Cabeçote: Em SP, Ace Frehley faz show recomendado especialmente para fãs

Ace Frehley @ Tom Brasil, São Paulo (SP), 05/03/2017

O jornalismo sempre busca a isenção, mas há situações na vida em que se torna difícil separar razão e emoção. E como praticar jornalismo consiste em contar histórias reais, por vezes, também é difícil dissociar olhares crítico e de admirador.

O segmento musical do jornalismo, felizmente, permite que o emocional se sobressaia em algumas ocasiões. Digo isto porque a resenha a seguir, sobre o show que Ace Frehley fez no Tom Brasil, em São Paulo, no último domingo (5), pode não fazer sentido para quem não admirava o músico ou sua ex-banda, o Kiss, previamente.

A única apresentação de Ace Frehley no Brasil em sua curta turnê sul-americana teve um caráter emocional peculiar, em meu ver, pois Ace é notável por ter sido alguém que poderia ter oferecido (ainda) mais à música. Seus anos de hiato poderiam ter sido complementados com bons discos e turnês. Contudo, o errático guitarrista e ocasional vocalista se rendeu aos seus vícios (ou foi rendido por eles) em diversas ocasiões, o que lhe custou o posto de integrante do Kiss nas décadas de 1980 e 2000.

Mas vê-lo se apresentando ao vivo, no alto de seus 65 anos – e pela primeira vez em carreira solo no Brasil -, faz compensar o comportamento errático de outrora. Ace parece estar disposto a compensar o tempo perdido. E o show feito em São Paulo, para um cheio, mas não lotado Tom Brasil, demonstrou isto, mesmo com alguns erros técnicos a serem destacados.

A performance começou com poucos minutos de atraso, após as caixas de som rodarem a tape de “Fractured Mirror”, faixa que encerra o disco solo de Ace Frehley lançado em 1978. A abertura ficou a cargo de “Rip It Out”, do mesmo álbum, diferente dos shows anteriores, que o show se abria com “Parasite”. Afiada, a banda apresentou suas credenciais: além de Ace nos vocais e guitarra, a apresentação contou com o veterano Richie Scarlet (guitarra e vocais) e os competentes Chris Wyse (baixo e vocais) e Scot Coogan (bateria). Todos tocaram essa música muito bem.

Na sequência, Ace e sua trupe apresentaram “Toys”, do disco autoral mais recente (“Space Invader”, de 2014), e “Parasite”, clássico do Kiss composto por Frehley. O cover da banda mascarada ficou notavelmente lento, apesar de ter sido bem tocado. “Snowblind”, a seguir, sofreu com o mesmo problema, mas a plateia reagiu bem mesmo assim.

“Love Gun”, com Scot Coogan mandando muito bem nos vocais, e “Rocket Ride” levantaram a galera, enquanto a autobiográfica “Rock Soldiers” chamou a atenção por sua boa execução instrumental. Na sequência, Chris Wyse fez um solo de baixo que valeu pela dedicação – ele tocou trechos de “N.I.B.” (Black Sabbath) e “God Of Thunder” (Kiss) para animar o público -, mas era dispensável neste show.

Wyse assumiu os vocais na pesada “Strange Ways”, que embolou um pouco no instrumental, mas nada que comprometesse. Afinal, trata-se de uma baita música que praticamente nunca foi tocada ao vivo pelo Kiss. Em seguida, Ace apareceu com sua guitarra repleta de dispositivos de luz para “New York Groove”, original do Hello e regravada em seu disco solo de 1978. Um dos poucos momentos de maior interação promovido por Frehley, que deixou o público cantar o refrão antes do solo final.

“2 Young 2 Die”, com o empolgado Richie Scarlet nos vocais, foi dedicada à memória de Eric Carr, falecido ex-baterista do Kiss que era próximo a Ace Frehley. O Spaceman ainda duelou em solos de guitarra com Scarlet antes de seu grande momento, em “Shock Me”, uma das mais aguardadas pelo público. Na sequência, Ace fez seu tradicional solo com a guitarra disparando fumaça pelo captador. Se falta primor técnico, sobra impacto histórico – bastou que ele mostrasse o instrumento “em chamas” para que a plateia delirasse.

