Cabeçote: Arnel Pineda, vocalista do Journey graças ao YouTube

A história dos sonhos de qualquer integrante de uma banda cover aconteceu com Arnel Pineda. O vocalista filipino foi encontrado pelo Journey por meio do YouTube.

O antecessor de Arnel Pineda, Steve Augeri, sofreu com problemas de garganta desde 2003. Além de usar bases pré-gravadas, Augeri precisava passar diversas partes do vocal principal a Deen Castronovo, especialmente os gritos, para que aguentasse fazer os shows por completo.

Em 2006, o ex-membro do Tyketto foi dispensado. Ele precisava tratar as infecções corriqueiras que vinha sofrendo.

Jeff Scott Soto assumiu o posto por quase um ano, como um estepe. Não foi efetivado. O Journey dava a entender que JSS ficaria com a vaga, mas a banda deu uma pausa após anunciar, já em junho de 2007, que ele não seria o vocalista em definitivo.

Ao invés de acionarem seus contatos em busca de um cantor para a vaga, o guitarrista Neal Schon e o tecladista Jonathan Cain decidiram procurar por um frontman via YouTube. Uma atitude ousada, ainda mais há dez anos.

Curiosamente, o YouTube era uma ferramenta nova naquela época. A plataforma de vídeos foi criada em 2005 e, no ano seguinte, foi comprada pelo Google. O site já era bastante utilizado em 2007, mas seu acervo naquele período não se compara ao de hoje.

Dessa forma, quais eram as chances do Journey encontrar um novo vocalista pelo YouTube? E, de quebra, qual a probabilidade de achar algum cantor que já morasse próximo aos músicos, em San Francisco (Estados Unidos) ou estivesse disposto a largar tudo para se juntar à banda?

Ainda que com chances reduzidas, Neal Schon e Jonathan Cain apostaram suas fichas. A dupla encontrou Arnel Pineda, um cantor relativamente conhecido nas Filipinas.

Quem é Arnel Pineda

Nascido na cidade de Manila, no dia 5 de setembro de 1967, Arnel Pineda foi incentivado a cantar por seus pais – em especial sua mãe, que faleceu quando ele tinha apenas 13 anos. Desde jovem, Arnel participou de vários programas de TV e competições musicais nas Filipinas.

Graças a uma competição do tipo, promovida pela Yamaha, a sua banda, Amo, conseguiu repercussão no fim da década de 1980. Arnel continuou a aparecer em programas de TV e chegou a gravar um disco solo, em 1999, pela Warner Bros, que também fez sucesso em âmbito local. Na época, ele chegou a morar em Hong Kong, onde trabalhava como cantor de bandas que faziam shows-baile em bares e casas noturnas.

Um ano antes de ser descoberto pelo Journey, Arnel Pineda havia voltado para as Filipinas para uma superbanda de covers, chamada The Zoo. O projeto tocava quase todos os dias e fazia relativo sucesso na região. Paralelamente, investia-se em músicas autorais, compiladas no disco “Zoology”.

A união via YouTube

Alguns vídeos das performances do The Zoo, tocando músicas do Journey, Survivor, Aerosmith, Led Zeppelin, Air Supply, Stryper e Kenny Loggins começaram a aparecer no YouTube. As performances do Journey se destacavam: versões para “Open Arms” e “Faithfully” faziam muito sucesso entre quem acompanhava os shows.

No fim de junho de 2007, os músicos do Journey já estavam desistindo de encontrar um novo vocalista. Neal Schon e Jonathan Cain passavam horas na frente do computador e não conseguiam achar nenhum bom cantor. Por acaso, Schon se deparou com vídeos do The Zoo. Para ser mais específico, com o vídeo abaixo.

Arnel Pineda era o que o Journey precisava. Além de ser um cantor de registro vocal semelhante ao de Steve Perry, Arnel tem personalidade fácil de se lidar, estava disposto a deixar tudo para trás em prol de um momento com a banda que tanto gostava e não era um “talento de YouTube”: ele já tinha grande experiência e não era nenhum aventureiro.

Impressionado, Neal Schon entrou em contato com um fã e amigo de Arnel Pineda, Noel Gomez, que havia feito o upload de vários desses vídeos. Schon queria entrar em contato com Pineda. O guitarrista enviou um e-mail, convidando Arnel para uma audição nos Estados Unidos, mas o cantor não acreditou e ignorou a mensagem.

Após ter sido convencido por Noel Gomez a responder, Arnel Pineda entrou em contato. Minutos depois, recebeu a ligação de Neal Schon. Mesmo que tardiamente – não parece, mas ele logo faria 40 anos -, o sonho de se tornar um astro do rock, mundialmente conhecido, se concretizaria.

Semanas depois, Arnel Pineda viajou para os Estados Unidos e precisou cantar uma música do Journey para mostrar o porquê de estar lá. Deu certo: o cantor chegou a San Francisco e conseguiu a vaga. Desde então, Arnel segue no Journey. Com a banda, ele gravou dois discos: “Revelation” (2008) e “Eclipse” (2011).

Essa história é contada, com mais detalhes, no documentário “Don’t Stop Believin’: Everyman’s Journey”, lançado em 2012. O filme retrata, com detalhes, a entrada de Arnel Pineda ao Journey.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Elton John quase foi vocalista do King Crimson

Elton John tem uma conexão com o rock que segue desconhecida por muitos. Seus primeiros discos flertam com gêneros como o rock progressivo, o psicodélico e o folk, apesar da pegada soft/pop sempre ter marcado presença.

A ligação de Elton John com o rock poderia ter sido ainda mais intensa se ele tivesse entrado para o King Crimson. O músico chegou a ser considerado para fazer parte da banda no ano de 1970.

Simon Dupree/Gentle Giant

Tudo começou quando Elton John, até então desconhecido e sob o seu nome de batismo – Reginald Dwight -, integrou, como pianista, o grupo britânico Simon Dupree And The Big Sound, durante parte do ano de 1967. A banda de rock/pop psicodélico era formada por três irmãos da família Shulman: Phil, Derek e Ray.

Inicialmente, Elton John havia sido contratado para substituir Eric Hine, que estava doente, para uma turnê na Escócia. A sua performance acabou agradando e ele foi convidado a permanecer.

Só que duas situações desagradaram o pianista na época. A primeira é que os integrantes do Simon Dupree And The Big Sound se recusaram a gravar algumas de suas composições – embora tenham registrado “I’m Going Home” como B-side de um single. A segunda é que os músicos riram quando ele, então Reginald Dwight, disse que passaria a atender pelo nome artístico de Elton John.

John acabou não sendo efetivado e o Simon Dupree And The Big Sound encerrou suas atividades em 1969. A banda foi reformada sob a alcunha Gentle Giant, em uma pegada mais ligada ao rock progressivo e ao experimental.

King Crimson

Decidido a investir em sua carreira solo, Elton John voltou a se dedicar aos seus projetos particulares. Na época, ele também trabalhava como músico de estúdio e principal compositor da DJM Records. Ao lado de seu eterno parceiro, Bernie Taupin, Elton produziu material para Roger Cook e Lulu, além de ter gravado piano para a música “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”, do The Hollies.

Em 1970, Elton John já contava com dois discos lançados e começava a fazer sucesso graças ao hit “Your Song”. Ainda assim, estava em busca de mais projetos para trabalhar.

Um desses projetos foi o King Crimson, que começava a despontar como revelação do rock progressivo graças ao disco “In The Court Of The Crimson King” e ao show de abertura que fizeram para os Rolling Stones no Hyde Park, para 500 mil pessoas.

Antes das gravações de seu segundo disco, “In The Wake Of Poseidon”, o King Crimson passou por diversas mudanças em sua formação. O guitarrista Robert Fripp ficou sozinho na banda, enquanto todos os demais músicos foram dispensados ou deram no pé, como o vocalista Greg Lake.

