Resenha: Korn + Ego Kill Talent (Porto Alegre, 23 de abril de 2017)

Texto por Daiane Costa
Fotos por Day Montenegro

Na noite do último domingo, 23 de abril, Korn realizou seu primeiro show em Porto Alegre – mostrando aos adolescentes (dos anos 2000) que a energia ao vivo é mesmo contagiante. A nostalgia tomou conta da maior parte dos presentes, pois o repertório contemplou apenas dois sons do novo álbum. No entanto, a surpresa foi perceber que os caras atraem cada vez mais o público jovem, por representar originalidade no estilo nu metal, que traz também uma fusão de outros ritmos como o hip hop. O grupo está divulgando o seu último trabalho, chamado “The Serenity of Suffering”, lançado em 2016.

Mais duas mil pessoas estiveram presentes no Pepsi On Stage para conferir a primeira apresentação dos caras no Sul. Os primeiros a subir no palco, às 20h15, foram Ray Luzier (bateria) e Davey Oberlin (teclados), seguido dos guitarristas James Shaffer “Munky” e Brian “Head” Welch. E para brilhar e arrancar sorrisos do público: o pequeno Tye Trujillo (baixo).

O destaque da noite foi o jovem filho de Robert Trujillo (baixista do Metallica) que substituiu o músico Fieldy durante a turnê na América do Sul. Tye tem apenas 12 anos e exibe muita personalidade no palco com seus cabelos longos, levando os fãs ao delírio e despertando a curiosidade de muitos que ainda não sabiam nenhuma informação sobre essa tour peculiar com o garoto. “Here To Stay” abriu caminho para a nova Rotting In Vain e o público impressionava cantado todos os sons! Mais perto da grade, uma turma carregava o boneco capa do álbum Issues (1999).

O Korn executou clássicos da carreira na mesma atmosfera que os seguidores já estão acostumados. Jonathan Davis mostrou a velha forma de sempre nos vocais em um show inesquecível aos que esperaram por duas décadas. Em “Shoots and Ladders” Davis buscou sua gaita de fole e tocou a introdução escocesa. Ainda, o grupo homenageou bandas como Metallica com “One”, Queen – com o trecho de “We Will Rock You”, e o grupo Cameo com a “Word Up. Sem dúvidas, “Blind” fez o chão tremer e as rodas agitadas se formarem. “Falling Away From Me” e “Freak on a Leash” encerraram a apresentação e a turnê dos californianos pelo Brasil. Diferente de outros nomes do “movimento” daquela época quando a onda surgiu, o Korn continua lançando discos (12º) e fazendo o público ainda respirar aquele new metal que sempre emplacava no Disk MTV.

Evoluindo na parte instrumental e flertando com outros estilos, sem viver apenas do passado, Korn mostra que o nu metal está vivo. E podemos dizer que o baterista Ray Luizer representa uma dessas evoluções, pois o cara manda muito! O batera permanente desde 2009 (após a saída de David Silveria) tem um ótimo currículo, de quem já executou rock progressivo/fusion com “gente de peso”! Luzier é mais conhecido por seu trabalho com David Lee Roth, onde foi baterista de 1997 a 2005.

A banda de abertura da noite foi Ego Kill Talent, às 18h45. O quinteto formado em São Paulo ficou responsável por aquecer o público que está acostumado com o Rock Alternativo e se mostrou bastante receptivo. Visto que a formação chama atenção com integrantes e ex-integrantes de bandas de diferentes subgêneros do Rock e Metal: Jonathan Corrêa (Reação em Cadeia – vocal), Theo van der Loo (ex-Sayowa – guitarra e baixo), Raphael Miranda (ex-Sayowa – bateria e baixo), Niper Boaventura (PullDown – guitarra e baixo) e Jean Dolabella (ex-Sepultura – bateria e guitarra). Para surpresa de muitos, os músicos revezam os instrumentos durante o show. E o vocalista gaúcho, Jonathan Corrêa, mostrava a todo momento sua empolgação e realização em mais um passo de sua carreira. Na semana anterior, The Ego Kill Talent apresentou-se também em Caxias do Sul, São Leopoldo e Canela – RS.

