Porta-malas: Cadillac Bratz

Cadillac Bratz 1Talvez a banda mais lado b já abordada na coluna, o Cadillac Bratz surgiu em Miami no auge do hair metal e tomou de assalto a cena de bares e clubs da Flórida em 1990. Tocando um hard rock feito sob medida para rádio e TV, Michael “Spaz” Sevilla (vocal), Wade Jackson (guitarra), Chris Morriah (baixo) e Joey Cotoia (bateria) deixaram sua marca antes de desaparecer sem deixar vestígios.

O único registro em áudio do Bratz que se tem notícia é o independente Fasten Your Seatbelt, de 1991. O álbum, em seus 30 minutos de duração, cativa através de músicas acessíveis, com refrões ganchudos, pra você, eu e todo mundo cantar junto. O hit por aqui foi a faixa de abertura, “PYBUM”, ou “Put Your Body Under Me”, um senhor convite ao sexo sem compromisso.

Fasten Your Seatbelt obteve destaque na mídia local e colocou o Bratz na cola de grandes artistas em suas passagens pelo, segundo Homer Simpson, pênis da América. Dokken, The Romantics, Edgar Winter Group e REO Speedwagon estão entre os grupos que contaram com o Bratz como show de abertura.

Quinze anos após se separarem, Spaz e os outros voltaram à ativa para celebrar o relançamento de Fasten Your Seatbelt pela Retrospect Records. A bolacha foi remasterizada, ganhou nova arte e está à venda no site do selo por míseros US$7. Mas tudo indica que o tanque deste Cadillac já está na reserva e que, provavelmente, o veículo irá estacionar de vez em breve.

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Porta-malas: London

london-1Na reta final da década de 1970, ninguém poderia imaginar que Los Angeles se tornaria o epicentro de um movimento musical e comportamental que faria as indústrias, tanto musical quanto o tráfico de drogas, movimentarem bilhões de dólares. Mas a verdade é que foi justamente aí que a chamada era metal começou a ser delineada, tendo entre seus precursores o London, que será eternamente lembrado por conta do calibre dos hard rockers que certificou.

O London teve origem em 1978 a partir da parceria entre o guitarrista Lizzie Grey e Nikki Sixx, ambos renegados pelo Sister, então comandado pelo vocalista Blackie Lawless. Como muitos outros, o London modelou o seu som a partir do glam rock dos anos 1970, e tanto seu som quanto seu visual refletiam bastante de Sweet e New York Dolls.

london-2Num período de pouco mais de um ano desde sua formação, uma dúzia de músicos passou pelo London, dentre os quais se destacam os vocalistas Michael White (The White) e Nigel Benjamin (Mott The Hoople) e o baterista Dane Rage, atual dono da marca de brinquedos Überstix LLC. A primeira encarnação estabelecida do London se separou sem ter deixado nada gravado.

Quatro anos se passaram até que Grey resolvesse dar nova vida ao grupo, sem Sixx, que já estava fazendo nome com o Mötley Crüe. Em 1985, o line-up consistia de Nadir D’Priest (voz), Brian West (baixo), Bobby Marks (bateria) e a dupla de guitarras formada por Grey e Izzy Stradlin. Não durou muito: Marks trocaria o London pelo Keel (sendo substituído por Fred Coury) e Stradlin uniria forças com o amigo Axl Rose dando origem a uma bandinha aí chamada Guns N’ Roses.

Non-Stop Rock, o debut do London, foi gravado meio que aos trancos e barrancos, na tentativa de estabelecer a banda na cena de LA (já liderada pelo Mötley) e, quem sabe, acabar com o estigma de “escola de rock” que o passado lhe conferiu e a própria banda confirma em entrevista no documentário referência The Decline of the Western Civilization II: The Metal Years anos mais tarde. De nada adiantou: Fred Coury pegou carona no sucesso do emergente Cinderella e pediu as contas.

O lendário produtor Kim Fowley foi chamado para produzir o álbum seguinte. Don’t Cry Wolf saiu em agosto de 1986 trazendo um cover de “Oh! Darling” dos Beatles e uma canção co-escrita por Blackie Lawless (“For Whom the Bell Tolls”), que seria reaproveitada pelo W.A.S.P. em The Headless Children, em 1989. A bolacha teve pouca expressão de vendas e isso brochou Grey por completo. O guitarrista abriu mão de sua banda em 1988, deixando o nome a cargo de D’Priest. A sobrevida após a saída de Grey, limitada ao fraco Playa del Rock (1990), não vale menção.

