listada em seu site, Hugh McDonald diz a vários fãs que tocou baixo em todos os álbuns do Bon Jovi, exceto “7800° Fahrenheit”. Ele diz que gravou o instrumento em estúdio, no entanto, não especifica se Alec John Such também gravou para esses álbuns e, em caso afirmativo, se compôs para Such gravar. Afirma, diretamente, que “tocou o baixo no estúdio” – e só.

Questionado, na mesma seção, sobre a linha de baixo de “Livin’ On A Prayer”, Hugh McDonald afirmou que antes da introdução com o instrumento ter sido inserida na gravação, a música se parecia demais com “I Can’t Help Myself”, do Four Tops. “Bruce Fairbairn, que produziu o álbum, percebeu a similaridade. Então, Richie, Jon e eu trabalhamos até chegarmos ao resultado que você pode escutar no disco”, disse McDonald, que também revelou adorar o trabalho que fez na faixa “Keep The Faith”.

Curiosamente, o “músico contratado” é o único que conversa sobre o assunto. Nem os integrantes do Bon Jovi, nem Alec John Such nunca falaram disso.

Demissão

Parece existir alguma relação entre o fato de Alec John Such não ter gravado todas as músicas pelas quais foi creditado ao longo de 10 anos e a sua demissão, em 1994. Apesar de não haver uma explicação oficial, a história que tem mais força é que a banda, em especial Jon Bon Jovi, não gostava de Such como baixista.

Em performances ao vivo, Alec John Such não parece ser um baixista ruim. Pelo contrário: toca todas as linhas sem problemas, além de, ocasionalmente, fazer bons backing vocals. O problema parecia ser mais comportamental, visto que, em 1994, Richie Sambora disse à revista Kerrang! que Such estava fora “porque se envolveu com algumas m*rdas das quais não conseguiam se desvencilhar” – provavelmente em menção ao alcoolismo do músico.

No início dos anos 1990, Alec John Such quebrou a clavícula ao sofrer um acidente de moto e, desde então, sofreu para retomar sua forma. O Bon Jovi nem se preocupou em esperar pela devida recuperação de Such, o que comprometeu a atuação do músico e fez com que ele se mergulhasse no álcool. A convivência com Jon, que já não era fácil, ficou ainda pior na turnê de “Keep The Faith”, que foi a última do baixista no grupo.

Em uma rara entrevista concedida à revista Raw em 1994, Alec John Such falou, com detalhes, sobre sua relação com os membros do Bon Jovi e sua saída da banda. Há relatos de que Jon Bon Jovi ameaçou processar o jornalista David Ling, autor da matéria, por ter “distorcido a verdade”, mas todo o papo com Such foi gravado, então, Jon recuou.

As declarações de Alec John Such foram fortes. “Não permitiram que eu desse nenhuma entrevista. Diziam que ninguém queria falar comigo e isso veio direto da boca de Jon”, disse Such, em um momento. “Jon fica dizendo que eu toco mal o tempo todo”, afirmou, em outra parte da entrevista.

Atualidade

Alec John Such não fez muita coisa desde que foi demitido do Bon Jovi. Ele empresariou algumas bandas de Nova Jersey e o 7th Heaven, de Chicago. Abriu negócios em Nova York, incluindo uma loja de motos. Em 2001, participou de um show da “One Wild Night Tour”, após sua família ter entrado em contato com a banda. Depois disso, se aposentou de vez do mercado da música. É um verdadeiro desafio encontrar uma foto atual do músico, nascido em 1956.

Já Hugh McDonald continua como “membro complementar” do Bon Jovi. Não apareceu em fotos de divulgação, nem em vídeos oficiais, até os registros relacionados ao álbum mais recente, “This House Is Not For Sale” (2016). Em 2013, quando a banda tocou no Rock In Rio, o diretor de TV da Rede Globo, Boninho, tornou público o pedido que Jon Bon Jovi fez: o cantor proibiu que McDonald e o baterista Rich Scannella, que substituía Tico Torres, fossem filmados na transmissão oficial. Houve liberação somente ao fim da performance.

Paralelamente, Hugh McDonald continuou a atuar como músico de estúdio – em um ritmo reduzido, é verdade. Entre os discos com gravações de McDonald após sua “entrada” no Bon Jovi, estão “Just Like There’s Nothing To It” (2004), de Steve Forbert; “Mi Corazon” (2001), de Jaci Velasquez; e o álbum autointitulado de Ricky Martin, lançado em 1999.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Há 30 anos, perdíamos Cliff Burton

Morto em 27 de setembro de 1986, Cliff Burton segue, ainda hoje, como um dos baixistas mais influentes do heavy metal. Às vezes chega a ser endeusado de forma até exagerada. Já contestei esse tipo de opinião em um texto anterior desta coluna, mas tenho consciência de que isso acontece naturalmente com talentos que se vão cedo demais.