Setlist KORN:

Right Now
Here to Stay
Rotting in Vain
Somebody Someone
Word Up!
Coming Undone/We Will Rock You
Insane
Y’all Want a Single
Make Me Bad
Shoots and Ladders/One
Drum Solo
Blind Twist
Good God
Falling Away From Me
Freak on a Leash

Dokken: 15 anos de Long Way Home

dokken

(lançado em 23 de abril de 2002)

A relação de John Norum e Don Dokken remete ao início dos anos 1990, quando o guitarrista do Europe participou de Up From The Ashes, primeiro (e ótimo) álbum solo do vocalista. Ele também foi chamado para o Dokken em 1997, substituindo George Lynch, que havia abandonado o barco em meio à turnê do terrível Shadowlife. Mas não pôde ficar em definitivo, devido a compromissos previamente assumidos. Reb Beach (Winger, Whitesnake) entrou, gravou o excelente Erase The Slate, além do ao vivo Live From The Sun, saindo a seguir. Foi o momento em que as estrelas se alinharam e a parceria pôde ser reeditada. Porém, a banda sofreu a baixa de mais um membro clássico, quando o baixista Jeff Pilson pediu o boné. Barry Sparks (Yngwie Malmsteen, MSG) foi chamado para completar a nova formação.

Único fruto da união do quarteto, Long Way Home, um trabalho voltado ao lado mais ‘bluesy’ do Hard Rock, sem tanto acento do que consagrou o Dokken outrora. Entre as faixas, destaque para a abertura, com a pesada “Sunless Days”, o groove marcante de “You” e a melodia triste, porém cativante de “There Was A Time”. Ainda há espaço para um cover de “Heart Full Of Soul”, canção de Graham Gouldman, imortalizada na versão do The Yardbirds. No Japão, o disco saiu apenas dois meses mais tarde. Para compensar, ofereceu três músicas extras: “Dancin’ (The Irish Song)”, “Only Heaven Knows” e “Let It Be True”. Em meio à turnê, John Norum sofreu uma lesão na mão e precisou ser substituído pelo italiano Alex De Rosso. No mesmo ano, o Europe começou a ensaiar a reunião que perdura até hoje.

Don Dokken (vocais)
John Norum (guitarra)
Barry Sparks (baixo)
Mick Brown (bateria)

01. Sunless Days
02. Little Girl
03. Everybody Needs (To Be With Someone)
04. You
05. Goodbye My Friend
06. Magic Road
07. There Was A Time
08. Heart Full Of Soul
09. Under The Gun
10. I’ve Found

dokken

Judas Priest: 40 anos de Sin After Sin

priest sin

(lançado em 23 de abril de 1977)

Sad Wings Of Destiny catapultou o Judas Priest a outro patamar na cena Hard Rock dos anos 1970 – lembremos que o Heavy Metal ainda não havia se estabelecido como o movimento que viria a ser logo a seguir. O sucesso despertou interesse de grandes gravadoras, dando início a um trabalho com a CBS na Europa e Columbia nos Estados Unidos. Com mais recursos, a banda pôde investir em um produtor de gabarito, chamando ninguém menos que Roger Glover, então ex-baixista do Deep Purple, para comandar as sessões. O próprio acabou sugerindo o baterista Simon Phillips em substituição a Alan Moore, que havia saído após a turnê anterior. Renomado músico de estúdio, ele gravaria o disco, mas recusaria o convite para se tornar membro efetivo devido a compromissos previamente assumidos – ou, simplesmente, porque aquela não era a sua praia, embora sempre tenha declarado que foi uma experiência enriquecedora e produtiva.