Para encerrar o show regulamentar, outro clássico: “Cold Gin”, também com bastante interação com o público – Ace deixou de cantar os versos para permitir que as vozes dos presentes ecoassem. O bis contou com uma boa versão de “Detroit Rock City” com Scot Coogan nos vocais e a arrasa-quarteirão “Deuce”, de volta para onde tudo começou, pois foi a primeira música que Frehley tocou com o Kiss.

Ace, até hoje, não está acostumado com a figura de frontman. Pouco interage com o público e, por vezes, se confunde ao cantar e direciona sua voz para longe do microfone, ou “capa” notas e acordes na guitarra. Richie Scarlet também erra nas seis cordas pelo excesso de empolgação. Scot Coogan toca corretamente, mas desacelerou em músicas importantes. Chris Wyse, tecnicamente, não parece ter cometido nenhum erro.

Entretanto, ninguém parece ter se importado com essas pequenas falhas, justamente pela importância emocional que esta apresentação teve para boa parte dos presentes. Eu, particularmente, não liguei – e curti muito o show. Ace e seus asseclas soaram como banda e escolheram o repertório com maestria.

Por tudo isto, foi um show para fãs que reconhecem Ace por seu legado. Quem esteve lá para ouvir o eterno Spaceman de peito aberto, sem ligar para possíveis erros de execução, saiu bastante satisfeito da casa de shows. Foi o meu caso.

Ace Frehley (vocal e guitarra)
Richie Scarlet (guitarra e vocal)
Chris Wyse (baixo e vocal)
Scot Coogan (bateria e vocal)

01. Rip It Out
02. Toys
03. Parasite
04. Snowblind
05. Love Gun
06. Rocket Ride
07. Rock Soldiers
08. Solo de baixo + Strange Ways
09. New York Groove
10. 2 Young 2 Die + solos de guitarra
11. Shock Me + solo de guitarra
12. Cold Gin

Bis:
13. Detroit Rock City
14. Deuce

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Black Label Society: 15 anos de 1919 Eternal

1919 eternal

(lançado em 5 de março de 2002)

O retorno de Zakk Wylde à banda de Ozzy Osbourne empolgou os fãs. Porém, o resultado não foi dos melhores. Down To Earth se mostrou um álbum fraco, sem inspiração. Curiosamente, o guitarrista não colaborou nas composições que entraram no tracklist. Depois, se descobriu que algumas músicas foram oferecidas, porém recusadas, justamente por lembrar demais o Black Label Society. Quatro foram usadas em 1919 Eternal: “Bleed For Me”, “Demise Of Sanity”, “Life, Birth, Blood Doom” e “Bridge To Cross”, cuja versão original era guiada pelo piano, ao contrário da que entrou no play. Ainda havia mais uma, chamada “I’ll Find The Way”, que ficou de fora. Ao menos as duas primeiras poderiam ter feito a diferença no disco do Madman.

A sonoridade não foge muita da de seus antecessores, embora a inspiração esteja um degrau abaixo. Vale ressaltar que o título do disco é uma homenagem ao pai de Zakk, nascido no ano em questão. Outra curiosidade é que essa seria uma das últimas gravações do baixista Robert Trujillo antes de sua entrada no Metallica. Mike Inez (Alice In Chains, Ozzy Osbourne), a quem ele havia substituído, reassumiu o posto para a turnê de divulgação. A capa é uma alusão à propaganda nazista usada para atrair holandeses à Schutzstaffel, que servia como tropa de defesa dos soldados alemães. É justamente a semelhança com o símbolo desta organização que gerou o choque cultural que faz, até hoje, o KISS mudar o formato do seu símbolo em terras germânicas.