Em 2006, D’Priest anunciou a retomada de atividades do London, mas a primeira apresentação ao vivo aconteceu apenas em 2012. O quarteto, completado por West, Sean Lewis (guitarra) e Alan Krigger (bateria, ex-Giuffria), planeja o lançamento de um DVD para 2013 enquanto realiza a mixagem de seu novo trabalho, intitulado Mastered LIVE!. E basta ver a cara de felicidade dos tiozões do rock na foto abaixo para constatar que ventos favoráveis sopram por lá.

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Porta-malas: Blackeyed Susan

Blackeyed Susan 1O Blackeyed Susan surgiu na Filadélfia, em 1990, após Dizzy Dean Davidson deixar o Britny Fox em busca de algo mais a ver com suas preferências musicais. Em entrevista para o Chicago Tribune, em agosto de 1991, o vocalista alega que o som do Fox era algo pré-fabricado, que visava apenas atender às expectativas dos empresários e da CBS. “No Blackeyed Susan vocês me ouvem do jeito que eu sempre quis que vocês me ouvissem”, complementa.

Pois bem, Davidson disse adeus ao Britny Fox em abril de 1990 e não perdeu tempo: reuniu o que de melhor havia em suas composições então inéditas e chamou Erik Levy (baixo), Chris Branco (bateria) e os guitarristas Tony Santoro e Rick Criniti para finalizá-las. O disco de estreia do quinteto ficou pronto em apenas quatro meses. Uma fita contendo a gravação do álbum foi inicialmente enviada para a Geffen, mas acabou nas mãos da Mercury, com a qual o grupo assinou às vésperas do Natal daquele ano.

Electric Rattlebone saiu no início de 1991 e foi bastante elogiado pela crítica da época, que já nutria certo ódio pelas hairbands. A sonoridade é totalmente o oposto do que se ouve nos dois trabalhos de Davidson à frente do Fox: o rock n roll aqui é totalmente enraizado nos anos 1970, com direito a slide guitar, gaita, coral gospel e pianos honky-tonk e destaque absoluto para o registro vocal 100% honesto e transbordando personalidade.

Em meados de 1991, Criniti, que havia tocado teclado no Cinderella, deu lugar a Jimmy Marchiano, parceiro de John Corabi no Angora. O novato faria sua estreia em uma série de shows realizados ao lado dos Bulletboys no lendário Thirsty Whale de Chicago. Na mesma época, a canção “Ride With Me” aparece nos créditos finais do filme Harley Davidson e Marlboro Man, estrelado por Mickey Rourke, conferindo ao Blackeyed Susan uma visibilidade que o single “None Of It Matters” foi incapaz de conferir. Insatisfeita, a Mercury se livrou do grupo tão rápido quanto o contratou.

Infelizmente, a trajetória do Blackeyed Susan parou por aí, mas basta ouvir Electric Rattlebone e Bite Down Hard (terceiro álbum do Britny Fox, lançado em 1991, com Tommy Paris nos vocais) para ter certeza que a saída de Davidson foi a melhor coisa para ambas as partes e para o hard rock. Nos anos 2000, caiu na rede um apanhado de demos inéditas do Blackeyed Susan datadas de 1992. Just a Taste nunca teve lançamento oficial, mas tem lugar garantido nos HDs dos fãs.

Dean Davidson deixou o Dizzy de lado e parece que abandonou o rock também. Seus trabalhos como artista solo remetem à Jeff Buckley e Ryan Adams; um som introspectivo e que em nada lembra os velhos tempos. Jimmy Marchiano trabalhou ao lado do produtor Kevin Shirley e acompanhou Davidson no projeto Love Saves the Day, que lançou seu único álbum, Superstar, em 2001. Atualmente, comanda o Get the Led Out (tributo ao Led Zeppelin) e integra a banda de apoio de Mike LeCompt do Tangier.