Robert Fripp, então, passou a procurar por músicos para gravar “In The Wake Of Poseidon”. O baterista Michael Giles, que gravou “In The Court Of The Crimson King”, acabou por retornar para o registro, enquanto seu irmão, Peter Giles, assumiu o baixo. O saxofonista Mel Collins e o pianista Keith Tippett também colaboraram.

Faltava um cantor para substituir Greg Lake. E foi para esta vaga que Elton John faria um teste. A ideia era que ele ocupasse a vaga de vocalista e, pelo menos, registrasse “In The Wake Of Poseidon”, sem compromisso inicial de realizar uma turnê. Robert Fripp se animou com a ideia, visto a ligação de John com os irmãos Shulman, que, naquele momento, tocavam adiante o Gentle Giant.

O teste nunca aconteceu. Robert Fripp marcou uma audição com Elton John, mas voltou atrás e desmarcou o compromisso após ouvir um dos primeiros discos do músico britânico – provavelmente “Empty Sky”, o debut, de 1969. Não que Fripp tenha considerado John ruim, mas o guitarrista pensou que a voz dele não se encaixaria na proposta do King Crimson.

Curiosamente, Elton John já havia sido contratado para gravar os vocais antes mesmo de ter sido feito o teste. E, mesmo com a desistência por parte de Robert Fripp, foi necessário pagar 250 euros para Elton John, que embolsou o valor sem cantar uma nota sequer em “In The Wake Of Poseidon”.

As vozes do disco acabaram sendo gravadas por Greg Lake. Neste caso, o pagamento pelo serviço não foi feito em dinheiro: Lake recebeu o equipamento de amplificação de som (as PAs) do King Crimson.

Apesar dos backgrounds diferentes, imagino que seria satisfatório para o King Crimson ter um disco com Elton John. O músico é altamente talentoso e creio que ele não faria feio durante as gravações.

No fim das contas, Elton John chegou à fama com seus discos lançados posteriormente e atingiu um novo patamar em 1973, com “Goodbye Yellow Brick Road”. Desde então, não parou mais e se transformou em um dos artistas mais conhecidos – e ricos – da história.

O King Crimson, por sua vez, seguiu o seu caminho com diversos álbuns de estúdio. O grupo nunca repetiu os números de vendas do primeiro disco, “In The Court Of The Crimson King”, embora tenha construído uma excelente reputação em seu segmento e seja uma banda influente no rock progressivo. Tanto a banda quanto Elton John seguem em atividade até os dias de hoje.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: A entrevista que fez David Donato ser demitido do Black Sabbath

O Black Sabbath estava em frangalhos no ano de 1984. Em uma só tacada, a banda havia perdido o vocalista Ian Gillan, que alegara problemas vocais mas logo se reuniu ao Deep Purple, e o baterista Bev Bevan, que participou do retorno do ELO.

O guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler logo convidaram Bill Ward para voltar ao banco da bateria. Contudo, faltava uma importante figura: a do vocalista.

Desde a saída de Ozzy Osbourne, o Black Sabbath apostou em duas figuras consagradas. Ronnie James Dio tornou-se conhecido no Rainbow, enquanto o já mencionado Ian Gillan foi um dos grandes cantores da década de 1970. Musicalmente, ambos se deram bem no grupo – especialmente Dio, que fez história com o Sabbath -, mas, a longo prazo, não funcionou.

Apesar da imprensa especializada cravar nomes como David Coverdale e Robert Plant para o posto na época, a aposta foi em um completo desconhecido: David Donato. Antes disso, o também pouco notável Ron Keel fez um teste para a vaga, mas não agradou.

Com a escolha de Donato, armou-se o circo para o “novo Sabbath”. O consagrado produtor Bob Ezrin, nome por trás de trabalhos de Alice Cooper, Kiss e Pink Floyd, foi contratado para trabalhar nos ensaios e nas novas composições, que viriam a integrar um disco de inéditas.

Enquanto isso, a banda começou a trabalhar na divulgação da nova line-up. Uma sessão de fotos foi feita e uma entrevista foi concedida à revista Kerrang!, referência no assunto.

Logo depois, David Donato foi demitido. A versão oficial aponta que os músicos não haviam gostado do resultado das sessões com Bob Ezrin. Por fora, diz-se que a entrevista que David Donato concedeu à Kerrang! não agradou à banda. Os integrantes teriam considerado como “horríveis” as declarações do cantor.

Desiludidos, os músicos do Black Sabbath optaram por encerrar suas atividades naquele período. O material das sessões foi todo descartado, com exceção de “No Way Out”, que vazou e hoje pode ser conferida no YouTube. A faixa viria a ser “The Shining”, lançada no álbum “The Eternal Idol”, em 1987.

Cada integrante cuidou de seu respectivo projeto solo. O de Tony Iommi, curiosamente, se transformou no disco “Seventh Star” (1986), lançado com o nome do Sabbath.

David Donato, por sua vez, entrou para o White Tiger, banda montada por Mark St. John após ter sido dispensado do KISS. O projeto durou apenas um disco, se desmanchou e Donato caiu no esquecimento.

Abaixo, segue a entrevista traduzida de David Donato à Kerrang!, em 1984. Em outras palavras: a entrevista que teria custado o emprego do vocalista.

“Never say die” – por Laura Canyon (pseudônimo da jornalista Sylvie Simmons)

“Tenho tentado chegar a algum lugar por 15 anos e venho cantando muito antes disso – tenho colocado minhas aplicações nisto, por todo este tempo, e agora que tenho este emprego, tenho que provar que merecia a chance.”

Ao contrário de seus antecessores, David Donato à banda como um desconhecido.

“Minha opinião é que queriam outro membro para a banda, queriam de novo o sentimento de, ‘ei, vamos ser uma banda’, não uma unidade com um vocalista que fica como, ‘aqui estou eu, lá está a banda’. E foi isto que sempre quis, senão teria lançado uma carreira solo há um bom tempo. Gosto do sentimento de ‘gangue’, ‘aqui estão os caras’. E eles foram ótimos em me fazer sentir desta forma. Deve ficar ainda melhor.”

Dentro e fora de várias bandas, ao longo dos anos, que nunca fizeram sucesos fora de pequenos clubes, David fez seu nome como modelo masculino. “Pelo dinheiro – fiz isto para continuar cantando.” Ele trabalhou para a Playboy e para o programa de TV da Dinah Shore (“tinha o cabelo curto e tudo o mais”), até receber uma ligação da Armageddon, uma banda cujo frontman era Keith Relf, dos Yardbirds. Ele trabalhou com a banda por volta de um mês. “Estavam procurando por um vocalista porque Keith Relf teve uma forte asma e não conseguia seguir por uma música sem sair do palco.”

“Então eu fui até eles, mas nunca me pediram para entrar, só ensaiamos por um mês. Então, Keith Relf se eletrocutou, todos voltaram para a Inglaterra e foi a última coisa que ouvi deles – nunca fizeram mais nada, nem lançaram um disco. O material era datado, mas era meu estilo, um verdadeiro, pesado e velho metal inglês.”

“Então voltei para os trabalhos como modelo, ganhar dinheiro assim e fazer um projeto original, com meu material, e contratar as pessoas, ter o controle. Mas quanto mais você ganha, mais você gasta – então, estive em Palm Springs mais vezes do que pensava. Eventualmente, me enchi de ser modelo. Então voltei e fiz a coisa dos clubes, voltei com a minha voz.”

Após flertar com bandas como Virgin, Hero e Headshaker, David finalmente chegou a um projeto com Glenn Hughes e Mark Norton (Mark St. John), com o nome Dali. O projeto era financiado por um homem rico, dono de várias pinturas caras. Eram composições de David e ele cantou sobre elas.

“Se eu tivesse mantido aquilo junto de Mark, teria sido um supergrupo também.”

Mas tudo deu certo. A fita com as demos do Dali fez com que David entrasse para o Sabs e deu o emprego de Mark Norton ao Kiss. “E Glenn está fazendo um disco solo e o baterista daquela demo vai trabalhar com ele, então foi bom para todos.”