Zakk Wylde (guitarra, vocais)
Robert Trujillo (baixo)
Craig Nunenmacher (bateria)
Christian Werr (bateria em 1, 3 e 4)

01. Bleed For Me
02. Lords Of Destruction
03. Demise Of Sanity
04. Life, Birth, Blood, Doom
05. Bridge To Cross
06. Battering Ram
07. Speedball
08. Graveyard Disciples
09. Genocide Junkies
10. Lost Heaven
11. Refuse To Bow Down
12. Mass Murder Machine
13. Berserkers
14. America The Beautiful

1919 eternal

Blind Guardian: 15 anos de A Night At The Opera

guardian opera

(lançado em 4 de março de 2002)

O estouro de Nightfall In Middle-Earth colocou o Blind Guardian definitivamente no panteão das grandes bandas do Heavy Metal na virada do século. Ao mesmo tempo, aumentou a expectativa sobre cada trabalho dos alemães, que vinham em uma constante mudança sonora. A Night At The Opera, homônimo ao álbum do Queen e ao filme dos Irmãos Marx, é praticamente uma ruptura com o Power Metal da primeira década de atividades. Os flertes com o Progressivo e o Clássico se tornaram um relacionamento sério, com o cada vez maior uso de corais e orquestrações, além de arranjos grandiosos. O resultado final divide fãs até hoje, embora muitos dos críticos já tenham se acostumado com a evolução – ou, ao menos, se conformado com o fato de que o passado não volta.

Não mudou o fato de que as composições seguem trazendo as mais variadas referências históricas e literárias. A épica “And Then There Was Silence” foi lançada como single, o que por si só foi curioso, já que se trata da faixa mais longa de toda a carreira do grupo, ultrapassando os 14 minutos de duração. “Battlefield” também obteve destaque ao ser incluída na trilha do game Robot Unicorn Attack, do Adult Swim. A Night At The Opera passa longe de ser memorável, embora conte com diversas qualidades. Acabou sendo o último trabalho com o baterista Thomas “Thomen” Stauch, que se retirou por não concordar com a direção musical que a banda adotou. A turnê rendeu o DVD Imaginations Through The Looking Glass.

Hansi Kürsch (vocais)
André Olbrich (guitarra)
Marcus Siepen (guitarra)
Thomas Stauch (bateria)

Músicos convidados

Oliver Holzwarth (baixo)
Mathias Wiesner (teclados)

01. Precious Jerusalem
02. Battlefield
03. Under The Ice
04. Sadly Sings Destiny
05. The Maiden And The Minstrel Knight
06. Wait For An Answer
07. The Soulforged
08. Age Of False Innocence
09. Punishment Divine
10. And Then There Was Silence

guardian opera

Quiet Riot: 40 anos do álbum de estreia

quiet riot

(lançado em 2 de março de 1977)

O Quiet Riot que surgiu nos anos 1970 é uma banda quase que totalmente diferente da que se consagrou com o álbum Metal Health, em 1983. Não apenas pela formação, que só contava com o vocalista Kevin DuBrow de remanescente. A sonoridade também não era a mesma, a despeito de uma ou outra influência. Ao invés das raízes do que viria a ser conhecido como Hard Rock oitentista, um Glam Rock típico daqueles tempos. Chega a ser estranho, para quem acompanhou a carreira do guitarrista Randy Rhoads com Ozzy Osbourne, vê-lo atuando de forma tão simplória. Conspiracionistas diriam que ele foi o Robert Johnson de sua época – se não entendeu, procure a história do dito bluesman.

Além de dez faixas próprias, o álbum de estreia do grupo traz covers para “Tin Soldier”, do Small Faces e “Glad All Over”, do Dave Clark Five. A música “Back To The Coast” era uma nova versão para “West Coast Tryouts”, que Randy compôs ainda na adolescência, junto de seu irmão Kelle Rhoads. O lançamento original aconteceu exclusivamente no Japão, já que não houve interesse norte-americano, o que frustrou muito os envolvidos. Apesar de o talento dos músicos ser inegável, não dá para dizer que se trata de um trabalho indispensável, exceto pelo valor histórico. O Quiet Riot ainda lançaria outro disco antes de cessar atividades temporariamente e voltar reinventado, rumo ao estrelato.