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Porta-malas: Tangier

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Filadélfia, Pensilvânia, 1985. Bandas de hard rock tomando conta das casas noturnas, mas somente uma, o Cinderella, voou alto o bastante para ser notada. O que faltou então para as bandas do segundo escalão da velha Philly? Uma grande chance, um pouco mais de sorte ou, quem sabe, o poder do QI (Quem Indica)? Seja lá qual for a sua resposta, de uma coisa você pode ter certeza: talento não faltava na cidade do amor fraterno, e aqui está uma prova disso.

O guitarrista e compositor Doug Gordon deu vida à primeira encarnação do Tangier em meados de 1985. Bill Mattson (vocal), Rocco Mazzella (guitarra), Mike Kost (baixo) e Mark Hopkins (bateria) completavam o line-up responsável pelo play de estreia, gravado e lançado no mesmo ano pela Wolfe Records. A bolacha, quase impossível de se encontrar nos dias de hoje, rendeu ao grupo nada mais que alguns elogios. Insatisfeito, Gordon desmanchou a banda para repensá-la musicalmente.

O Tangier voltou à ativa oficialmente quatro anos mais tarde, tocando hard rock com veia blueseira sob a tutela de Doug e Bill, com Gari Saint (guitarra), Garry Nutt (baixo) e Jim Drnec (bateria, ex-Cinderella), e foi o primeiro grupo da então renovada Atco Records. Pela gravadora, lançaram Four Winds, produzido pelo recém-falecido Andy Johns e emplacaram dois singles nas paradas: “On the Line” (posição 67 no Hot 100) e “Southbound Train”. O sucesso os levou direto para a estrada, onde abriram para um Cinderella fumegante em meio a turnê do álbum Long Cold Winter.

Como se não bastasse ter recomeçado do zero uma vez, de volta para casa, o Tangier sofreu as baixas de Mattson e Saint. Mike LeCompt assumiu os vocais do grupo que seguiu em frente como um quarteto.

Stranded saiu em 1991 também pela Atco e teve sua faixa-título como música de trabalho (sim, é a Pamela Anderson no clipe), mas fracassou na tentativa de repetir o sucesso de seu antecessor – e olha que a banda estava mais afiada do que nunca! Depois de algum tempo promovendo Stranded ao vivo, e vendo o Cinderella alçar voos cada vez mais altos, o Tangier foi colocado em ponto morto por seu fundador.

LeCompt e Nutt permanecem vivos no meio musical. O vocalista lidera a banda que leva o seu nome e faz shows regularmente em sua cidade natal. Já o baixista tocou com uma porrada de gente, dentre os quais cabe destacar Mike Tramp, Jean Beauvoir e o próprio Cinderella. O site oficial do Tangier (www.tangierband.com) entrou no ar há pouco mais de um mês com a promessa de tornar possível adquirir Four Winds e Stranded direto da banda. Mas será que desse mato sai coelho?

Porta-malas: Princess Pang

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O destino colocou a vocalista Jeni Foster e o baixista sueco Ronnie Roze frente a frente no Ano-Novo de 1985, em Manhattan. O interesse em comum pelo rock n’ roll (e provavelmente alguns martínis) os levou a prometerem um ao outro que formariam uma banda num futuro próximo. Quando chegou a hora de voltar para casa, Roze levou Foster junto. Chegando na Suécia, conheceram o guitarrista Andy Tjernon, e com ele fundaram oficialmente o Princess Pang.

A dificuldade para encontrar um baterista que se encaixasse à proposta do grupo levou o trio a tentar a sorte com Brian Keats, do Angels in Vain, da cena de Nova York. Keats só se tornaria um membro do Pang quando Foster e os outros se mudaram de vez para os Estados Unidos. Em solo americano, encontraram no guitarrista Jay Lewis o ingrediente que faltava. O quinteto assinou com a Metal Blade logo em seguida.

O full-length de estreia veio a público em 1989 e rebocou a banda direto para a estrada para excursionarem ao lado de Ace Frehley, Mr. Big e Wolfsbane. “Trouble in Paradise” e “Find My Heart a Home” ganharam videoclipes na programação da MTV e “South St. Kids” teve lá seus dias de glória nas rádios, mas a verdade é que o LP vendeu tão mal que Jeni pulou fora assim que o grupo regressou da turnê.

Após dias de sobrevida à procura de uma substituta, o Princess Pang foi desativado por seus remanescentes. Quem se deu menos pior com a separação foi Roze, que atualmente integra o pouco divulgado Stockholm Showdown. E quem tiver notícias de Jeni, favor entrar em contato – aposto que continua uma tremenda gata, mesmo 20 anos depois.