No entanto, o exagero por parte de alguns fãs, além de parte da “imprensa especializada”, não tira os méritos de Cliff Burton. Foi, sim, um dos grandes músicos do estilo.

No baixo, Cliff Burton foi um híbrido clinicamente calculado entre Lemmy Kilmister e Geezer Butler, com uma dose extra de conhecimento em teoria musical. Quando entrou no Metallica, era o músico mais experiente no cenário musical até então, pois havia integrado uma série de bandas na Califórnia.

(No vídeo acima, Cliff Burton com o Trauma, antes de entrar para o Metallica)

Vale destacar, inclusive, que o Metallica mudou o planejamento inicial de mudar-se para Los Angeles porque Cliff Burton não topou. Só faria parte do grupo se a mudança fosse para San Francisco. Os demais músicos fizeram questão de ter Burton na formação.

O resto é história – e com doses cavalares de contribuições de Cliff Burton, diga-se de passagem. A sonoridade do Metallica só começou a atingir um patamar mais elevado, no que diz respeito a sofisticação em melodias e arranjos, graças a Burton, que ensinou muito sobre teoria musical aos demais músicos antes das gravações de “Ride The Lightning”.

A morte de Cliff Burton não evitou que o Metallica se tornasse a maior banda de metal do mundo – e digo isto com base nos números, tanto de vendas de discos quanto de arrecadação em turnês. No entanto, de certo modo, o Metallica só se transformou na potência que hoje conhecemos porque Burton passou por ali e os demais músicos permitiram que ele realmente colaborasse.

Cliff Burton faleceu jovem demais. Tinha somente 24 anos. Sua morte foi traumática também para seus companheiros de banda, que eram ainda mais jovens que o baixista. Titubearam sobre dar sequência ou não ao Metallica. Ainda bem que continuaram. A cicatriz fica, mas a vida continua.

Como Cliff Burton ficou tão pouco tempo no Metallica, muitos fãs se divertem ao pensar como seria se Burton tivesse sobrevivido ao acidente e permanecido no grupo. Os mais puristas dizem que a banda não teria ficado tão “comercial” (?). Eu discordo.

Arrisco-me a dizer que a trajetória do Metallica teria sido muito parecida com a que realmente foi trilhada. Cliff Burton tinha um background musical bastante amplo e, por mais que fosse fã de heavy metal, dificilmente se negaria a estar envolvido em álbuns como o famigerado “Black Album”, os contestados “Load” e “ReLoad” e o bem trabalhado “Death Magnetic”.

O Metallica seguiu caminhos contestados em alguns momentos. Ainda assim, creio que Cliff Burton, onde quer que esteja, ficou satisfeito com o que a banda fez após sua morte. Siga descansando em paz, Cliff.

Observação: ok, talvez “St. Anger” soasse um pouco diferente e certamente os baixos de “…And Justice For All” não ficassem escondidos na mixagem. Mas nada muito além disso.

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 7 curiosidades sobre Freddie Mercury, que faria 70 anos hoje

Freddie Mercury completaria 70 anos nesta segunda-feira. Ele nasceu em 5 de setembro de 1946, na Cidade da Pedra, em Zanzibar, uma parte da Tanzânia.

Infelizmente, a trajetória de Freddie Mercury foi interrompida em 24 de novembro de 1991, quando faleceu em decorrência de complicações causadas pelo vírus da Aids. Apesar disso, o trabalho de Mercury em pouco menos de duas décadas com o Queen foi o suficiente para colocar seu nome na história da música.

Em homenagem a Freddie Mercury, foram selecionadas sete curiosidades sobre sua trajetória. Veja:

1) Melhores amigos

Há quem diga que o melhor amigo de Freddie Mercury dentro do Queen era o baixista John Deacon. Algo curioso, visto que Deacon tinha, na banda, uma postura completamente diferente da de Mercury: era discreto e não tinha nenhum perfil de liderança. Os créditos das composições dão noção deste detalhe: as músicas de Deacon que não eram assinadas exclusivamente por ele, eram co-escritas por ele e Mercury.