Kevin DuBrow (vocais)
Randy Rhoads (guitarra)
Kelly Garni (baixo)
Drew Forsyth (bateria)

01. It’s Not So Funny
02. Mama’s Little Angels
03. Tin Soldier
04. Ravers
05. Back To The Coast
06. Glad All Over
07. Get Your Kicks
08. Look In Any Window
09. Just How You Want It
10. Riot Reunion
11. Fit To Be Tied
12. Demolition Derby

quiet riot

Running Wild: 15 anos de The Brotherhood

brotherhood

(lançado em 15 de fevereiro de 2002)

Se havia alguma dúvida de que o Running Wild é a banda de Rolf Kasparek, ela se acabou de vez em The Brotherhood. Não bastava apenas ser o único membro original remanescente. Aqui, o músico escreveu todas as músicas, assumiu sozinho as guitarras e posou de forma individual para as fotos promocionais. Ao menos em uma coisa os fãs puderam ficar tranquilos: a sonoridade se manteve a mesma de sempre, com o Heavy tradicional até a medula se fundindo a influências de Power Metal e Hard Rock. É uma espécie de segurança para os conservadores quando a cara de uma banda se limita a um de seus membros, com os outros servindo como mero apoio. Exceto quando ele busca uma nova identidade de tempos em tempos, o que não é o caso aqui.

Conhecedores da discografia não terão do que reclamar em canções como “Welcome To Hell”, “Soulstrippers” ou a épica faixa-título. Como curiosidade, a letra de “The Ghost” é inspirada em Thomas Edward Lawrence. Sim, o popular Lawrence da Arábia, herói militar britânico da Revolta Árabe, entre 1916 e 1918. Fechando o tracklist, é a música mais longa, ultrapassando os dez minutos, embora não inclua mudanças rítmicas sobressalientes. Quem conhece e curte o Running Wild sabe que não vai se decepcionar. Para quem nunca foi adepto, não é aqui que mudará de ideia. A turnê de divulgação de The Brotherhood renderia um álbum ao vivo, simplesmente intitulado Live.

Rolf Kasparek (vocais, guitarra)
Peter Pichl (baixo)
Angelo Sasso (bateria)

01. Welcome To Hell
02. Soulstrippers
03. The Brotherhood
04. Crossfire
05. Siberian Winter
06. Detonator
07. Pirate Song
08. Unation
09. Dr. Horror
10. The Ghost (T.E. Laurence)

brotherhood

Pantera: 25 anos de Vulgar Display Of Power

pantera vulgar

(lançado em 25 de fevereiro de 1992)

Após “trair a farofa”, o Pantera se tornou um dos grandes expoentes da geração que transformaria o Heavy Metal nos anos 1990. Cowboys From Hell foi um sopro de novidade em uma cena que parecia fadada a cair no ostracismo, graças à acomodação dos grupos de décadas anteriores – com raras e honrosas exceções. A revelação se consolidou de vez em Vulgar Display Of Power, álbum referencial de sua época. Tudo que foi apresentado no antecessor aparecia ainda mais encorpado. O quarteto conseguia agradar gregos e troianos, colocando um pé no lado mais agressivo sem perder a base do que é tradicional na proposta. Some a isso a execução de primeira linha, especialmente graças ao brilho de Dimebag Darrell, um dos melhores guitarristas da geração. Aliás, foi a partir das gravações deste disco que ele adotou em definitivo o apelido pelo qual ficaria conhecido até depois da morte.