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Porta-malas: Arc Angels

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Eis aqui uma banda que, apesar de só ter gravado um único álbum, segue na ativa, se apresentando de tempos em tempos, tocando as mesmas velhas canções, além de standards do rock e do blues. Estou falando do Arc Angels, grupo que deu os primeiros passos em 1990, logo após a morte de um deus.

Dois anos haviam se passado desde o acidente que matou Stevie Ray Vaughan quando o baixista Tommy Shannon e o baterista Chris “Whipper” Layton, que acompanhavam Vaughan sob a alcunha de Double Trouble, reapareceram na mídia a bordo de um novo projeto. Ao lado de dois guitarristas/vocalistas em início de carreira (ou quase isso): Charlie Sexton e Doyle Bramhall II.

Charlie Sexton já havia lançado dois álbuns – o primeiro deles, Pictures for Pleasure (1985), saiu quando o músico tinha apenas 16 anos – e já sabia como era ter uma música tocada em exaustão pelas rádios graças ao sucesso de “Beat’s So Lonely”, seu primeiro e único hit. Bramhall, por sua vez, ainda que rebento de uma família de forte tradição musical (seu pai foi parceiro de composição de SRV) não fazia ideia de como as coisas aconteciam no showbizz.

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O autointitulado álbum do quarteto que tão bem define o conceito de choque de gerações saiu no dia 14 de abril de 1992. Produzido por Steven Van Zandt (o Miami Steve da E-Street Band de Bruce Springsteen), foi aclamado pela crítica e tornou-se o disco de blues rock mais popular do início daquela década, chegando ao 127º lugar na Billboard. Foram três as músicas de trabalho, com destaque para “Living in a Dream”, primeira a ganhar videoclipe e escolhida para ser tocada ao vivo na primeira participação do quarteto no programa de David Letterman.

A coisa começou a desandar quando o vício de Bramhall em heroína atingiu níveis extremos. Sem pensar duas vezes, Sexton e os outros decidiram pelo encerramento das atividades. Era outubro de 1993 quando o Arc Angels subiu ao palco pela última vez… até 2002. E não pararam mais desde então. Um DVD ao vivo foi lançado (sem Shannon), mas disco novo que é bom, não sai do papel.

Doyle Bramhall II, lançou alguns discos à frente do Smokestack e assumiu a guitarra base na banda de Eric Clapton de 2004 a 2009. Charlie Sexton especializou-se em produção e sua principal atividade como músico é integrar o conjunto de Bob Dylan. O Double Trouble segue tocando e lançando álbuns (um deles, Been a Long Time, conta com a produção de Sexton).

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Porta-malas: Airkraft

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Se eu pedir para você citar um artista ou uma banda de renome oriundo(a) do estado norte-americano de Wisconsin, você provavelmente vai mencionar o ilustre Les Paul, inventor do modelo de guitarra que leva o seu nome… e só. De fato, o estado das Pontes de Madison não possui tanta tradição musical. Em se tratando de rock n roll então, pode-se contar nos dedos os conjuntos que tiveram seu momento na cena estadunidense. Eis aqui um deles… e olha que o seu momento não foi nem grande coisa.

A história do Airkraft teve início em 1982, quando os então colegas de colégio Mitch Viegut e Dave Saindon, ambos guitarristas e vocalistas, resolveram montar uma banda. A primeira formação incluía o tecladista Dave Roll, o baixista Peter Phippen e o baterista Mike Wood. Ainda naquele ano, o single “Alien Probe” seria lançado e tomaria de assalto as rádios locais. O Airkraft rapidamente tornou-se a banda preferida das high schools, enquanto que Journey e Foreigner, segundo um famoso locutor da época, dividiam a preferência dos universitários.

A repercussão de “Alien Probe” abriu as portas para a gravação do full-length Let’s Take Off, lançado em 1983. “Can’t Run Away From Love” e “It’s Not So Easy” foram lançadas em compactos de 45 rotações, mas um novo hit só viria dois anos mais tarde, com “Make Believe”, carro-chefe de Proximity, segundo álbum do grupo. A canção atingiu o primeiro lugar nas rádios do Wisconsin. “Radio Rock” e “Never Too Late” (leftover de Proximity) tentaram repetir o feito, mas fracassaram. A banda sai em uma extensa turnê de mais de 300 shows pelo meio-oeste.