O resultado foi Sin After Sin, que estabeleceu o grupo de vez com uma sonoridade agressiva, cheia de contornos épicos e dramáticos. O grande sucesso foi a versão para “Diamonds And Rust”, de Joan Baez. Lançada como single, foi uma espécie de desafio proposta pelos empresários, que a banda assumiu com naturalidade, transformando uma balada Folk em um Rock pesado e acelerado. Faixa de abertura, “Sinner” foi outra que se perpetuou, chegando ao panteão dos clássicos, junto de “Starbreaker”. Também houve espaço para algo mais leve, com a bela interpretação de Rob Halford em “Last Rose Of The Summer”. Anos mais tarde, “Dissident Aggressor”, que encerra o tracklist original, ganharia uma versão do Slayer. A turnê de divulgação levou o Judas Priest pela primeira vez à América do Norte, acompanhando Foreigner e REO Speedwagon. Para a função de baterista, o exímio Les Binks foi contratado. Era o primeiro passo significativo rumo ao posto de Metal Gods.

Rob Halford (vocais)
Glenn Tipton (guitarra)
K.K. Downing (guitarra)
Ian Hill (baixo)

Convidado especial

Simon Phillips (bateria)

01. Sinner
02. Diamonds And Rust
03. Starbreaker
04. Last Rose Of The Summer
05. Let Us Prey/Call For The Priest
06. Raw Deal
07. Here Comes The Tears
08. Dissident Aggressor

Pretty Maids: 30 anos de Future World

future world

(lançado em 20 de abril de 1987)

Não há grupo que tenha conseguido fazer a mistura de Heavy Metal e Hard Rock de maneira tão perfeita como os dinamarqueses do Pretty Maids. Talvez justamente por essa caminhada na linha fina entre um gênero e outro, os caras não tenham feito grande sucesso. Nenhum trabalho virou referência tão grande na discografia do grupo quanto o estupendo Future World. Lançado em 1987, teve grande amparo de sua gravadora à época, a Warner Brothers Records, satisfeita com a boa repercussão do debut, Red, Hot & Heavy. O investimento foi tão forte, que chamaram dois feras para produção e mixagem, os renomados Eddie Kramer (KISS, Led Zeppelin, Jimi Hendrix e incontáveis outras estrelas) e Flemming Rasmussen (Metallica). Nos backing vocals, outra participação especial de peso, ninguém menos que o lendário Graham Bonnet (Rainbow, Alcatrazz, MSG).

A faixa-título é um soco no estômago, com guitarras furiosas e teclados marcantes. Atentem-se à performance de Ronnie Atkins nos vocais e percebam quem foi a maior inspiração para Hansi Kürsch. “We Came To Rock” é aquele Heavy de arena típico, com refrão para ser entoado pela massa. Na sequência, o grande hit “Love Games”, a mistura perfeita de teclados AOR e pegada metálica. A climática “Yellow Rain” e a certeira “Loud N’ Proud” mantém o nível no máximo, abrindo espaço para o Hard Rock simples e eficiente de “Rodeo”, mais uma daquelas melodias que fazem a vida valer a pena. Para dar uma injeção ainda maior de adrenalina, a porrada absurda de “Needles In The Dark” convida o ouvinte a bater cabeça e empunhar sua air-guitar em um típico exemplar do Metal oitentista.

A semibalada “Eye Of The Storm” é um show de execução instrumental. Para encerrar em uma vibração festeira, a descontraída “Long Way To Go”. As vendas logo atingiram a casa do milhão, fazendo com que a banda seja chamada para abrir a turnê do Deep Purple pelos Estados Unidos. Logo após, embarcam em um giro europeu, dessa vez como headliners. Aliás, a amizade com os membros do Purple perdurou, com Roger Glover produzindo o trabalho seguinte do Pretty Maids, Jump The Gun, além de Ian Gillan participar do EP natalino “In Santa’s Claws”, ambos de 1990. Future World é indispensável na coleção de qualquer pessoa com bom gosto musical. A prova de que se pode misturar elementos mais acessíveis com o peso e fazer um som que agrade a todos sem precisar apelar.