Mas estaria ele no mesmo estilo do restante do Sabbath, musicalmente?

“Sim, completamente. Lembro de dizer a Don (Arden, empresário do Sabbath) que se eu tivesse que pensar em qual das três melhores bandas de todos os tempos eu gostaria de substituir o vocalista, Sabbath provavelmente seria a número um.”

Números dois e três foram Zeppelin e Deep Purple. O rapaz mira alto. Mas sobre o mesmo estilo pessoal, o que dizer de David ser um americano e todos os outros americanos que estiveram na banda, a deixaram embaixo de uma nuvem?

“Nada parece ser um problema ainda. Todos têm sido solidários e há vários apertos de mãos e tapinhas nas costas. A liberdade parece estar ali. Não prevejo problemas e não aconteceu nada até agora.”

Ele vai começar a contribuir com suas músicas se aparecer com as coisas certas, ele diz. E quanto ao material antigo, “eles disseram, ‘temos todos aqueles discos se você precisar’ – mas eu já os tenho. Sei todas as músicas. Não tenho que me esforçar tanto em aprender as minhas músicas favoritas! Fui baterista por vários anos (em uma banda cover), então tocávamos muitas coisas do Black Sabbath quando ‘Paranoid’ era popular.”

Não parece um pouco estranho, ele diz, cantar em uma banda que ele tanto admirava. “Tudo parece estar indo muito bem. Sempre tive uma imagem sobre qual cantor o Sabbath deveria ter – e era eu!”

Veja também: Os cantores “misteriosos” do Black Sabbath (texto por João Renato Alves)

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Quando Pata, do X Japan, reuniu músicos do hard americano

O guitarrista Pata entrou para o X, posteriormente conhecido como X Japan, em 1987, um ano antes do lançamento do primeiro disco do grupo, “Vanishing Vision”. Em cinco anos, a banda se tornou uma das maiores do Japão, com a aposta em uma sonoridade que mescla speed metal a pitadas orquestradas visual kei – uma espécie de resposta ao glam ocidental.

Em 1993, o X Japan lançou “Art Of Life”, mas pouco o promoveu, visto que os membros já estavam dedicados, desde 1992, a projetos solo. Um dos trabalhos mais curiosos foi, justamente, o de Pata, que parece ser o músico mais ligado ao rock ocidental entre todos os seus colegas.

Em sua primeira empreitada solo, Pata montou, praticamente, uma banda de hard rock com influência do blues. Dois discos foram lançados: “Pata”, em 1993, e “Raised On Rock”, em 1995. E para tornar isto realidade, reuniu músicos de currículo pesado (e ocidentais) para o projeto.

Para seu primeiro disco, Pata contou com James Christian (House Of Lords) nos vocais, Tommy Aldridge (Whitesnake, Ozzy Osbourne, House Of Lords e outros) na bateria e colaborações pontuais de músicos como Mike Porcaro e Simon Philips (Toto), Tim Bogert (Cactus, Vanilla Fudge), entre outros.

O músico chegou a fazer uma pequena turnê para divulgar seu primeiro álbum. Levou consigo James Christian e Tommy Aldridge, entre outros músicos, para datas em casas de shows no Japão.

No álbum posterior, “Raised On Rock”, de 1995, Pata fez quase uma franquia oriental do House Of Lords: além de James Christian nos vocais, contou com Chuck Wright (também ex-Quiet Riot) no baixo e Ken Mary na bateria, além de Daisuke Hinata nos teclados. A formação é mais enxugada, visto que não houve tantas participações especiais.

Em ambos os discos, Pata aposta, como dito anteriormente, em um hard rock de influência bluesy, mas que também soava moderno e concatenado com a sonoridade praticada por grandes bandas americanas. Gosto mais do primeiro álbum, de 1993, apesar do segundo ser mais sóbrio em sua produção.

Ambos os trabalhos também alternam entre faixas instrumentais e canções com a voz de James Christian, que é um grande cantor. Nas músicas onde a guitarra de Pata é o destaque, a veia bluesy emerge. Quando Christian está no “comando”, a pegada é mais hard rock.

O X Japan continuou pouco movimentado até o fim de 1995, quando Pata já havia lançado seus dois discos solo. O grupo retornou para divulgar “Dahlia”, já em 1996, e encerrou suas atividades em 1997.

Após o fim do X Japan, Pata seguiu a investir em outros grupos, como o P.A.F., o Ra:IN e o Dope HEADz, mas, na minha opinião, nenhum chega aos pés de sua dupla de álbuns solo, que nunca mais foi revisitada. O X retomou atividades em 2007 e, desde então, não parou mais.

Pata – “Pata” (1993)

01. 6 Hours To Minute
02. East Bound
03. 5 O’ Clock
04. All The Way
05. So Far
06. Road Of Love
07. Little Iron Waltz
08. Story Of A Young Man
09. Psychedelic Jam
10. Positively Unsure
11. Strato Demon

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 4, 6, 8 e 9
Tim Bogert – baixo em 2, 4, 9 e 11
Gerald Johnson – baixo nas faixas 3, 5 e 6
Mike Porcaro – baixo nas faixas 10
Tommy Aldridge – bateria nas faixas 3, 4, 5, 6 e 9
Simon Phillips – bateria nas faixas 2, 10 e 11
Daisuke Hinata – teclados nas faixas 1, 2, 5, 6, 8, 10, 11
Rafael Padilla – percussão nas faixas 5, 8 e 10
Mike Finegen – órgão Hammond nas faixas 2

Ouça:

Pata – “Raised On Rock” (1995)

01. Raised On Rock
02. Weirdo
03. You’re My Everything
04. Silence Before The Storm
05. World Gone Insane
06. Tea For One
07. Fly Away
08. Blues For My Baby
09. Remind You

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 1, 3, 5 e 8
Chuck Wright – baixo
Ken Mary – bateria
Daisuke Hinata – teclados

Ouça:

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Quando Bernie Tormé e Brad Gillis tocaram com Ozzy Osbourne

Ozzy Osbourne contou com dois guitarristas distintos entre o falecimento de Randy Rhoads, em 19 de março de 1982, e a efetivação de Jake E. Lee, já em 1983. O primeiro foi Bernie Tormé (Gillan, Desperado), que integrou o grupo entre o fim de março e o início de abril de 1982. Depois, entrou Brad Gillis (Night Ranger), que ficou de abril a dezembro do mesmo ano.

O período em questão abrangeu duas turnês: a “Diary Of A Madman Tour” e a “Speak Of The Devil Tour”. A primeira ocorreu entre novembro e agosto de 1982 – ou seja, contou com as participações de Randy Rhoads, Bernie Tormé e Brad Gillis em diferentes datas. A segunda abrangeu o período entre dezembro de 1982 e maio de 1983 e, além de Gillis, contou com Jake E. Lee nas guitarras.

O período com Bernie Tormé

Bernie Tormé chegou para “apagar o incêndio”: precisava substituir Randy Rhoads o mais rápido possível. Apesar do falecimento do guitarrista, ainda existiam dezenas de datas da “Diary Of A Madman Tour” a serem cumpridas. Apenas oito shows, de 20 a 30 de março, foram cancelados. Foi o tempo que Ozzy Osbourne e seus músicos encontraram para ensaiar com Bernie e tentarem se recuperar emocionalmente para as apresentações.

Em recente entrevista ao Ultimate Classic Rock, Bernie Tormé relatou ter encontrado um cenário “horrível” ao encontrar Ozzy e seus músicos. “Cheguei em uma quinta-feira e Randy havia falecido no sábado anterior. Não havia passado uma semana. Ninguém falou comigo no dia em que cheguei, exceto Don Airey (tecladista). A atmosfera era terrível, com razão”, afirmou.

Bernie Tormé detalhou como cada músico se sentia com relação ao futuro da banda. “Suponho que, em algum nível, Tommy (Aldridge, baterista) e Don (Airey) queriam seguir em frente. Ozzy (Osbourne) não tinha o menor desejo nisto e Rudy (Sarzo, baixista), certamente, também não”, disse.