2) Música erudita

A proximidade que Freddie Mercury tinha com a música erudita era evidente. Não só pelas composições do Queen, como também pelo álbum “Barcelona”, lançado por ele em 1988 ao lado da cantora lírica Montserrat Caballé. Mercury dizia que gravar com Caballé era seu sonho de muitos anos atrás. O disco foi concebido após Mercury ter sido convidado a fazer uma música que servisse de tema para os Jogos Olímpicos de 1992, realizados em Barcelona, na Espanha. O cantor morreu antes da realização do evento e, por isso, a canção não se tornou tema da competição, mas foi tocada durante sua cerimônia de abertura.

3) Substituto com aval

A escolha por Paul Rodgers para a versão do Queen “lançada” na década passada não foi por acaso. Freddie Mercury se dizia muito fã de Rodgers. Não precisa ser muito atento para perceber como o cantor do Free e do Bad Company influenciou o astro do Queen, especialmente em presença de palco.

4) Composição era um dos fortes

Compositor de mão cheia, Freddie Mercury é o autor de boa parte dos hits do Queen. Das 17 músicas presentes no disco “Greatest Hits” (1980), 10 são dele. Isso mostra a importância de Mercury nos anos iniciais da banda. Já na segunda etapa, contemplada em “Greatest Hits II” (1991), com músicas lançadas entre 1982 e 1991, Freddie é o autor de de duas e co-autor de quatro. Ele afirmava que gostava de acompanhar o que acontecia não só na música, mas também no cinema e no teatro para inspirar suas composições.

5) Reconhecido pela ciência

Um estudo conduzido pelo Dr. Christian Herbst (Universidade de Viena) descobriu o que todos sabiam: a voz de Freddie Mercury era única. No entanto, a pesquisa trouxe detalhes fundamentais sobre a voz de Freddie. Soube-se, por exemplo, que Mercury era um barítono, mas conseguia facilmente trabalhar como tenor. A pesquisa mostrou, também, que as pregas ventriculares de Mercury vibravam junto com as pregas vocais, algo que a maioria dos seres humanos não conseguiria executar. O vibrato é tão intenso que chegava a 7.04 Hz, enquanto o comum está entre 5.4 e 6.9 Hz, ultrapassando a vibração atingida por Luciano Pavarotti.

6) Tímido? Quem diria…

Freddie Mercury era um performer expansivo, mas tímido fora dos palcos. Era do tipo que dava poucas entrevistas e evitava se envolver em polêmicas. Mesmo sua vida boêmia não era de conhecimento público até sua morte, em decorrência de complicações geradas pelo vírus HIV.

7) Na ativa até pouco antes de morrer

A última aparição pública de Freddie Mercury havia sido em fevereiro de 1990, quando o Queen foi homenageado no Brit Awards. A última música gravada por ele foi “Mother Love”, presente no álbum póstumo “Made In Heaven”, de 1995. O registro foi feito em meados de outubro de 1991. Cada verso era cantado e gravado pelo menos quatro vezes, de forma separada, em função da saúde já debilitada. Ainda assim, Mercury não desistiu e permaneceu trabalhando até quando não conseguiu mais.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 5 anos sem Jani Lane, o eterno vocalista do Warrant

Nesta semana, a morte de Jani Lane, ex-vocalista do Warrant, chega a seu quinto aniversário. Um falecimento melancólico, arrastado e praticamente anunciado de forma prévia, meses – ou anos – antes de acontecer.

Morto aos 47 anos, no dia 11 de agosto de 2011, Jani Lane deixou a impressão de que talvez tenha atingido o máximo de fama que poderia entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, mas que poderia ter tido uma carreira muito mais sólida após isso. Cantor, multi-instrumentista e compositor de talento, Lane foi engolido pelo alcoolismo desde o momento em que sua conta bancária engordou.

O mais jovem entre os cinco filhos de Eileen e Robert Oswald, Jani Lane tinha nome de presidente: John Kennedy Oswald. Desde cedo, mostrava talento para a música, pois, logo aos seis anos, começou a aprender a tocar guitarra, piano e bateria com dois de seus irmãos. Lane sempre foi ligado ao rock e deu início à carreira de músico aos 11, tocando em pubs de sua cidade natal, Akron, em Ohio, Estados Unidos.

Logo após se formar no colegial, Jani Lane recusou uma bolsa de estudos por excelência atlética – era um bom jogador de futebol americano – para buscar o sonho de se tornar uma estrela do rock. Transitou por bandas e cidades até se mudar em definitivo com o baterista Steven Sweet, que viria a integrar o Warrant, para Los Angeles, em 1984. Viveu a decadência do “rock pobre” como muitos que tentaram a fama por ali, chegando a dividir uma casa com outras 12 pessoas.