Ronnie Atkins (vocais)
Ken Hammer (guitarra)
Allan DeLong (baixo)
Phil Moorhead (bateria)
Alan Owen (teclados)

01. Future World
02. We Came To Rock
03. Love Games
04. Yellow Rain
05. Loud N’ Proud
06. Rodeo
07. Neddles In The Dark
08. Eye Of The Storm
09. Long Way To Go

future world

Dokken: 20 anos de Shadowlife

(lançado em 15 de abril de 1997)

Entre todas as bandas do Hard Rock oitentista, o Dokken viveu o caso mais extremo de rompimento com o estilo que o consagrou. O retorno do quarteto clássico nos anos 1990 não trouxe nada de bom em termos musicais – salvo uma ou outra faixa do álbum Dysfunctional – e só mostrou a deteriorada relação entre Don Dokken e George Lynch em um grau ainda mais elevado. Após um quase rompimento, o guitarrista assumiu para si a responsabilidade de fazer com que o grupo tentasse soar atualizado. O resultado foi o fiasquento Shadowlife, disco que tentava, descaradamente, seguir a onda do Rock Alternativo da época. Obviamente, não dá para eximir de culpa os outros membros. Afinal de contas, eles tinham poder de decisão, nem que fosse para expulsar o guitar hero, o que acabou acontecendo logo a seguir.

A produção de Kelly Gray – um eterno estraga-bandas – limou qualquer resquício do passado, fazendo uma das formações mais técnicas de sua geração soar suja, desconexa e deslocada. Para piorar, o tracklist oferece treze faixas, se tornando um verdadeiro martírio para quem tenta escutar até o final. Nada se salva em um disco que sequer figurou com alguma força nas paradas. Após a demissão de Lynch, John Norum (Europe) teve uma breve passagem pelo grupo. A substituição definitiva veio através de Reb Beach (Winger, Whitesnake), com quem o Dokken lançaria Erase The Slate, um de seus melhores trabalhos. Shadowlife é, não apenas o pior disco de Don Dokken e seus asseclas, mas o que de mais terrível foi disponibilizado por um grupo daquela fase da história. Tanto que nem o logotipo é o tradicional. Passe longe.

Don Dokken (vocais)
George Lynch (guitarra)
Jeff Pilson (baixo)
Mick Brown (bateria)

01. Puppet On A String
02. Cracks In The Ground
03. Sky Beneath My Feet
04. Until I Know
05. Hello
06. Convenience Store Messiah
07. I Feel
08. Here I Stand
09. Hard To Believe
10. Sweet Life
11. Bitter Regret
12. I Don’t Mind
13. Until I Know (Slight Return)

Anvil: 35 anos de Metal On Metal

(lançado em 15 de abril de 1982)

Após o lançamento do seu álbum de estreia, Hard ‘N’ Heavy, a banda canadense Anvil começou a ganhar certa repercussão junto a seus pares. Ao ponto de Steve “Lips” Kudlow ter sido pessoalmente convidado por Lemmy para se juntar ao Motörhead, em substituição ao guitarrista “Fast” Eddie Clarke. Apesar de ser uma proposta tentadora, o músico decidiu seguir atrás do sonho de alcançar a fama com um projeto próprio, além de se manter como um frontman. Assim, o quarteto partiu para a gravação do segundo trabalho, que se tornaria uma espécie de sinônimo de toda sua carreira. Ao invés da autoprodução, conseguiram no inglês Chris Tsangarides um nome ascendente no mercado. Ele se consagraria nos anos seguintes ao trabalhar com nomes como Thin Lizzy, Judas Priest, Helloween e Bruce Dickinson.

Metal On Metal consagrou a faixa-título como o grande clássico, principal referência para quem não é totalmente familiarizado com a história da banda. Após o revival causado pelo famigerado documentário This Is Anvil, chegou a aparecer até mesmo em um episódio da série The Simpsons. A instrumental “March Of The Crabs” e “Tag Team” foram usadas no game Brutal Legend, de 2009. Outras conhecidas são “Mothra” e “666”. Curiosamente, “Stop Me” foi usada como single à época do lançamento, mesmo sendo cantada pelo guitarrista Dave Alison. Lips e companhia acabaram chamando a atenção de David Krebs, manager do Aerosmith, que os colocou em contato com seu assistente, o saudoso Paul O’Neill. No começo da parceria, tudo indicava que a coisa ia decolar de vez. Mas não foi bem assim.