Depois de uma audição e três dias de ensaios, os músicos foram para o palco. E Bernie Tormé não se deu bem. O primeiro show de Bernie – no 1° de abril de 1982, em Bethlehem, Estados Unidos – foi, segundo ele, “horrível”. “Não estava com meus amplificadores, nem meus pedais e estava com apenas uma guitarra. Três ou quatro músicas tinham afinações diferentes e eu usei uma péssima guitarra alugada. Além disso, eu não sabia as músicas. Era difícil ouvir algo no palco, com aquele castelo e tudo. Só dava para escutar a caixa da bateria e Ozzy”, afirmou.

Tormé revelou, ainda, que Ozzy Osbourne chorava o tempo todo durante a turnê. “Saía do palco e o via atrás, chorando sem parar. Nos dias de folga, estava sempre fora de si. Ele não estava disposto a superar. Foi um terror, porque sua carreira ficou na m*rda por anos e ele não teve uma vida depois graças a Randy”, disse.

Boicote?

Apesar de relatar apoio da banda e da empresária Sharon Osbourne em continuar no posto de guitarrista, Bernie Tormé disse que estava sendo “boicotado”. “Antes do show no Madison Square Garden, não tive passagem de som. Disseram-me, depois, que a gravadora queria colocar Earl Slick como guitarrista. Fiquei p*to. Estou aqui, levando esses shows adiante, você me pede para ficar e depois faz isto?”, revelou, ainda ao Ultimate Classic Rock.

No fim das contas, Bernie Tormé tocou apenas sete shows e foi substituído por Brad Gillis, também de forma provisória. Eles se conheceram por acidente. “A gravadora americana não queria Brad, mas ele não conseguia agendar uma audição e viajou com a nossa equipe. Em um dia, no café da manhã, o vi com uma guitarra na mesa. Ele sabia todas as músicas e havia visto Randy tocar. ‘Estou aqui porque a gravadora quer que você saia’, ele disse.”

Segundo Bernie, Don Airey era o único que não queria um novo músico. “Eu disse, ‘Don, quero ir para casa e este cara é ótimo, deixe-o fazer um teste’. Já havia dito a Ozzy e Sharon que estava fora, mas ficaria até arrumarem um substituto. Depois, descobri que eles estavam carregando o substituto, mas não o haviam testado”, afirmou, surpreso.

O período com Brad Gillis

Brad Gillis ocupou a vaga de Bernie Tormé de forma quase imediata. O último show de Tormé ocorreu no dia 10 de abril de 1982, enquanto que o primeiro de Gillis aconteceu três dias depois, no dia 13.

O músico do Night Ranger contou, em entrevista concedida à Guitar World no ano de 2013, que havia assistido a um show de Ozzy Osbourne com Randy Rhoads. “Vi Ozzy meses antes de Randy morrer. Diziam que Randy era o próximo Eddie Van Halen, então fui assistir ao show – e ele me impressionou. Estava dirigindo quando ouvi a notícia de que ele havia falecido em um acidente de avião. Lembro de encostar meu caminhão e ficar pensando em como as coisas podem se perder tão facilmente”, afirmou.

Gillis conta que já estava no Night Ranger quando entrou para a banda de Ozzy Osbourne. “Nós do Night Ranger não queríamos tocar muito por aí até termos um contrato e estourarmos. Então, comecei uma banda chamada Alameda All Stars. Tocávamos em pubs e sempre havia algumas músicas de Ozzy no repertório”, disse.

Foi em um desses shows que Brad Gillis foi convidado para se juntar à banda de Ozzy Osbourne. “Após Randy morrer, alguém nos viu tocando e me disseram para tentar uma audição com Ozzy. Pensei, ‘é, claro’, mas esse ‘alguém’ era Preston Thrall (irmão de Pat Thrall, que tocou com Tommy Aldridge na banda de Pat Travers). Dias depois, recebi uma ligação por volta das oito da manhã. Na outra linha, uma mulher dizia, ‘oi, Bradley, aqui é Sharon Arden, empresária de Ozzy Osbourne, e gostaríamos que você viesse até Nova York para um teste'”, afirmou.

Brad contou ter pensado que era um trote, mas que Ozzy Osbourne também conversou com ele e pediu para que aprendesse a tocar 18 músicas. “Tive dois dias para aprender todas as músicas. Ozzy estava com Bernie Tormé como interino e queria me levar para ver alguns shows da turnê. Então, assisti às apresentações e passei quatro dias treinando por 12 horas cada”, disse.

No primeiro show, em Binghamton, Nova York, Brad Gillis cometeu apenas um erro. “Em ‘Revelation (Mother Earth)’, entrei na parte rápida um pouco antes e Ozzy me disparou um olhar mortal”, comentou o guitarrista.

Apesar de estar com Ozzy Osbourne, um superstar já naquela época, Brad Gillis preferiu seguir com o Night Ranger. “Fizemos vários shows e gravamos ‘Speak Of The Devil’, mas não sentia que aquilo era ideal para mim. A banda de Rudy Sarzo, o Quiet Riot, havia conseguido um contrato de uma gravadora naquela época e ele saiu. O Night Ranger também conseguiu um contrato, então rolei os dados e decidi pelo Night Ranger”, afirmou o músico. Vale destacar que Sarzo foi substituído provisoriamente por Pete Way.

Como citado por Brad Gillis, durante seu período com Ozzy Osbourne, ele registrou as guitarras do disco ao vivo “Speak Of The Devil”. O repertório consiste apenas em versões de músicas do Black Sabbath.

Ozzy Osbourne não queria lançar “Speak Of The Devil”. O álbum só foi feito porque ele devia dois discos à Jet Records. Anteriormente à morte de Randy Rhoads, o Madman e seus músicos trabalhavam no disco ao vivo que viria a ser “Tribute”, que acabou sendo engavetado e divulgado somente em 1987.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Ozone Monday, a banda formada das cinzas do Skid Row

Muitos pensam que o Skid Row apenas demitiu Sebastian Bach no meio da década de 1990 e seguiu suas atividades, apesar de tal sequência ter rolado em slow-motion. No entanto, a banda realmente chegou a encerrar suas atividades por três anos, entre 1996 e 1999, após o desligamento de Bach. E, neste período, os instrumentistas montaram uma banda chamada Ozone Monday, com outro vocalista.

Os motivos para a demissão de Sebastian Bach, até hoje, seguem nebulosos. E não é pela ausência de motivos, mas, sim, pelo excesso.

Bach nunca foi um cara fácil de se lidar. Tinha problemas para lidar com seu ego, mesmo não contribuindo em quase nada nas composições, e envolvia-se em brigas com frequência. O cantor chegou a socar o queixo de Jon Bon Jovi, um dos grandes responsáveis por facilitar a caminhada do Skid Row ao sucesso, após uma brincadeira que envolveu um “banho” de farinha e ovo. O vício em drogas e bebidas alcoólicas só agravou as características negativas da personalidade do vocalista.

O fim do Skid Row

Em 1996, um ano após o disco “Subhuman Race” ter sido lançado, Sebastian Bach foi desligado do Skid Row. O cantor alega que a razão da demissão foi uma discussão sobre uma proposta para que abrissem shows da turnê de reunião do KISS.

Sebastian Bach queria fazer as apresentações e chegou a fechar as datas. Rachel Bolan não quis, pois estava trabalhando em um projeto paralelo chamado Prunella Scales, com performances já agendadas no mesmo período.

Para convencer Bach a voltar atrás, alguns integrantes do Skid Row disseram que o grupo já era muito grande para abrir para o KISS. Fã de carteirinha dos mascarados, Bach respondeu que “a banda nunca será grande o bastante para abrir para o KISS” – com palavreado ofensivo no meio, é claro.

As origens do Ozone Monday

Sem Sebastian Bach, os integrantes remanescentes do Skid Row não quiseram dar continuidade à banda, que entrou em uma espécie de hiato. No lugar da consagrada banda de hard rock, nasceu o Ozone Monday.