Warrant e consagração

O Warrant foi formado pelo guitarrista Erik Turner no mesmo ano em que Jani Lane se mudou para Los Angeles. Além de Lane e Sweet, que entraram em 1986, e Turner, completavam a formação os músicos Jerry Dixon e o guitarrista Joey Allen.

Cerca de dois anos, veio o contrato com a Columbia Records. “Dirty Rotten Filthy Stinking Rich” [1989], disco de estreia, demorou um pouco a ser lançado porque Jani Lane sofreu um colapso nervoso ao flagrar sua namorada com Richie Sambora na cama – história que veio a ser contada na música “I Saw Red”, no trabalho seguinte. Mas o álbum saiu e colocou o Warrant em evidência.

O auge veio com “Cherry Pie” [1990], especialmente em função da música que dá nome ao disco e seu videoclipe. Foi, inclusive, nas gravações do clipe que Lane conheceu sua futura esposa, a atriz Bobbie Brown, que namorava com Matthew Nelson à época.

Jani Lane sempre se mostrou um sujeito intenso e, de certa forma, impulsivo – fator de risco para que problemas relacionados a álcool e drogas aparecessem. Ele gastou o seu primeiro grande pagamento recebido da gravadora em um carro de luxo e o destruiu semanas depois. Casou-se com Bobbie Brown, que já estava grávida, menos de um ano após conhecê-la. Tudo era muito rápido.

Decadência profissional e problemas

O sucesso de Jani Lane também foi intenso e rápido. O topo foi conquistado em menos de dois anos e não foi possível se manter por ali. “Dog Eat Dog” [1992], terceiro disco do Warrant, teve boa repercussão, mas não repetiu o sucesso dos álbuns anteriores. Lane não se conformava com isso e saiu do Warrant para apostar em uma carreira solo, mas voltou menos de um ano depois.

Jani Lane já tinha problemas de alcoolismo relatados enquanto ainda estava no auge de sua carreira. Bobbie Brown afirma, em entrevistas e depoimentos anteriores, que Lane se transformava em outra pessoa quando bebia. Há quem diga que o cantor não tinha problemas com outras drogas. A questão era mesmo com o álcool.

O sucesso da banda foi comprometido pelos problemas pessoais de Jani Lane, que era o principal compositor. E o álcool, em si, resultou no fim do casamento entre o cantor e Brown, em 1994, três anos depois.

No underground

Entre 1994 e 2004, o Warrant lançou discos por gravadoras modestas, fez turnês em pequenas casas de shows, sofreu com repetidas mudanças em sua formação e sobreviveu da forma que dava. Até que Jani Lane saiu, em janeiro de 2004.

O relacionamento com Jani Lane era complicado a ponto de mudanças na formação da banda se tornarem rotineiras. O próprio vocalista saía do grupo e pedia para voltar dias depois. Relatos apontam que o problema estava mesmo quando Lane bebia. O cantor entrou em clínicas de reabilitação diversas vezes, mas não deu certo.

Curiosamente, quando Jani Lane saiu de vez, em 2004, os demais membros da formação original da banda voltaram a tocar juntos. Não foi por acaso: com Jaime St. James no lugar de Lane, o relacionamento era bem mais fácil, segundo os próprios músicos.

Paralelamente, Jani Lane lançou o disco solo “Back Down To One” [2003] e o álbum “Love The Sin, Hate The Sinner”, com o projeto Saints Of The Underground [2008]. Ambos os trabalhos ficaram restritos ao underground, como tudo produzido pelo Warrant após “Dog Eat Dog”.

No âmbito pessoal, Jani Lane se casou com outra modelo/atriz: Rowanne Brewer, que ficou conhecida recentemente por expor à mídia detalhes de seu namoro com Donald Trump, candidato à presidência dos Estados Unidos. Lane e Brewer ficaram juntos entre 1996 e 2005 e tiveram uma filha.

Reunião e decadência pessoal

Warrant e Jani Lane voltaram a se apresentar juntos em 2008, mas a reunião foi incrivelmente conturbada. Poucos meses depois de voltarem a tocar juntos, Lane e os músicos se desentenderam. E a motivação foi, novamente, relacionada ao alcoolismo do cantor.