Steve “Lips” Kudlow (vocais, guitarra)
Dave Alison (guitarra, vocais)
Ian Dickson (baixo)
Robb Reiner (bateria)

01. Metal On Metal
02. Mothra
03. Stop Me
04. March Of The Crabs
05. Jackhammer
06. Heat Sink
07. Tag Team
08. Scenery
09. Tease Me, Please Me
10. 666

Resenha: Place Vendome – Close To The Sun [2017]

O Place Vendome teve grade atuação no resgate de Michael Kiske – iniciado, sempre bom lembrar, por Tobias Sammet com o Avantasia. Porém, com o passar do tempo, o trabalho do projeto foi se tornando maçante. A cada novo disco, a qualidade caía mais um pouco. Portanto, é com os dois pés atrás que fui conferir Close To The Sun. A grande novidade fica por conta de uma série de guitarristas conhecidos fazendo participações especiais. Nomes como Kai Hansen (Helloween, Gamma Ray, Unisonic), Gus G. (Firewind, Ozzy Osbourne) e Magnus Karlsson (Primal Fear, The Ferrymen) dão as caras, contribuindo com solos. Nas composições, contribuíram Jani Liimatainen (Cain’s Offering), Olaf Thorsen (Labÿrinth), Alessandro Del Vecchio (Hardline) e Fabio Lione (Rhapsody, Angra), entre outros.

A sonoridade de Close To The Sun se mantém no AOR, porém, demonstra uma inclinada a algo mais Prog. Inclusive, uma das músicas é “Hereafter”, regravação para composição da banda italiana DGM, sugestão de Serafino Perugino, presidente da Frontiers Records. A interpretação de Kiske segue sendo soberba. Porém, o tracklist traz poucos sopros de novidade. Vale destacar o agradável arranjo de “Welcome To The Edge”, a pegada Hard de “Across The Times” e a melodia cativante de “Falling Star”. Melhor que o antecessor direto, porém, ainda abaixo dos dois primeiros. Destinado só a quem é muito fã da voz do protagonista, que agora parte para a esperada reconciliação definitiva com seu passado.

Nota 6

Michael Kiske (vocais)
Dennis Ward (baixo, guitarra)
Günter Werno (teclados)
Dirk Bruinenberg (bateria)

01. Close To The Sun
02. Welcome To The Edge
03. Hereafter
04. Strong
05. Across The Times
06. Riding The Ghost
07. Light Before The Dark
08. Falling Star
09. Breathing
10. Yesterday Is Gone
11. Helen
12. Distant Skies

Resenha: Richie Kotzen – Salting Earth [2017]

Nem mesmo o êxito comercial além do esperado com o The Winery Dogs fez Richie Kotzen abrir mão do seu habitat natural. O multi-instrumentista e cantor volta a focar na carreira-solo com Salting Earth, 21º trabalho levando seu nome. Algumas músicas já haviam sido lançadas de forma esporádica na internet, em versões demo. Agora, surgem de forma definitiva, com o protagonista da obra novamente assumindo todas as funções – exceção a uma participação de sua namorada, a brasileira Júlia Lage, nos backing vocals em “Make It Easy”. A fórmula sonora não se altera em comparação aos antecessores diretos, fincando os pés no Rock misturado a Soul Music e R&B, além de um clima soturno na medida certa, como em “End Of Earth”, que abre o tracklist. Das dez faixas, apenas duas ultrapassam os cinco minutos de duração, mesmo mantendo as sempre bem-vindas viagens sonoras.