A formação do Ozone Monday era composta pelos quatro remanescentes do Skid Row – os guitarristas Scotti Hill e Dave “The Snake” Sabo, o baterista Rob Affuso, o baixista Rachel Bolan – e o vocalista Shawn McCabe. O cantor era conhecido por ter integrado o Mars Needs Women, uma banda de rock alternativo que chegou a lançar um disco, “Sparking Ray Gun” (1995), por meio da Warner Records.

O trabalho de estreia do Mars Needs Women fez sucesso moderado e a banda acabou por excursionar com o Cheap Trick. No entanto, o grupo nunca chegou a um patamar de consagração semelhante ao do Skid Row, por exemplo.

Shawn McCabe já era conhecido de Scotti Hill. Na época em que o disco de estreia do Mars Needs Women foi lançado, o cantor e o guitarrista fizeram um projeto paralelo, chamado Chrome Daddy. A banda gravou algumas músicas que só foram lançadas posteriormente em coletâneas do selo independente Main Man Records.

Início e fim

O hiato do Skid Row coincidiu com uma pausa na carreira do Mars Needs Women. McCabe topou unir forças com os demais músicos e a banda começou em grande estilo: abriu shows do KISS (o mundo dá voltas, né?) e do Mötley Crüe antes mesmo de lançar um disco de estúdio.

Apesar de não contar com um álbum lançado, o Ozone Monday apresentava, em seus shows, um repertório completamente autoral. Nada de covers de Skid Row: a ideia era, mesmo, trabalhar em um novo projeto.

Musicalmente, o Ozone Monday se dissociava bastante do hard rock praticado pelo Skid Row. Tratava-se de um projeto orientado ao rock alternativo, com pitadas de pop rock. Na época, os integrantes descreviam o grupo como uma “união entre o Cheap Trick e o Oasis”.

Alguns shows foram feitos, tanto abrindo para KISS e Mötley Crüe quanto em pequenas casas, e um disco de estreia chegou a ser registrado. O trabalho foi produzido por Michael Wagener, que trabalhou com o Skid Row em seu primeiro álbum e em “Slave To The Grind”. Só que o registro, que deveria chegar às prateleiras das lojas em 1999, jamais foi lançado.

Não se sabe o motivo para o disco ter sido engavetado, mas basta dar o play na música abaixo para entender que, provavelmente, nenhuma gravadora aceitou investir grana no Ozone Monday. Além de musicalmente fraca, a banda era bastante genérica.

O Ozone Monday encerrou suas atividades em 1999, já sem Rob Affuso em sua formação. Scotti Hill, Dave “The Snake” Sabo e Rachel Bolan optaram por reformar o Skid Row, com Johnny Solinger nos vocais. Affuso não topou participar do retorno e foi substituído por Charlie Mills, que logo deu lugar a Phil Varone, que tocou no Saigon Kick e, com Bolan, no Prunella Scales.

Já Shawn McCabe assumiu o nome artístico Shawn Mars e voltou a trabalhar com o Mars Needs Women, bem como em outros projetos paralelos. Há diversos registros de sua carreira em seu canal de YouTube.

Neste mesmo período, vale destacar que Sebastian Bach estava mergulhado de cabeça em sua carreira solo. Ele estava com dois músicos da até então antiga banda solo de Ace Frehley – o guitarrista Richie Scarlet e o baterista Anton Fig – gravando um disco solo que, na verdade, nunca chegou a ser lançado. Ele seguiu envolvido em musicais de teatro e turnês até a metade da década seguinte, quando divulgou o álbum “Angel Down”.

Motivos?

Em 2014, o baterista Rob Affuso falou, em entrevista ao Metal Rules, sobre esse conturbado momento de sua vida, que engloba o fim do Skid Row e a concepção do Ozone Monday.

“Foi um período desconfortável. Não estava me dando bem com Sebastian, nem os outros caras. Ele estava muito difícil naquela época e isso forçou os caras a tomarem a decisão de trocar de vocalista. Eu não queria de fato seguir sem Sebastian. Achava que Sebastian era uma parte integral do Skid Row, tal como Rachel e Snake, porque eles compunham muito da música”, disse.

Ele afirmou, ainda, que não se sentia bem com o Ozone Monday. “Não estava convencido sobre a música que estávamos tocando, eu não estava convencido de que o vocalista [Shawn McCabe] era a escolha certa. Não que ele fosse ruim, ele era bom, mas eu não estava convencido de que ele fosse o vocalista certo. Perdi minha paixão por música. Foi aí que a banda e eu nos separamos, não estava mais interessado no que estávamos fazendo”, completou.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Widowmaker, o projeto de Dee Snider que poderia ter dado certo

Dee Snider não estava dando certo com o Twisted Sister desde a metade da década de 1980. O período foi marcado pela fraca repercussão de “Come Out And Play”, lançado em 1985, e o “caso PMRC”, onde Snider foi um dos únicos músicos que chegaram a depor em tribunal contra a ação da Parents Music Resource Center, que buscava censurar álbuns de pop e rock com conteúdo considerado subversivo.

Os bastidores do Twisted Sister não iam bem e Dee Snider começou a trabalhar em um disco solo já entre 1986 e o início de 1987. Por pressão da Atlantic Records, o material foi lançado sob a alcunha da banda e se tornou o último trabalho da discografia composto 100% por músicas inéditas: “Love Is For Suckers”.

Desperado

Ao fim de 1987, Dee Snider pediu demissão do Twisted Sister – e, obviamente, a banda chegou ao fim, visto que Snider, além de vocalista, era o único compositor e a principal imagem. Em 1988, ele começou a trabalhar em um projeto chamado Desperado, com o baterista Clive Burr (ex-Iron Maiden), o guitarrista Bernie Torme (Gillan, Ozzy Osbourne) e o baixista Marc Russel.

Desacreditado pela indústria fonográfica em geral, Dee Snider não conseguiu fazer com que o Desperado conseguisse lançar seu único disco, “Ace”. O grupo conseguiu um contrato com a Elektra, mas quando o trabalho já estava gravado e prestes a ser lançado, os diretores da companhia decidiram engavetá-lo. As músicas chegaram a ser pirateadas até serem divulgadas, oficialmente, no álbum “Bloodied, But Unbowed”, em 1996.

Dee Snider definhava. Sem conseguir retornar, no auge do sucesso do hard rock nos Estados Unidos, o vocalista se manteve recluso entre 1989 e 1990. Enquanto isso, só aumentavam os problemas financeiros que Snider já acumulava anos antes, especialmente após ter que bancar a existência do Despertado.

Nova chance

Eis que, em 1991, Dee Snider ganhou mais uma chance. O produtor Ric Wake apostou no vocalista e o convidou para lançar um novo disco pela Esquire Records, com distribuição da ainda tímida CMC International. O voto de confiança veio, justamente, quando o hard rock e o heavy metal começavam a cair em popularidade, após a chegada do grunge e do rock alternativo.

As más notícias não param por aí: Bernie Torme teve problemas no pulmão e não conseguiu participar do projeto. Clive Burr já estava fora. A banda foi reformada com o guitarrista Al Pitrelli, recém-saído do grupo de Alice Cooper, e o baterista Joe Franco, que tocou em “Love Is For Suckers” e era grande amigo de Snider. Apenas o desconhecido baixista Marc Russel foi mantido.

Widowmaker

O novo projeto foi batizado sob a “bênção” do baixista Bob Daisley: Widowmaker. Daisley teve uma banda com esse nome no passado e Dee Snider resolveu perguntar a ele se poderia utilizar tal alcunha. “Não dou a mínima. Ferramos com tudo mesmo!”, disse Bob.

Algumas músicas presentes no primeiro disco do Widowmaker, “Blood And Bullets” (1992), foram reaproveitadas do trabalho feito com o Desperado. Outras canções, por sua vez, eram realmente novas.