O vocalista subiu bêbado ao palco em várias apresentações. Além de protagonizar fiascos em suas performances – como esquecer letras, se perder nas músicas ou cantar mal -, Jani Lane chegou a bradar “eu sou o Warrant” durante um show. Fim da linha. Dessa vez, Lane foi demitido ao invés de sair por conta própria.

Erik Turner explicou, em entrevista concedida ao site Rock Music Star no ano de 2011, que a banda pagou tratamentos para Jani Lane superar a dependência. Não havia uma garrafa de bebida alcoólica sequer nos camarins. “Mas ele desaparecia e voltava bêbado – isso quando voltava”, afirmou.

A decadência pessoal se atenuava. O fracasso com o Warrant, os casamentos sem sucesso e a morte da mãe, em 2004, deixaram Jani Lane em frangalhos.

Entre 2009 e 2010, o vocalista foi preso duas vezes por dirigir embriagado. Também em 2009, tornou-se pública uma dívida de US$ 121 mil com a Receita dos Estados Unidos, acumulada entre 1997 e 2006. Já no início de 2011, ano de sua morte, uma turnê solo do cantor foi cancelada devido aos problemas com o alcoolismo, apesar de ele ter voltado pouco tempo depois substituindo Jack Russell no Great White

Os sinais de que Jani Lane estava prestes a morrer e precisava de ajuda eram claros. Apenas um milagre poderia salvá-lo. Infelizmente, isso não aconteceu.

Morte no fundo do poço

Jani Lane foi encontrado morto em um quarto de hotel em Los Angeles, em 11 de agosto de 2011, vítima de intoxicação alcoólica. Ele estava sozinho na ocasião. Remédios e uma garrafa de vodca foram encontradas no local.

Além de não carregar nenhum centavo ou documento consigo, Jani Lane estava com um bilhete no bolso de sua calça que dizia “Eu sou Jani Lane” e o número de telefone de uma pessoa próxima. O recado havia sido escrito por outra pessoa, que previu que Lane poderia ser encontrado desacordado em algum lugar.

A situação era um pouco inusitada, pois Jani Lane havia se casado com Kimberly Nash em 2010. Até hoje, não se sabe porque Lane estava longe de sua esposa na cidade onde o casal morava. Ele foi expulso de vários hotéis nas suas últimas semanas de vida.

Brigas na imprensa se tornaram comuns entre familiares de Jani Lane e músicos do Warrant. Mas, no fim das contas, não existe culpado. Alcoolismo é uma doença e Lane, infelizmente, sucumbiu a ela.

É triste afirmar que a morte de Jani Lane era esperada. Trata-se, porém, de uma afirmação real. Era uma questão de tempo.

Leituras recomendadas:

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Sircle Of Silence, a faceta metal de David Reece

Quem teve alguma paciência ao ouvir e assimilar o subestimado “Eat The Heat” (1989), do Accept, provavelmente se surpreendeu com David Reece. O vocalista americano teve a difícil tarefa de substituir Udo Dirkschneider na banda alemã.

Acima, o Sircle Of Silence, em 1993

Por mais que os fãs mais tradicionais ignorem “Eat The Heat”, justamente por sua pegada mais “americanizada”, David Reece se saiu bem em sua tarefa de maior reconhecimento até os dias de hoje. O que há de melhor em sua trajetória, porém, é a discografia posterior ao Accept.

Após se envolver com o ótimo projeto de hard rock Bangalore Choir, David Reece mergulhou de vez no heavy metal com o Sircle Of Silence. O projeto foi composto, também, pelo guitarrista Larry Farkas (Vengeance Rising), pelo baixista Chris Colovas (Masi) e pelo baterista Jay Schellen (Hurricane, Unruly Child).

Atenção: o áudio do clipe acima está bem baixo.

Não há muita semelhança entre o Sircle Of Silence e o Bangaloire Choir. A essência da voz e do estilo de David Reece está presente em ambos, mas é como se o Sircle Of Silence não contasse com dedo de produção ou ganchos melódicos típicos do hair metal. A pegada é dark, como se pedia na década de 1990.

O Sircle Of Silence lançou dois discos de propostas parecidas: o debut autointitulado, de 1993, e o posterior “Suicide Candyman”, de 1994. A falta de uma boa produção – provavelmente pelo baixo orçamento, já que os trabalhos são independentes – é o único defeito de ambos os álbuns.

A influência de Judas Priest, principalmente na voz de David Reece, é notável. Larry Farkas, por sua vez, se destaca como um filho bastardo de Zakk Wylde. O restante do instrumental é bom e dá uma dose extra de peso, especialmente pelo competente Jay Schellen, uma espécie de nome consagrado no underground do hard rock.