Quatro músicas foram lançadas como single. “Mouth For War” possui um riff matador, enquanto “This Love” explicita a característica melódica, tendo se tornado exemplar icônico de balada Heavy. A musicalidade superior se aprofundava em “Hollow”, faixa de encerramento. A última lançada no formato promocional foi “Walk”, que se tornou um dos grandes hinos da carreira do grupo, graças a seu ritmo marcado e refrão de fácil assimilação. Pedradas certeiras como “Fucking Hostile”, “A New Level” e “By Demons Be Driven” também se tornariam clássicos. Até hoje, Vulgar Display Of Power vendeu mais de dois milhões de cópias só nos Estados Unidos, onde chegou ao 44º lugar do Top 200 da Billboard. Como curiosidade, o cidadão da capa precisou ser fotografado 30 vezes e recebeu 10 dólares. Por sorte, ele não foi realmente socado em nenhuma das ocasiões.

Phil Anselmo (vocais)
Dimebag Darrell (guitarra)
Rex Brown (baixo)
Vinnie Paul (bateria)

01. Mouth For War
02. A New Level
03. Walk
04. Fucking Hostile
05. This Love
06. Rise
07. No Good (Attack The Radical)
08. Live In A Hole
09. Regular People (Conceit)
10. By Demons Be Driven
11. Hollow

pantera vulgar

Sodom: 20 anos de ‘Til Death Do Us Unite

sodom

(lançado em 24 de fevereiro de 1997)

Após a turnê do álbum Masquerade In Blood (1995), Tom Angelripper se viu sozinho. O guitarrista Strahli e o baterista Atomic Steif deixaram o Sodom apenas com seu criador. As substituições foram feitas com Bernd “Bernemann” Kost e Bobby Schottkowski, respectivamente. Esta acabaria se tornando a formação mais duradoura de toda a carreira da banda – até o momento –, tendo gravado seis discos de estúdio mais um ao vivo. O primeiro foi ‘Til Death Do Us Unite, que ficou marcado por começar a resgatar as raízes Thrash do trio alemão, após flertes com influências de Groove e Death Metal nos antecessores diretos. A repercussão foi positiva junto aos fanáticos, além de uma publicidade extra graças a duas controvérsias.

A primeira polêmica já aconteceu por conta da capa, com as barrigas de um homem obeso e de uma mulher grávida prensando uma caveira. Depois, a música “Fuck The Police” também causou, o leitor já pode imaginar o motivo. Também obtiveram boa recepção a abertura, com “Frozen Screams”, a pegada Hardcore de “Hanging Judge” e o lado mais tradicional de “No Way Out”, além de duas cantadas em alemão, “Gisela” e “Schwerter Zu Pflugscharen”. O fato é que, pelo bem ou pelo mal, o videoclipe da faixa se tornou o mais conhecido de toda a carreira do grupo. Vale citar ainda o cover para “Hazy Shade Of Winter”, de Paul Simon, inspirado na versão da The Bangles. Era o começo da retomada que levaria o Sodom a seu segundo grande momento.

Tom Angelripper (baixo, vocais)
Bernd “Bernemann” Kost (guitarra)
Bobby Schottkowski (bateria)

01. Frozen Screams
02. Fuck The Police
03. Gisela
04. That’s What An Unknown Killer Diarized
05. Hanging Judge
06. No Way Out
07. Polytoximaniac
08. ‘Til Death Do Us Unite
09. Hazy Shade Of Winter
10. Suicidal Justice
11. Wander In The Valley
12. Sow The Seeds Of Discord
13. Master Of Disguise
14. Schwerter Zu Pflugscharen
15. Hey, Hey, Hey Rock ‘N’ Roll Star

sodom

Resenha: Overkill – The Grinding Wheel [2017]

Grinding Wheel

Apesar de não ter alcançado o patamar de alguns colegas de geração, o Overkill raramente decepcionou seus fãs. Comandada por Bobby “Blitz” Ellsworth e D.D. Verni, a banda oferece seu Thrash Metal oitentista, com influências de Heavy tradicional e atitude Rock and Roll. As prévias já indicavam que este seria um trabalho mais diversificado em comparação aos mais recentes. E realmente, podemos identificar linhas melódicas mais marcantes e até um clima de positivismo acentuado, destoando do lado sombrio de seus antecessores diretos. Entre as características mantidas, a sempre presente ideia de músicas com longa duração para os padrões do estilo praticado. Blitz segue com a voz em forma e a usina de riffs, comandada por Dave Linsk e Derek Tailer, ainda produz exemplares memoráveis.