Ao ouvir “Blood And Bullets”, é inegável que havia uma química entre os envolvidos – até maior que no Desperado. O primeiro trabalho do Widowmaker transita na linha tênue entre o hard rock e o heavy metal. É ganchudo e pesado ao mesmo tempo.

A PMRC voltou a incomodar Dee Snider graças à capa de “Blood And Bullets”, considerada subversiva. Depois de discutir com Ric Wake, Snider foi obrigado a concordar com o acréscimo do selo “Parental Advisory” no álbum – algo que, diga-se de passagem, Dee Snider lutou contra anos atrás. O aviso era opcional, contudo, várias lojas de discos se recusavam a vender material que estava na lista da PMRC sem que houvesse o alerta na arte frontal.

Apesar das ótimas músicas e até do polêmico selo – que, sim, chamava a atenção -, “Blood And Bullets” foi, inicialmente, ignorado pelo público. A banda precisou passar alguns meses na estrada para que o álbum, lançado sob um selo independente e com distribuição pífia, fosse melhor divulgado. Vale destacar, inclusive, que a primeira turnê do Widowmaker foi, também, a primeira de Snider em cinco anos. Desde 1987, o cantor não pisava em um palco.

Dificuldade

Com o tempo, “Blood And Bullets” teve 50 mil cópias vendidas. Contudo, quando as coisas pareciam melhorar, a Esquire Records fechou as portas ao fim de 1992 e a viabilidade do Widowmaker caiu por terra.

Neste momento, Dee Snider beirava a miséria. Estava completamente no vermelho, pois não havia conseguido quitar suas dívidas passadas. Ele havia vendido a sua casa entre 1989 e 1990, mas a grana precisou ser direcionada para outros fins. Snider, sua esposa e seus três filhos estavam próximos de ficar sem teto.

Ainda assim, o Widowmaker encontrou forças para continuar e, em 1994, o segundo disco da banda foi lançado. Intitulado “Stand By For The Pain”, o álbum tem uma proposta musical muito diferente de seu antecessor. O mergulho no rock/metal alternativo é notório. As músicas são boas, mas não há o mesmo charme de “Blood And Bullets”.

A tentativa de entrar na patota do alternativo não deu certo – ainda mais porque “Stand By For The Pain” também foi lançado de forma independente, pela Deadline Records – e o grupo chegou ao fim ainda em 1994.

A retomada de Dee

A situação financeira de Dee Snider só veio a melhorar nos anos seguintes, mas o cantor não parou de trabalhar. Um projeto inusitado foi responsável por sanar os débitos de Snider: uma canção natalina que ele compôs para Celine Dion. Mas a cantora sequer soube que a canção era de autoria de Dee. “Não conte que Satã escreveu uma canção de Natal”, disse ele ao produtor Ric Wake.

Ele chegou a lançar um filme, intitulado “Strangeland”, em 1998, além de ter se envovlido com programas de rádio e composição de trilhas sonoras. O Twisted Sister, por sua vez, teve três reuniões imediatas, nos anos de 1997, 2001 e 2002, mas voltou de vez à atividade em 2003.

É inegável que o Widowmaker acabou chegando tarde demais. Provavelmente, um retorno do Twisted Sister teria sido adiado se o grupo paralelo de Dee Snider tivesse vida mais longa – e caso as dívidas não tivessem assolado a vida do cantor.

Em recente entrevista, o baterista Joe Franco chegou a dizer que os discos que fez com o Widowmaker são os melhores de sua carreira. E olha que ele trabalhou com o Twisted Sister em “Love Is For Suckers” e em projetos futuros de Dee Snider.

O Widowmaker tinha todos os predicados para dar certo. Infelizmente, não rendeu. Hoje, seus álbuns permanecem com um status cult.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Obrigado por tudo, Black Sabbath

O Black Sabbath chegou ao fim. A última apresentação da turnê de despedida do grupo, “The End”, ocorreu no último sábado (4), na Genting Arena, em Birmingham, Inglaterra.

(Foto: Ross Halfin / divulgação)

A escolha do local foi estratégica: o show derradeiro do grupo ocorreu na mesma cidade onde tudo começou. Foi em Birmingham que o guitarrista Tony Iommi e o baterista Bill Ward deram início ao Black Sabbath, que começou como um projeto de blues rock, chamado de Polka Tulk Blues Band.

Iommi e Ward convocaram o baixista Geezer Butler e o vocalista Ozzy Osbourne para a banda, que mudou de nome para Earth. O grupo quase não foi para frente, pois Tony – logo ele, que foi o único membro constante do Black Sabbath em quase 50 anos – abandonou a formação para integrar o Jethro Tull. Ainda bem que ficou ao lado de Ian Anderson por apenas dois meses.

Em 1969, o Earth se tornou Black Sabbath e gravou seu primeiro disco, autointitulado. Dá para dizer que, antes deste álbum, o heavy metal existia. Grupos como Cream, Steppenwolf, Iron Butterfly e Blue Cheer praticavam uma sonoridade pesada e intensa, como o gênero em questão pede. Mas foi o Sabbath quem estabeleceu as regras para a fundação de um dos estilos musicais mais venerados do mundo.

Em quase 50 anos, foram lançados 19 discos de estúdio, com mais de 70 milhões de cópias vendidas mundialmente – deste montante, 8 milhões somente nos anos 1970, mesmo sem apoio de rádios e críticos especializados. Contudo, mais importante que o sucesso comercial, deve-se reconhecer o legado que o Black Sabbath deixa.

Musicalmente, além de pioneiro em um estilo musical, o Black Sabbath influenciou centenas de bandas que vieram logo após. Todos os grandes nomes do heavy metal têm um quê de Sabbath: de Judas Priest a Metallica, de Iron Maiden a Slipknot, de Sepultura a Queens Of The Stone Age, dos nomes surgidos na década de 1970 aos grupos que nasceram nos últimos anos, seja de qualquer subgênero do metal ou de segmentos mais pesados do rock. É indissociável.

A simplicidade presente em sua música inovadora também é notável na personalidade de seus integrantes. Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward não nasceram em berços de ouro: vieram de famílias de operários e conquistaram seu espaço de forma orgânica, com trabalho, talento e, por que não, um pouco de sorte.

Isto se refletiu em praticamente toda a carreira do Black Sabbath, mesmo com os períodos de excessos, e até mesmo em seu fim. Apesar de ter contado com uma turnê que girou por todo o planeta, o Black Sabbath não teve uma despedida exibicionista.

O grupo poderia ter convidado nomes consagrados para aparições em shows e ter feito uma mega performance de encerramento em Londres, ao invés de Birmingham. Mas a opção pela cidade natal em um “adeus” honesto revela um pouco sobre os envolvidos. Apenas lamento que Bill Ward não tenha participado de algum momento desta turnê. Uma banda que passou por tantas mudanças na formação, infelizmente, acabou com uma rusga ainda pendente.

O Black Sabbath ainda pode voltar para shows esporádicos, em ocasiões especiais ou até mesmo para um disco de inéditas. Mas, infelizmente, a condição de saúde de Tony Iommi, que há anos enfrenta um linfoma, pode não permitir que isto aconteça.

Independente se haverá alguma reunião esporádica para um show isolado ou para um novo álbum, o Black Sabbath da forma que conhecemos chegou ao fim. Resta-nos seguir desfrutando da obra que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward fizeram juntos, bem como os trabalhos feitos ao lado de Geoff Nicholls, Ronnie James Dio, Tony Martin, Vinny Appice, Ian Gillan, Bev Bevan, Eric Singer, Cozy Powell, Glenn Hughes, Bob Daisley, Ray Gillen, Dave Spitz, Neil Murray, Laurence Cottle, Brad Wilk, Tommy Clufetos, Don Airey e Bobby Rondinelli.

É muito provável que o Black Sabbath ainda seja lembrado daqui a 50 anos. E isto é o maior mérito que um trabalho artístico pode conquistar. Obrigado por tudo, Black Sabbath.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Os produtivos últimos meses de David Bowie

O fim de David Bowie foi cercado por coincidências no que diz respeito a datas. Ele faleceu em 10 de janeiro de 2016, dois dias depois de seu aniversário e de ter lançado seu último álbum, “Blackstar”.