O terceiro trabalho, batizado apenas com o nome do grupo, chegou às lojas em LP e CD em 1987. A sonoridade do quinteto começava a ganhar contornos ainda mais radiofônicos, o que arregimentou toda uma nova safra de fãs. O single “Footsteps” recebeu duras críticas, mas as turnês continuaram acontecendo. Aliás, em seus 13 anos de existência, o Airkraft poucas vezes soube o que eram férias – ou a banda estava na estrada, ou estava em estúdio.

Em 1990/1991, o grupo assinou com a CURB/Capitol Records e ventos favoráveis os levaram a gravar a sua obra-prima com garantia de distribuição a nível mundial. Produzido por Roger Probert (mais conhecido por seus trabalhos junto ao Fates Warning), In The Red inclui uma versão tiro e queda para “Someday You’ll Come Runnin'” dos ingleses do FM, além de “Heaven” (escrita em parceria com Stan Bush – diga este nome perto de um fã de AOR e observe a reação dele) e “Feed Me to the Fire”, que foi tema do seriado Fire Rescue da FOX.

Apesar de In The Red ter vendido relativamente bem tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, o nível de exigência quando vem de uma gravadora grande é outro. O momento também não era dos melhores para as bandas remanescentes do hard rock da década de 1980. Quando o talento mostrou não ser o bastante e sem nunca ter feito um show sequer fora dos Estados Unidos, o Airkraft saiu de cena com direito a show de despedida abrindo para o Cheap Trick.

Mitch Viegut passou a dedicar parte de seu tempo produzindo e compondo para terceiros, e desde 2002 contribui com o grupo Johnny and the Motones e se apresenta ao lado do pianista de jazz John Altenburgh. Mas sua principal fonte de renda provem de investimentos em imóveis, atividade iniciada em 1991, meio que já prevendo que continuar apostando no AOR era a maior furada. Peter Phippen trocou o baixo pela flauta e o rock pela world music, e chegou até a ser indicado ao Grammy em 2010 por seu álbum Woodnotes Wyld. O som é um saco, mas garante o leite das crianças… e uma vida pra lá de luxuosa.

O ano de 2003 testemunhou o lançamento da coletânea Best of Airkraft, que vale o investimento por conter “Broken Ships”, música inédita desenterrada especialmente para extrair um qualquer das carteiras dos fãs que, acreditem, ainda sonham com a volta da banda.

Porta-malas: Alleycat Scratch

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Tá aí uma banda que apesar de não ter ido muito longe é influência vital para toda uma leva que surgiu nos anos seguintes. Tanto no visual quanto na música, o Alleycat Scratch incorporava todos os clichês do contemporâneo sleaze. Eles podiam nem saber – e nem tinham como saber na época -, mas sua proposta de som e atitude seria recauchutada com tempero escandinavo e conquistaria um espaço relevante na mídia roqueira atual.

Tudo começou em 1989, pelas mãos de Devin Lovelace (guitarra), Boa (baixo) e Robbi Black (bateria). O trio uniu forças com Tommy Haight (vocal) e Justin Sayne (guitarra) dando origem ao Alleycat Scratch. Com esta formação, gravaram a demo Cheap City Thrills e resolveram trocar São Francisco por Los Angeles.

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Primeira formação, com Haight e Sayne.

Chegando lá, Haight foi chutado para a entrada de Eddie Robison, da banda rival Resurrection Mary, e foi a partir daí que o Alleycat adquiriu a imagem pela qual ficou mais conhecido. Justin Sayne pediu as contas e com quatro integrantes, o grupo gravaria seu disco definitivo.

Deadboys in Trash City viu a luz do dia em 1993 por meio do selo independente Kick Your Cat Records. O lançamento foi seguido por performances nos lendários Troubadour e Whisky. No mesmo ano, a canção “Love Song” seria incluída na trilha sonora do pornô Backdoor to the City of Sin, estrelado pela lenda dos filmes adultos, Rocco Siffredi.

Apesar de os tempos serem outros na indústria musical, ficou no ar a promessa de um contrato com a Warner Bros, que levaria o Alleycat a excursionar pela Europa. Como nada disso se confirmou, a banda decidiu encerrar suas atividades.