Destaque individual para “Thunder”, com seu riff pesado e melodia certeira. “I’ve Got You” é saudavelmente vintage e poderia até tocar em algumas programações radiofônicas sem medo, assim como “My Rock”, um perfeito exemplar de música Pop de qualidade. Outro grande momento dá as caras em “Meds”, que lembra o álbum Something To Say, de vinte anos atrás. No campo das baladas, “This Is Life” traz a melancolia característica do autor da obra. A despeito de este ou aquele momento ser melhor, Richie consegue manter rara regularidade em sua discografia. Quem já gosta, não irá se decepcionar. Quem ainda não conhece, pode começar por aqui sem medo. Só não espere peso em abundância, a proposta aqui é outra. E esperem mais lançamentos do tipo antes de a “cachorrada” retornar. Afinal de contas, a estrada preferida de Kotzen é aquela a se percorrer sozinho.

Nota 8

Richie Kotzen (todos os instrumentos e vocais)

01. End Of Earth
02. Thunder
03. Divine Power
04. I’ve Got You
05. My Rock
06. This Is Life
07. Make It Easy
08. Meds
09. Cannon Ball
10. Grammy

Van Halen: 35 anos de Diver Down

diver down

(lançado em 14 de abril de 1982)

Apesar de hoje ser considerado um clássico, Fair Warning não obteve a mesma repercussão que seus antecessores na discografia do Van Halen. À época, as tensões na banda já eram facilmente perceptíveis, especialmente entre Eddie e David Lee Roth – que era apoiado pelo produtor, Ted Templeman. Quando o vocalista teve a ideia de lançar um cover como single, para manter o nome no mercado, a primeira sugestão foi “Dancing In The Street”. Porém, o guitarrista não viu como conseguiria encaixar seu estilo e sugeriu “(Oh) Pretty Woman”. A repercussão foi tão boa que a Warner Bros. acabou exigindo que o quarteto aproveitasse o momento para lançar um novo disco completo. Férias abortadas, porém, não havia material suficiente para disponibilizar um full-length a curto prazo. A saída foi colocar vários covers (incluindo o inicialmente rejeitado), vinhetas instrumentais e algumas faixas inéditas.

Reconhecidamente mais Pop, Diver Down é considerado o trabalho mais fraco da banda nos tempos de Roth. Mesmo assim, emplacou as canções citadas no parágrafo anterior, como “Little Guitars” e “Where Have All The Good Times Gone!”, mais um tributo ao The Kinks, tal qual “You Really Got Me”, do primeiro disco. Outro destaque vai para a participação de Jan, pai dos irmãos Van Halen, tocando clarinete em “Big Bad Bill (Is Sweet William Now)”. Seria a única participação do músico em um trabalho dos filhos. Ele morreria três anos depois. Opiniões particulares à parte, o álbum vendeu bem mais que se antecessor, proporcionando uma turnê bem sucedida, que inclui a primeira passagem pela América do Sul e o cachê milionário no US Festival 1983, maior pago por uma única apresentação até então.

David Lee Roth (vocais)
Eddie Van Halen (guitarra)
Michael Anthony (baixo)
Alex Van Halen (bateria)

01. Where Have All The Good Times Gone!
02. Hang ‘Em High
03. Cathedral
04. Secrets
05. Intruder
06. Pretty Woman
07. Dancing In The Street
08. Little Guitars intro
09. Little Guitars
10. Big Bad Bill (Is Sweet William Now)
11. The Full Bug
12. Happy Trails

diver down

Cabeçote: Quando Pata, do X Japan, reuniu músicos do hard americano

O guitarrista Pata entrou para o X, posteriormente conhecido como X Japan, em 1987, um ano antes do lançamento do primeiro disco do grupo, “Vanishing Vision”. Em cinco anos, a banda se tornou uma das maiores do Japão, com a aposta em uma sonoridade que mescla speed metal a pitadas orquestradas visual kei – uma espécie de resposta ao glam ocidental.

Em 1993, o X Japan lançou “Art Of Life”, mas pouco o promoveu, visto que os membros já estavam dedicados, desde 1992, a projetos solo. Um dos trabalhos mais curiosos foi, justamente, o de Pata, que parece ser o músico mais ligado ao rock ocidental entre todos os seus colegas.