Graças a esta infeliz coincidência de datas, a obra de David Bowie tem sido celebrada, nos últimos dias, com diferentes tipos de tributos. Seja pelo primeiro aniversário de morte ou pelos 70 anos que o Camaleão comemoraria.

Um desses tributos, feito pela gravadora Columbia Records, é o EP “No Plan”, que apresenta três músicas inéditas de David Bowie, gravadas durante as sessões de “Blackstar”. Elas estão presentes na trilha sonora do musical “Lazarus”, dirigido por Ivo van Hove. Trata-se de uma amostra do que o Camaleão poderia ter feito se o destino tivesse lhe permitido viver um pouco mais.

O produtor Tony Visconti havia revelado, em entrevista concedida dias após o falecimento, que David Bowie sabia, desde novembro de 2015, que seu câncer era terminal. A notícia veio, inclusive, no fim de semana em que Bowie gravava as cenas para o clipe da música “Lazarus”. Contudo, mesmo em suas últimas semanas, o cantor falava em gravar uma sequência para “Blackstar”.

O tempo e o destino foram implacáveis para David Bowie – muito devido a seus abusos ao longo dos anos. Ele sentiu dores no peito em 25 de junho de 2004, enquanto se apresentava em um festival na Alemanha. Foi diagnosticada uma obstrução em uma artéria e ele precisou fazer uma angioplastia. Tudo isso enquanto ele tinha apenas 57 anos.

Desde então, David Bowie não se apresentou mais ao vivo. Já não havia mais vontade, nem ritmo para tal. Foram somente algumas participações, em shows de Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys, entre 2005 e 2006. Depois disso, deu adeus, em definitivo, aos palcos – e, de certa forma, tentou se despedir da música, apesar de não ter conseguido. Optou por aproveitar um pouco do que havia conquistado em seus anos anteriores, bem como curtir a família.

Bowie só voltou a trabalhar em algo na década seguinte, ao lançar “The Next Day”, em 2013. E, segundo relatos, seus últimos 18 meses de vida foram muito produtivos.

Sabia-se do câncer de pulmão desde meados de julho de 2014. Foi aí que David Bowie decidiu que retomaria o nível de suas produções. “Blackstar” foi gravado entre janeiro e abril de 2015, com o melhor material produzido por Bowie no período anterior, entre os últimos meses de 2014.

As primeiras demos foram entregues ao saxofonista de jazz Donny McCaslin, ao invés de qualquer outro músico de rock. O material evoluiu e as sessões de gravação ocorriam entre 11h e 16h, três vezes por semana. A saúde de David Bowie ainda não havia sido deteriorada, mas o ritmo de trabalho era um pouco menos intenso.

Após o fim da produção de “Blackstar”, David Bowie começou a trabalhar no musical “Lazarus”. As três faixas inéditas de “No Plan”, inclusive, aparecem na trilha sonora da peça, que também reúne uma série de clássicos gravados pelo músico em sua carreira.

Durante os ensaios para “Lazarus”, David Bowie manteve a sua classe. Esteve presente em boa parte dos compromissos relacionados e não reclamou de sua doença em nenhum momento, segundo relatos. Além disso, optou por não fazer nenhuma intervenção ao trabalho de direção de Ivo van Hove. Assim como o disco, tudo era feito em segredo.

Ivo sabia da doença de Bowie desde novembro de 2014, quando o próprio cantor o contou, dizendo, ainda, que não sabia se sobreviveria até a conclusão do projeto. Acabou por viver até a estreia, em dezembro de 2015.

Quando David Bowie não estava bem, simplesmente se afastava, tanto durante a produção do disco quanto do musical. Não se forçava a trabalhar demais. Somente os envolvidos sabiam do problema. Ainda assim, especialmente no período em que a peça era ensaiada – Bowie já estava mais debilitado na época -, o cantor fez o possível para participar de todos os eventos relacionados.

A noite de abertura de “Lazarus” ocorreu em 7 de dezembro de 2015, em Nova York. Foi a última aparição pública de David Bowie. A saúde do cantor já definhava, mas a aparência seguia impecável.

Entre os ensaios e a estreia do musical, David Bowie gravou dois videoclipes para promover “Blackstar”. O primeiro foi feito para a faixa que dá nome ao disco: um vídeo surrealista, dirigido por Johan Renck – o diretor de “The Last Panthers”, série para a qual a canção foi feita. Com seu senso multiartístico apurado, Bowie deu diversas sugestões para Renck durante o processo.

Em novembro, o segundo clipe foi gravado. “Lazarus”, também com direção de Johan Renck, é encarado como uma espécie de despedida por parte de David Bowie. Como dito anteriormente, na semana das filmagens, ele soube que seu câncer era terminal. Mesmo que nas entrelinhas, as cenas e a estética do vídeo transmitem a ideia de “adeus”.

John Renck nega tal hipótese. Ele disse, em recente entrevista para um documentário feito pela BBC, que o clipe de “Lazarus” não foi pensado como uma despedida. “Para mim, tem relação com o aspecto bíblico, com o homem que voltaria a renascer. Não tem nada a ver com a doença”, afirmou. Apesar disso, ganhou tais ares – com justiça. Basta assistir para entender o porquê.

Cada clipe tomou apenas cinco horas de um dia para ser gravado. Era o que a saúde de David Bowie suportava.

Em janeiro de 2016, vieram à tona o clipe de “Lazarus” (o outro vídeo havia sido lançado em novembro) de 2015, o álbum “Blackstar” e a morte de David Bowie. Mesmo com toda a tristeza que cerca este período, há de se destacar que seu adeus foi um dos mais elegantes da história da música.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Previsões e especulações sobre o rock/metal em 2017

No mundo da música, o ano de 2016 ficou marcado por ter sido ruim em geral, devido às mortes de impacto. Todavia, bons discos foram lançados e ótimos shows aconteceram no Brasil.

Em 2017, é provável que voltemos a ter bons discos de bandas de renome nas prateleiras. No metal, o maior destaque é “Machine Messiah”, do Sepultura, que sai em 13 de janeiro. “Gods Of Violence”, do Kreator (27 de janeiro) e “The Grinding Wheel”, do Overkill (10 de fevereiro), também merece atenção.

O cardápio é um pouco mais amplo no hard/classic rock. Além de “Infinite”, do Deep Purple (7 de abril), lançamentos de Gotthard (“Silver”, 13 de janeiro), Black Star Riders (“Heavy Fire”, 3 de fevereiro) e Steel Panther (“Lower The Bar”, 24 de fevereiro) estarão disponíveis para o público logo mais.

Entre as bandas que devem lançar material em 2017, mas ainda sem data marcada, estão Accept, Alice in Chains, Five Finger Death Punch, Iced Earth, Judas Priest, Mastodon, Queens Of The Stone Age, Saxon, Soundgarden e System Of A Down, entre outros. Já o aguardado disco do Guns N’ Roses com Slash e Duff McKagan não deve sair tão cedo, visto que a banda, provavelmente, passará o ano todo na estrada.

No que diz respeito a shows, enquanto 2016 começou com apresentações de grande porte no Brasil, de nomes como Iron Maiden e Rolling Stones, o ano de 2017 será um pouco mais tímido neste aspecto. As performances de maior destaque confirmadas até agora são as de Ace Frehley (março), Korn e Opeth (ambos em abril) e King Diamond (junho), além dos festivais Lollapalooza (março), Maximus (maio) e Rock In Rio (setembro).

Quanto às despedidas, apenas a do Black Sabbath, até o momento, ocorre em 2017. O Aerosmith anunciou que sairá de cena, mas só depois de alguns anos. Mesmo cenário do Deep Purple, que ainda não confirmou a aposentadoria.

Por fim, entre os retornos especulados, o único que parecia ter algum fundamento era o do Skid Row. Todavia, semanas depois de ter revelado que existiam negociações, Sebastian Bach afirmou que o retorno subiu no telhado.