A qualidade já aparece na abertura, com “Mean, Green, Killing Machine”, oitentista sem soar como mera cópia do que foi produzido àquela época. Vale citar, ainda, a levada na metade da canção, remetendo a uma versão aditivada de Deep Purple, Uriah Heep e afins, engatando em um solo frenético. “Goddamn Trouble” vem a seguir e provoca o ouvinte a acompanhar o ritmo acelerado, seja no headbanging ou com as pernas. A correria segue em “Our Finest Hour”, com palhetadas certeiras ditando a levada, que conserva certa influência britânica. A variação em “Shine On” ressalta a pegada da cozinha, enquanto “The Long Road” expõe o lado épico do quinteto em sua introdução, desembocando em mais uma agressão sonora das boas. Com guitarras Hard Rock, “Let’s All Go To Hades” traz Blitz variando seu registro e mostrando um lado mais acessível – tendo o histórico da banda como parâmetro, é claro.

Não haveria título mais apropriada para a sétima faixa do que “Come Heavy”. Riffs no melhor jeito Tony Iommi de ser fazem com que ela seja um tributo (proposital ou não) aos pais do som pesado. Até a levada dos vocais é puro Ozzy. Falando em nomes para músicas, “Red White And Blue” não é nada ufanista. Ao contrário, critica patriotismo cego e subserviência, ao som de um Thrash aniquilador. Mais curta do tracklist, “The Wheel” retoma o lado oitentista, com guitarras que parecem ter saído direto da NWOBHM. A faixa-título encerra o massacre de forma climática, com uma melodia que parece ter saído da cabeça de Steve Harris – até o interlúdio de baixo está presente. O que já vinha sendo feito com extrema competência nos trabalhos mais recentes ganhou contornos épicos. The Grinding Wheel pode ser exaltado como um dos melhores discos de toda a carreira do Overkill, assim como candidato a figurar em listas de final do ano. Agora, a Anitta vai ter mais orgulho ainda de envergar a camiseta.

Nota 10

Bobby “Blitz” Ellsworth (vocais)
Dave Linsk (guitarra)
Derek Tailer (guitarra)
D.D. Verni (baixo)
Ron Lipnicki (bateria)

01. Mean, Green, Killing Machine
02. Goddamn Trouble
03. Our Finest Hour
04. Shine On
05. The Long Road
06. Let’s All Go To Hades
07. Come Heavy
08. Red White And Blue
09. The Wheel
10. The Grinding Wheel

Grinding Wheel

Resenha: Black Star Riders – Heavy Fire [2017]

heavy fire

Apesar de sabermos que o Black Star Riders nunca conseguirá se livrar por completo do rótulo de “a banda que surgiu das cinzas do Thin Lizzy” – até porque a história é essa mesmo –, já dá para considerá-la uma entidade individual. O primeiro álbum, All Hell Breaks Loose (2013), foi uma ótima introdução, enquanto The Killer Instinct (2015) não conseguiu manter o mesmo nível. Portanto, havia alguma expectativa em relação a Heavy Fire. A manutenção do produtor Nick Raskulinecz faz com que o cenário seja menos conturbado, já que no trabalho anterior, Joe Elliott, vocalista do Def Leppard seria o responsável, tendo abandonado o barco, o que deixou certas rusgas no relacionamento. O efeito pode ser sentido no produto final, muito mais centrado e equilibrado.