Em sua primeira empreitada solo, Pata montou, praticamente, uma banda de hard rock com influência do blues. Dois discos foram lançados: “Pata”, em 1993, e “Raised On Rock”, em 1995. E para tornar isto realidade, reuniu músicos de currículo pesado (e ocidentais) para o projeto.

Para seu primeiro disco, Pata contou com James Christian (House Of Lords) nos vocais, Tommy Aldridge (Whitesnake, Ozzy Osbourne, House Of Lords e outros) na bateria e colaborações pontuais de músicos como Mike Porcaro e Simon Philips (Toto), Tim Bogert (Cactus, Vanilla Fudge), entre outros.

O músico chegou a fazer uma pequena turnê para divulgar seu primeiro álbum. Levou consigo James Christian e Tommy Aldridge, entre outros músicos, para datas em casas de shows no Japão.

No álbum posterior, “Raised On Rock”, de 1995, Pata fez quase uma franquia oriental do House Of Lords: além de James Christian nos vocais, contou com Chuck Wright (também ex-Quiet Riot) no baixo e Ken Mary na bateria, além de Daisuke Hinata nos teclados. A formação é mais enxugada, visto que não houve tantas participações especiais.

Em ambos os discos, Pata aposta, como dito anteriormente, em um hard rock de influência bluesy, mas que também soava moderno e concatenado com a sonoridade praticada por grandes bandas americanas. Gosto mais do primeiro álbum, de 1993, apesar do segundo ser mais sóbrio em sua produção.

Ambos os trabalhos também alternam entre faixas instrumentais e canções com a voz de James Christian, que é um grande cantor. Nas músicas onde a guitarra de Pata é o destaque, a veia bluesy emerge. Quando Christian está no “comando”, a pegada é mais hard rock.

O X Japan continuou pouco movimentado até o fim de 1995, quando Pata já havia lançado seus dois discos solo. O grupo retornou para divulgar “Dahlia”, já em 1996, e encerrou suas atividades em 1997.

Após o fim do X Japan, Pata seguiu a investir em outros grupos, como o P.A.F., o Ra:IN e o Dope HEADz, mas, na minha opinião, nenhum chega aos pés de sua dupla de álbuns solo, que nunca mais foi revisitada. O X retomou atividades em 2007 e, desde então, não parou mais.

Pata – “Pata” (1993)

01. 6 Hours To Minute
02. East Bound
03. 5 O’ Clock
04. All The Way
05. So Far
06. Road Of Love
07. Little Iron Waltz
08. Story Of A Young Man
09. Psychedelic Jam
10. Positively Unsure
11. Strato Demon

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 4, 6, 8 e 9
Tim Bogert – baixo em 2, 4, 9 e 11
Gerald Johnson – baixo nas faixas 3, 5 e 6
Mike Porcaro – baixo nas faixas 10
Tommy Aldridge – bateria nas faixas 3, 4, 5, 6 e 9
Simon Phillips – bateria nas faixas 2, 10 e 11
Daisuke Hinata – teclados nas faixas 1, 2, 5, 6, 8, 10, 11
Rafael Padilla – percussão nas faixas 5, 8 e 10
Mike Finegen – órgão Hammond nas faixas 2

Ouça:

Pata – “Raised On Rock” (1995)

01. Raised On Rock
02. Weirdo
03. You’re My Everything
04. Silence Before The Storm
05. World Gone Insane
06. Tea For One
07. Fly Away
08. Blues For My Baby
09. Remind You

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 1, 3, 5 e 8
Chuck Wright – baixo
Ken Mary – bateria
Daisuke Hinata – teclados

Ouça:

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Resenha: Steel Panther – Lower The Bar [2017]

panther lower

Bandas adeptas da vertente humorística da música são atormentadas pelo fantasma do marasmo. Todas elas, em algum momento da carreira, acabam transmitindo ao público a sensação de terem se tornado a mesma piada contada várias vezes. O Steel Panther possui um mérito que a maioria delas não têm: seus membros são realmente bons, entendedores do aspecto musical do estilo a que se propõem. Ralph Saenz, vulgo Michael Starr, é um grande vocalista de Hard Rock, completado com maestria pelo guitarrista Russ Parish, conhecido como Satchel. A cozinha cumpre seu trabalho com toda competência e o quarteto segue em frente. Lower The Bar já é o quarto trabalho de estúdio, um grande mérito, levando em consideração o que foi dito no início do parágrafo.