Após dois discos de praticamente nenhum sucesso, o Sircle Of Silence encerrou as atividades. David Reece não voltou a fazer metal novamente, Jay Schellen se consolidou como músico de estúdio e os demais músicos desapareceram do mercado.

Por mais que eu considere que o debut se destaque, os dois álbuns do Sircle Of Silence merecem atenção. Para quem tiver um pouco mais de tempo disponível, vale conferir outros trabalhos da discografia de David Reece.

Sircle Of Silence [1993]

1. Color Blind
2. Talk To Myself
3. Bring Me A Miracle
4. Pieces of a Fallin’ Star
5. Craving
6. Angels Cryin’
7. Death By a Word
8. Livin’ Above the Law
9. Landslide
10. Dancin’ On the Sun
11. Words Get Lost
12. Slow Burn

Suicide Candyman [1994]

1. Suicide Candyman
2. Gonna Die Laughing
3. Walls and Bridges
4. There’s Nobody Sacred
5. 9-Lives
6. Someday Never Comes
7. Sail Away
8. Gift Horse Mouth
9. No Turnin’ Back
10. Drive the Nail

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Os 30 anos do ‘canto do cisne’ do Queen em Wembley

Até hoje, o Queen soa muito atual. Não só com relação aos discos, mas também ao que levaram para os palcos. Ainda é referência para artistas de todos os estilos – inclusive, nomes do pop têm aproveitado mais a influência do quarteto britânico que os próprios grupos de rock. Torna-se curioso perceber, no entanto, que o canto do cisne da banda em turnê aconteceu há 30 anos.

A icônica apresentação do Queen no estádio de Wembley, em Londres, Inglaterra, aconteceu no dia 12 de julho de 1986. Foi a segunda e última apresentação em sequência da banda no local. Cada show reuniu 75 mil pessoas, uma marca impressionante em território europeu se considerar que era uma performance apenas do grupo, sem envolvimento a nenhum festival.

Não foi o show final do Queen, nem a performance derradeira da “Magic Tour”, que foi, de fato, a última turnê da banda. No entanto, a performance em Wembley marcou o imaginário popular, por ter sido lançada em vídeo. Três décadas depois, ainda é uma espécie de show-referência no rock e na música popular em si.

O show, completo:

O contexto

O contexto vivido pelo Queen antes da “Magic Tour” era curioso. Após a icônica apresentação no Live Aid, em 1985, a banda contou com uma nova potencialização de seu trabalho. A performance, assistida por uma multidão in loco e por todo o mundo pela transmissão televisiva, foi excelente. O grupo sabia como dominar o palco. A situação, que já era boa com o hit “I Want To Break Free”, de 1984, ficou ainda melhor após o “efeito Live Aid”.

Sempre de proporções imensas, o Queen parecia, enfim, ter atingido o patamar que almejava desde o início da década de 1970. Nem mesmo os clássicos dos anos anteriores foram capazes de colocar a banda no pedestal que estava. A força era tamanha que o mediano álbum “A Kind Of Magic”, lançado um mês antes do show de Wembley, fez muito sucesso na Europa.

Por outro lado, vale destacar que o Queen era imenso na Europa – e no resto do mundo –, mas cada vez mais ignorado nos Estados Unidos. A banda abriu mão da América e, com isso, a própria cultura local deixou de dar ouvidos ao Queen. O sucesso do grupo era menor do que no restante do globo.

O Queen estava gigante ao ponto de poder escolher os locais para os quais venderia seu trabalho. Obviamente, “A Kind Of Magic” teve distribuição mundial. Mas a “Magic Tour” não. Foi opção própria, da banda, de não tocar nos Estados Unidos, mesmo sendo o principal mercado artístico de todo o mundo.

O show em Wembley

Geralmente, é estranho comentar sobre um show que não se presenciou pessoalmente. Não era nascido quando a apresentação em Wembley aconteceu – e, mesmo se fosse, provavelmente não estaria no imponente estádio no dia 12 de julho. Ainda assim, não gera desconforto falar sobre a performance do Queen nessa data.

A megaestrutura disponibilizada ao Queen, com cinco mil amplificadores, quase 14 km de cabos e um enorme telão de seis por nove metros, foram correspondentes ao tamanho da banda naquele dia. A apresentação de quase duas horas foi, provavelmente, a melhor da história do grupo.

O registro foi capaz de captar o que era o Queen naquele momento. O clima entre os músicos, os talentos individuais se complementando, o repertório bem construído… tudo deu certo naquela noite.