Musicalmente, o trabalho não se difere tanto dos seus antecessores. É aquele Hard Rock guiado pelo duo de guitarras, com melodias pegajosas sem descambar para o lado mais água-com-açúcar do estilo. Há tentativas de fugir daquilo que se esperaria, como na faixa-título, com riffs que lembram até mesmo Black Sabbath. Primeira música revelada, “When The Night Comes In” oferece agradáveis backing vocals femininos (que também aparecem em outras canções) e aquele infalível toque de Phil Lynott no arranjo. Vale ainda citar a quase metálica “Who Rides The Tiger”, a tipicamente britânica “Testify Or Say Goodbye” e o groove de “True Blue Kid”. Mudando sem perder a essência, o Black Star Riders se recuperou em Heavy Fire. Não será o disco do ano, mas proporciona uma agradável audição.

Nota 8

Ricky Warwick (vocais, guitarra)
Scott Gorham (guitarra)
Damon Johnson (guitarra)
Robbie Crane (baixo)
Jimmy DeGrasso (bateria)

01. Heavy Fire
02. When The Night Comes In
03. Dancing With The Wrong Girl
04. Who Rides The Tiger
05. Cold War Love
06. Testify Or Say Goodbye
07. Thiking About You Could Get Me Killed
08. True Blue Kid
09. Ticket To Rise
10. Letting Go Of Me

heavy fire

Manowar: 30 anos de Fighting The World

manowar fighting

(lançado em 17 de fevereiro de 1987)

Várias mudanças caracterizam o quinto álbum do Manowar. A principal, que desencadeou todas as outras, foi a mudança de gravadora. Insatisfeita com a Virgin, a banda assinou com a Atlantic Records. Em uma major, as possibilidades se tornaram maiores e mais abertas. Sendo assim, Fighting The World conta com uma série de “primeiras vezes” na carreira do grupo. O disco foi gravado e mixado totalmente em equipamento digital. Anteriormente, apenas Turbo, do Judas Priest, tinha se utilizado do mesmo método, em se tratando de Heavy Metal. Também marcou o início da colaboração com o ilustrador Ken Kelly, conhecido por seus trabalhos com Rainbow e KISS. Até por isso, não é nada estranho que o fundo da capa seja uma referência direta a Destroyer, clássico dos mascarados. A parceria se estendeu até os tempos atuais, com o artista assinando todas as artes do quarteto.

A sonoridade é considerada, por fãs ortodoxos, mais comercial em comparação aos plays anteriores. Canções como “Blow Your Speakers” e “Carry On” soam um tanto quanto acessíveis, com a primeira ganhando um videoclipe nos moldes do que a MTV (citada na letra) pedia à época. Mesmo assim, o grupo forjou um genuíno representante do True Metal em “Black Wind, Fire And Steel”, que encerra o tracklist e se tornou a música que fecha os shows até hoje. Outra curiosidade vai para ”Defender”, originalmente gravada em 1982 e nunca antes aproveitada. Assim como “Dark Avenger”, de Battle Hymns, primeiro disco, ela conta com uma narração de Orson Welles. À altura do lançamento deste play, o ator já havia falecido, transformando esse reaproveitamento em homenagem póstuma. Com maior distribuição, Fighting The World apresentou o Manowar a uma fatia maior do mercado. Mas a consagração definitiva viria apenas no trabalho seguinte, a autocoroação como reis.

Eric Adams (vocais)
Ross The Boss (guitarra, teclados)
Joey DeMaio (baixo)
Scott Columbus (bateria)

01. Fighting The World
02. Blow Your Speakers
03. Carry On
04. Violence And Bloodshed
05. Defender
06. Drums Of Doom
07. Holy War
08. Master Of Revenge
09. Black Wind, Fire And Steel

manowar fighting

Edguy: 20 anos de Kingdom Of Madness

edguy kingdom

(lançado em 8 de fevereiro de 1997)

O Edguy foi uma banda incrivelmente precoce. O quarteto original começou a tocar junto em 1992, aos 14 anos de idade. Em 1994, lançaram as primeiras demos, Evil Minded e Children Of Steel. The Savage Poetry, álbum de estreia, foi lançado de forma independente, depois sendo adquirido pela gravadora AFM, que ampliou a divulgação original. Assim, chegamos a Kingdom Of Madness, considerado pela própria banda seu primeiro lançamento profissional, por assim dizer. À época, Tobias Sammet ainda acumulava a função de baixista e o baterista era Dominik Storch, que seria substituído por Felix Bohnke alguns anos mais tarde. As ideias seguiam o caminho do Power Metal tipicamente europeu, que passava por seu momento de maior sucesso, antes de se tornar a vertente mais saturada do gênero.