Resta-nos esperar por um 2017 mais movimentado para bons assuntos. Que a seção de Obituário fique parada por um tempo.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: A história do disco blues de Mick Jagger que jamais foi lançado

“Blue & Lonesome”, disco dos Rolling Stones com releituras de clássicos do blues, reforçou a conexão que a banda tem com o tradicional gênero musical. Entretanto, não foi a primeira experiência de um dos integrantes do grupo com um projeto do tipo.

Em 1992, Mick Jagger trabalhou em um disco de releituras de clássicos do blues. Na época, ele contou com a colaboração do produtor Rick Rubin para tirar o projeto do papel.

A ideia

Mick Jagger pensava em gravar um álbum do tipo desde agosto de 1990, com o fim da turnê que divulgava o álbum “Steel Wheels” (1989). Entretanto, ele já trabalhava, também com Rick Rubin, em um full-length com com músicas autorais, que viria a ser “Wandering Spirit” (1993).

O frontman dos Stones deu uma pausa nas gravações de “Wandering Spirit” e retomou o projeto de blues que havia pensado. Rick Rubin, por sua vez, recomendou a contratação da banda Red Devils (foto abaixo), de Los Angeles, para acompanhar Jagger no projeto.

Antes, era necessário um teste de fogo: em maio de 1992, Mick Jagger foi a um show dos Red Devils e cantou alguns standards do blues, como “Who Do You Love?” (Bo Diddley) e “Blues With A Feeling” (Little Walter). Deu certo: com a química que rolou durante o show, Jagger se empolgou e começou a projetar o novo disco com releituras de canções blues.

Gravações

Em junho de 1992, Mick Jagger, Rick Rubin e os Red Devils começaram a trabalhar, juntos, no estúdio Ocean Way Recording, em Hollywood.

O processo de gravação foi bastante simples: Jagger pegou alguns discos de blues, tocou suas músicas favoritas apenas uma vez e pediu para que os instrumentistas fizessem uma jam a partir do que haviam escutado. A ideia era que tudo soasse espontâneo, sem ensaios.

O resultado foi uma maratona de 13 horas de gravação, regada a muito blues, que renderam mais de 12 músicas. A maior parte das canções foi gravada em takes iniciais. Nada sofisticado, assim como “Blue & Lonesome“, registrado todo ao vivo.

Material engavetado

Apesar de ter agradado, Mick Jagger nunca lançou o material gravado com os Red Devils. E não há, nem mesmo, uma justificativa aparente, visto que o material é de boa qualidade: os Devils tocam muito bem e Jagger interpreta o cancioneiro bluesy de forma legítima.

Curiosamente, Mick Jagger voltou a trabalhar em “Wandering Spirit” logo após a aventura blues. Em termos comerciais, foi a melhor aposta que Jagger poderia ter feito: o disco vendeu bem e chegou ao top 15 das paradas dos Estados Unidos e Reino Unido. Nada nas proporções dos Rolling Stones, mas um bom resultado para quem tem uma tímida discografia solo.

A única canção de tais sessões que chegou à luz do dia no catálogo de Jagger foi a versão para “Checkin’ Up On My Baby” (Sonny Boy Williamson II). A faixa está presente na coletânea “The Very Best Of Mick Jagger” (2007).

Por outro lado, há anos, as gravações têm sido distribuídas por meios não-oficiais, em formato de bootleg. Hoje em dia, evidentemente, a versão completa está presente no YouTube.

Ouça:

Mick Jagger & The Red Devils – Studio Blues Sessions (1992)

Mick Jagger (vocal)
Lester Butler (gaita)
Paul Size (guitarra)
Jonny Ray Bartel (baixo)
Bill Bateman (bateria)

1) Blues With A Feeling (Little Walter)
2) I Got My Eyes On You (Buddy Guy)
3) Still A Fool (Muddy Waters)
4) Checkin’ Up On My Baby (Sonny Boy Williamson II)
5) One Way Out (Sonny Boy Williamson II)
6) Talk To Me Baby (Elmore James)
7) Evil (Howlin’ Wolf)
8) That Ain’t Your Business (Slim Harpo)
9) Shake ‘m On Down (Bukka White)
10) Somebody Loves Me (George White’s Scandals)
11) Dream Girl Blues (J. D. Miller & Slim Harpo)
12) 40 Days, 40 Nights (B. Roth)

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: As agonizantes últimas horas de Freddie Mercury

Nenhum relato sobre os últimos anos, dias ou momentos de Freddie Mercury é tão fiel quanto o de Jim Hutton. O cabeleireiro, morto em 2010, se relacionou com o lendário vocalista do Queen de 1985 até o último dia da vida do astro, 24 de novembro de 1991. Ele viu todo o sofrimento do cantor de perto.

O relato está presente no livro “Mercury And Me”, escrito por Jim Hutton e Tim Wapshott e lançado em 1995. Em homenagem a Mercury, cujo falecimento completa 25 anos na próxima quinta-feira (24), segue, abaixo, a tradução, adaptada, da parte do livro que descreve os últimos momentos do cantor.

Momentos derradeiros

Dores severas afligiam Freddie Mercury diariamente em seus momentos derradeiros. Segundo Jim Hutton, a última vez que Freddie Mercury esteve consciente foi em 21 de novembro de 1991, uma quinta-feira, três dias antes da morte dele, quando Hutton o visitou na Garden Lodge, mansão extravagante que Mercury tanto gostava.

Jim Hutton se deitou ao lado de Freddie Mercury. O vocalista disse, suspirando: “pronto, todos saberão”. Na ocasião, Freddie se referia à carta em que anunciava, oficialmente, que estava com Aids. Ela foi enviada à imprensa e divulgada no dia 23 de novembro, um sábado, apenas um dia antes de sua morte.

Já no dia 23, às 22h, Freddie Mercury começou a se contorcer de dor e pediu seus remédios a gritos, que eram quatro pílulas analgésicas. Descrente, Mercury havia abandonado o tratamento com AZT e outros medicamentos algum tempo antes. Jim Hutton dormiu abraçado a Freddie nesta noite.

O último dia

Na madrugada do dia 24, um domingo, Freddie Mercury acordou Jim Hutton e pediu que ele o trouxesse uma fruta. Hutton levou fatias de manga e um copo com suco, para combater a desidratação que Freddie sofria.

Pouco após às 3h, Freddie Mercury acordou Jim Hutton de forma brusca. Seu rosto mostrava desespero. Freddie abria a boca desesperadamente, apontando para a garganta. Hutton não sabia o que fazer.

Cerca de 30 minutos depois, um dos enfermeiros de Freddie Mercury, chamado Joe, chegou ao local. Ele viu que havia um pedaço de manga na garganta de Freddie, que, sem forças, não conseguia nem engolir, nem cuspir. A fruta foi retirada.

Fim da linha

Às 6h, Freddie Mercury pronunciava as suas últimas palavras: “xixi, xixi”. Joe e Jim Hutton levaram Freddie ao banheiro, pois ele não conseguia se locomover. Quando o colocaram de volta na cama, ouviram um barulho de um osso quebrando. Mercury se contorceu de dor e passou a ter convulsões.

O médico Gordon Atkinson chegou ao local e receitou uma injeção de morfina a Freddie Mercury, mas o vocalista era alérgico à substância. Horas depois, Elton John e Dave Clark, amigos de Freddie, o visitaram. O cantor estava com os olhos opacos e mal respondia a estímulos externos.

Sem forças, Freddie Mercury não conseguiu pedir para que o levassem ao banheiro. Então, fez suas necessidades na cama onde estava deitado. Jim Hutton trocou as roupas de Freddie, que, com muito esforço, subiu levemente a sua perna esquerda.

A perna logo perdeu força e, assim, Jim Hutton percebeu que Freddie Mercury estava morto. Jim abraçou Freddie e o cobriu de beijos. O sofrimento havia acabado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.