O estilo prima-donna de Freddie Mercury estava ainda mais aflorado. A homossexualidade do cantor não era discutida publicamente – a não ser em tabloides –, mas Mercury se sentia cada vez mais à vontade com quem era. A leveza de saber quem era e a que veio fez com que Freddie estivesse muito confiante em sua última turnê e, especialmente, na apresentação em Wembley.

O restante da banda se manteve estável, ancorada na confiança de sempre, mas com a precisão potencializada. O primor técnico e o entrosamento de Brian May, Roger Taylor e John Deacon são visíveis na gravação da apresentação.

O futuro do Queen

Após fazer história no palco de Wembley, o Queen fez mais 10 shows. O último deles, em 9 de agosto de 1986, no Knebworth Park, na Inglaterra, para 120 mil pessoas. Toda a turnê, aliás, foi constituída de apresentações em grandes arenas e destinadas a milhares e milhares de pessoas. Depois disso, o grupo não voltou mais a se apresentar em um palco.

Não dá para dizer que Freddie Mercury pensava em abandonar as turnês após a “Magic Tour”. Pessoas próximas e relatos do livro “A verdadeira história do Queen”, de Mark Blake, apontam que Mercury começava a se incomodar com a própria idade – afinal, já era um quarentão. Ele dava indícios de que diminuiria o ritmo a partir de então. Não queria se tornar uma caricatura de si próprio.

Diferente do que se afirma, Freddie Mercury não sabia que tinha Aids. Ou sabia e não contou a ninguém, mas nunca disse que planejava mudar tanto os planos de sua carreira, a ponto de não fazer mais turnês. Freddie já apresentava alguns problemas de saúde, mas eram encarados como ocorrências “naturais”, visto que era um verdadeiro boêmio.

Naquele momento, a situação mais complicada era vivenciada por John Deacon. Desde o início da década de 1980, o baixista se sentia desgastado a ponto de considerar deixar o Queen. Pessoas próximas afirmam que ele não conseguia voltar a ser uma pessoa normal após as turnês. Sinal típico de um problema psicológico. O sucesso de “I Want To Break Free” – composição dele – e o “efeito Live Aid” seguraram Deacon na formação, mas se o ritmo da banda continuasse frenético, o músico, fatalmente, sairia.

O que veio depois da “Magic Tour” e do show de Wembley foi uma banda que tentou dar o seu máximo de acordo com as circunstâncias. Relatos apontam que Freddie Mercury foi diagnosticado com Aids em 1987 e, a partir de então, foi tomada a decisão de não fazer mais turnês. Mas a doença era uma bomba-relógio. Freddie sabia que iria morrer logo. Só não sabia, com precisão, quando seria.

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Os 20 anos do fim do Alice In Chains – e os 10 anos do recomeço

O ano de 2016 é, de certa forma, marcante para o Alice In Chains. Para o bem e para o mal. No último domingo (3), completou-se 20 anos do último show da banda antes da morte do vocalista Layne Staley. Por outro lado, em maio deste ano, a nova formação com William DuVall nos vocais chegou a 10 anos de existência.

O Alice In Chains ainda era relevante em 1996. A banda transitava por underground e mainstream com excelência e ainda se mantinha fiel à sonoridade que fazia desde o início da carreira.

No entanto, os problemas já tomavam conta do Alice In Chains internamente. A saída do baixista Mike Starr, as internações de Layne Staley e a opção por não fazer uma turnê para divulgar o disco “Alice In Chains”, lançado no fim de 1995, demonstravam o desgaste.

Em abril de 1996, a banda voltou a fazer um show depois de dois anos e meio fora dos palcos. A apresentação em questão foi a que originou o “MTV Unplugged”. Impulsionados, os músicos voltaram de vez à estrada como banda de abertura da turnê de reunião do KISS.

Não durou muito: a última performance com Layne Staley aconteceu em 3 de julho daquele ano, em Kansas City, nos Estados Unidos. Pouco depois da apresentação, Staley foi levado a um hospital após sofrer uma overdose de heroína. Foi o começo do fim.

A derrocada de Layne Staley

Os últimos anos de Layne Staley foram muito reservados. O cantor optou pela reclusão após a morte de sua ex-noiva, Demri Parrott, em 1996. Antes disso, pelas suas letras, Staley já pedia ajuda. As drogas são tema de praticamente metade das composições de “Dirt” (1992).