A banda ainda se mostrava um tanto quanto verde, o que pode ser sentido nos arranjos e na produção, que assinaram em parceria com Erik Grösch. Mas já oferecia alguns bons momentos, como em “Paradise”, faixa de abertura, ou “Wings Of A Dream”, regravada anos mais tarde, nas sessões do disco Mandrake. Baladeiros não terão do que reclamar em “When A Hero Cries”, pontuada por piano e orquestrações. Vale citar ainda que “The Kingdom”, faixa de encerramento, tem mais de 18 minutos e conta com participação de Chris Boltendahl, vocalista do Grave Digger, narrando uma parte textual e dando uma gargalhada maquiavélica. Era o princípio de uma história épica que se tornaria farrista – e muito melhor. O início da real consagração viria no trabalho seguinte, Vain Glory Opera, já bem mais elaborado.

Tobias Sammet (vocais, baixo, teclados)
Jens Ludwig (guitarra)
Dirk Sauer (guitarra)
Dominik Storch (bateria)

01. Paradise
02. Wings Of A Dream
03. Heart Of Twilight
04. Dark Symphony
05. Deadmaker
06. Angel Rebellion
07. When A Hero Cries
08. Steel Church
09. The Kingdom

edguy kingdom

Resenha: Jack Russell’s Great White – He Saw It Comin’ [2017]

jack russell's

É inevitável fazer algum tipo de comparação entre o grupo de Jack Russell e o Great White, que segue firme e forte com Terry Ilous nos vocais. Sendo assim, já de cara lembramos que “a outra versão” da banda saiu cinco anos na frente ao lançar o (bom) álbum Elation. Durante este tempo, o cantor original promoveu um entra-e-sai de músicos em seu conjunto, além das trocas de nomes e pagamentos de vale. Imbróglios judiciais resolvidos, era hora de mostrar o poder de fogo que ainda existia. Seria muito fácil tomar partido do quinteto comandado por Mark Kendall. Afinal de contas, a substituição de frontman foi mais que justificada pelo comportamento errante de Jack. Porém, também é verdade que o dono do microfone foi responsável pela composição de vários dos grandes hits dessa história que segue mão dupla, merecendo uma chance junto aos fãs.

O fato é que He Saw It Comin’ não foge da proposta Hard/Classic Rock que consagrou Russell. Canções como “She Moves Me” misturam com classe as influências setentistas com o toque da década seguinte, quando o protagonista se destacou em uma concorrida cena. “Crazy” é daquelas que David Lee Roth adoraria cantar, enquanto “Love Don’t Live Here” tem cara do que seria um sucesso outrora, sensação que se repete na quase Reggae “Don’t Let Me Go”. Os baladeiros de plantão vão se deleitar em “Anything For You”, da mesma forma que “Spy Vs. Spy” e “Blame It On The Night” vão contentar quem busca algo mais guitarreiro. De forma segura, Jack Russell dá a partida ideal em seu Great White. Aguardemos duas coisas: a resposta da contraparte e que não demore muito para outro dessa formação. Por hora, este jogo está empatado.

Nota 8

Jack Russell (vocais)
Tony Montana (guitarra, teclados)
Robby Lochner (guitarra)
Dan McNay (baixo)
Dicki Fliszar (bateria)

01. Sign Of The Times
02. She Moves Me
03. Crazy
04. Love Don’t Live Here
05. My Addiction
06. Anything For You
07. He Saw It Comin’
08. Don’t Let Me Go
09. Spy Vs Spy
10. Blame It On The Night
11. Godspeed

jack russell's