Sons como “Anything Goes” poderiam facilmente estar em um álbum clássico do Van Halen, com a malícia que consagrou Eddie e companhia. O lado mais Pop se evidencia em “Poontang Boomerang” e na balada “That’s When You Came In”. Também vale citar o groove de “Pussy Ain’t Free” e a sensação de déjà-vu proporcionada por “I Got What You Want”. Ainda há espaço para uma homenagem ao Cheap Trick, com um cover de “She’s Tight” encerrando o tracklist. O próprio Robin Zander, guitarrista e compositor da música, aparece para dar sua benção ao momento. Não vai mudar a vida de ninguém, mas garante o divertimento. E, ao contrário de outros grupos que se valem da comédia, parece que o Steel Panther não vai se tornar inútil.

Nota 7

Michael Starr (vocais)
Satchel (guitarra)
Lexxi Foxx (baixo)
Stix Zadinia (bateria, teclados)

01. Goin’ In The Backdoor
02. Anything Goes
03. Poontang Boomerang
04. That’s When You Came In
05. Wrong Side Of The Tracks (Out In Beverly Hills)
06. Now The Fun Starts
07. Pussy Ain’t Free
08. Wasted Too Much Time
09. I Got What You Want
10. Walk Of Shame
11. She’s Tight

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Resenha: Deep Purple – inFinite [2017]

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Independente do julgamento relativo à qualidade, há de se exaltar os esforços do Deep Purple. Todos os seus membros já estão com idade avançada e enfrentando os problemas que a velhice traz – o baterista Ian Paice chegou a sofrer um pequeno AVC na metade do ano passado. Até por isso, há de se compreender certas limitações técnicas, especialmente da parte de Ian Gillan, que luta para adaptar o que restou de sua abençoada voz. Mesmo assim, a banda segue lançando discos com uma frequência que nenhum de seus contemporâneos mantém. Em seu vigésimo full-length, o quinteto reafirma a parceria com o fantástico produtor Bob Ezrin (Alice Cooper, Pink Floyd, KISS), iniciada em Now What?!, trabalho anterior. Como aconteceu com ele, as opiniões finais se dividirão aqui.

O primeiro single, “Time For Bedlam”, passa longe de ser o melhor momento do tracklist. “Hip Boots”, com a característica pegada de Ian Paice, teria sido uma escolha mais apropriada. Outros destaques vão para o perfeito entrosamento na dobradinha “One Night In Vegas” e “Get Me Outta Here”, além de “Birds Of Prey”, com a pegada mais forte, embora longe do que se poderia ser considerada uma música realmente pesada. A grande surpresa fica por conta do encerramento, com um cover para “Roadhouse Blues”, do The Doors. De resto, Steve Morse executando sua função com total competência, mesmo que uma parte dos fãs jamais esqueça Ritchie Blackmore. Ao que tudo indica, inFinite deve marcar o início dos trabalhos de despedida do Deep Purple. Não há reparos a se fazer sobre o conjunto da obra, independente de qual seja sua fase preferida.

Nota 8

Ian Gillan (vocais)
Steve Morse (guitarra)
Roger Glover (baixo)
Don Airey (teclados)
Ian Paice (bateria)

01. Time For Bedlam
02. Hip Boots
03. All I Got Is You
04. One Night In Vegas
05. Get Me Outta Here
06. The Surprising
07. Johnny’s Band
08. On Top Of The World
09. Birds Of Prey
10. Roadhouse Blues

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