Com a pausa do Alice In Chains, o guitarrista Jerry Cantrell começou a trabalhar em uma carreira solo, que contou com contribuições do baterista Sean Kinney e do baixista Mike Inez. Em 1998, mo mesmo ano em que o primeiro disco solo de Cantrell – “Boggy Depot” – era lançado, Layne Staley saiu de sua caverna e convidou os músicos do Alice In Chains para gravar duas músicas, que integraram o box set “Music Bank”.

Depois de 1998, o Alice In Chains lançou um disco ao vivo – com gravações antigas, é claro – e duas coletâneas. Graças a empresários, não aos músicos. Jerry Cantrell focou ainda mais em sua carreira solo e Layne Staley se afundou de vez. Ele estava perdendo a batalha contra as drogas.

Staley já se reconhecia como um viciado, mas, por estar cada vez mais recluso, dificilmente era localizado por seus amigos. Quando alguém o encontrava e oferecia ajuda, ele recusava. Boa parte das pessoas de seu círculo, progressivamente retrito, também tinha vício em alguma droga, o que só atrapalhou.

Em entrevista à Rolling Stone, Sean Kinney disse que era impossível ter algum tipo de contato com Layne Staley em seus últimos anos. “Mesmo quando você conseguia entrar no condomínio onde ele vivia, ele não abria a porta. Você ligava e ele não atendia. Você não poderia somente chutar a porta e levar ele, apesar de que muitas vezes eu pensei em fazer isso. Mas se alguém não se ajuda, o que, de fato, alguém pode fazer?”, disse.

O relato é semelhante ao de outros integrantes do Alice In Chains, profissionais que trabalhavam com a banda e colegas do ramo, como membros do Pearl Jam. Somente alguns familiares conseguiam contato com Layne Staley e, aparentemente, não foi suficiente para salvá-lo de um vício potencializado.

A última entrevista que Layne Staley concedeu tem ares de melancolia. À escritora Adriana Rubio, três meses antes de falecer, Staley já dizia que sabia que morreria, após anos de uso de cocaína, heroína e, nos anos finais, crack.

“Essa m*rda de droga é como a insulina que um diabético precisa para sobreviver. Não estou usando drogas para ficar chapado, como pensam. Sei que cometi um grande engano usando essa m*rda. Meu fígado não funciona mais, vomito toda hora e defeco em minhas calças. A dor é maior do que se pode suportar. É a pior do mundo”, disse.

Com a aparência deteriorada, pesando apenas 39 kg e sem vários dentes, Layne Staley foi encontrado morto no dia 19 de abril de 2002, duas semanas após realmente ter falecido. Foi o fim de uma era.

O renascimento do Alice In Chains

O fim de uma era, nesse caso, representou o início de outra. Jerry Cantrell, Mike Inez e Sean Kinney, que haviam tocado juntos em outras oportunidades entre 1996 e 2002, se reuniram em 2005 para um show beneficente. No ano seguinte, entraram em turnê com William DuVall. O Alice In Chains estava de volta.

Há, evidentemente, quem rechace o retorno do Alice In Chains até hoje, mesmo 10 anos após o retorno. Existe uma discussão sobre continuar ou não com uma banda sem algum membro muito importante e ela é natural. É uma situação que sempre irá dividir fãs.

Mas não dá para criticar as intenções dos envolvidos. Especialmente a de William DuVall. Competente vocalista, bom guitarrista e um performer em constante evolução, DuVall aceitou o irrecusável convite para se juntar à banda, assumiu a bronca e teve boa participação no novo Alice In Chains, agora capitaneado por Jerry Cantrell.

Dois discos já se resultaram dessa nova proposta. Lançado em 2008, o ótimo “Black Gives Way To Blue” tem um tom de homenagem a Layne Staley e um som muito coeso. “The Devil Put Dinosaurs Here”, de 2013, é mais arrastado e já não me soou tão atraente como o anterior, mas tem seus bons momentos.

Antes de morrer, Layne Staley disse que os demais membros do Alice In Chains não eram seus amigos de verdade, pois não se importaram com ele. No entanto, sabe-se que, infelizmente, Staley recusou ajuda. O vício é uma doença como qualquer outra. Não existe culpado.

A solitária morte de Layne Staley ocorreu por diversos fatores, não só por um suposto abandono por parte de Jerry Cantrell e Sean Kinney. O fim de uma era não pode barrar o início de outra. Nos últimos 10 anos, o Alice In Chains tem ido bem – seja pela necessidade de fazer algo novo ou pelo intuito de manter viva a memória de Staley. E espero que continue assim.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.