O último registro em áudio que se tem notícia é uma demo de quatro músicas gravada após a conclusão de Deadboys. Esse material seria lançado em 2006 sob a alcunha de Last Call, com uma porção de faixas gravadas ao vivo e um DVD com mais de 120 minutos de shows e cenas de backstage. Deadboys seria relançado no mesmo ano, com duas músicas a mais (incluindo “Love Song”) e DVD com performance no Troubadour.

Sabe-se que Boa (ou Robert Dias) é quem administra o espólio do Alleycat e quase toda informação sobre o grupo disponível na rede é proveniente daquilo que escreve. Falta apenas ele revelar por onde andam Eddie e os outros.

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Porta-malas: Blackjack

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O sucesso é um negócio traiçoeiro e interessante. Muitas vezes, talentos natos acabam não o alcançando juntos. Mas ao se distanciarem, aparentemente perdendo força, é justamente quando a coisa começa a acontecer como era esperado. Foi assim que o destino atuou nas carreiras de Michael Bolton (aqui ainda usando seu sobrenome de batismo, Bolotin) e Bruce Kulick, que antes de conquistarem a fama, fizeram dois grandes discos – que passaram despercebidos pelo grande público – com o Blackjack. Uma pena, pois o som da banda tem tudo para agradar os fãs de um Hard/Classic Rock setentista, remetendo a nomes como o Whitesnake da primeira fase, a sem laquê.

Michael já possuía experiência profissional, tendo gravado dois trabalhos solo para a RCA Records. Ambos contavam com repertório mais voltado para o R&B. Já Bruce tinha participado – junto a seu irmão, Bob – da banda de apoio de Meat Loaf durante a tour do clássico Bat Out of Hell. Completam o grupo o baixista Jimmy Haslip (Tommy Bolin, Allan Holdsworth, Al Jarreau) e o baterista Sandy Gennaro (Joan Jett, Pat Travers Band). Os teclados foram gravados pelo músico contratado Jan Mullaney. A Polydor, gravadora do quarteto, deu grande suporte, divulgando-os como a próxima grande banda da cena. Não vingaram, mas incentivo não faltou.

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O disco de estreia é uma verdadeira aula no estilo, com dez ótimas faixas, feitas sob medida para agradar os rockers de todas as gerações. A empolgante “Love Me Tonight” já dá uma mostra do que espera o ouvinte. Em “Heart of Stone”, Michael parece incorporar o David Coverdale do começo de carreira, assim como em “Southern Ballad”, música de título autoexplicativo, capaz de emocionar até mesmo o mais troo dos troos. A pegada Hard volta a tomar conta em “Fallin’”, que assim como “I’m Aware of Your Love” (com seu refrão simples e cativante) conta com backing vocals femininos que se encaixam de maneira perfeita.

Apesar da recepção morna, o grupo voltou para o estúdio e registrou aquele que seria seu derradeiro álbum. Apesar do desempenho nas paradas ter sido ainda mais fraco, Worlds Apart não deixa de trazer momentos memoráveis. A abertura com “My World is Empty Without You” traz um Bolton ainda mais inspirado, cantando com a alma. “Love is Hard to Find” já indicava a aproximação ao AOR que o cantor faria no começo de sua carreira-solo. Já “Welcome to the World” é a mais pesada que o Blackjack fez em sua curta existência, lembrando Uriah Heep e com Bruce mostrando toda sua desenvoltura nas seis cordas. “Really Wanna Know” também merece ser citada, com uma levada irresistível. Mas nem isso foi o suficiente para evitar o fracasso comercial.

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Após a dissolução da banda, Michael Bolton partiu para uma bem-sucedida empreitada própria, especialmente quando resolveu aderir à música romântica para tiozões e tiazonas que gostam de dançar de rosto colado em um salão à meia-luz fedendo a cigarro. Bruce Kulick o acompanhou no início, mas logo se juntaria ao KISS, onde encontraria glória e grana. Jimmy Haslip entrou para a história ao fundar o Yellowjackets, grupo considerado um dos pioneiros do Fusion. Sandy Genaro seguiu sua carreira como músico de apoio. Atualmente, os discos estão fora de catálogo, mas já foram lançados juntos em edição única em duas oportunidades diferentes, uma pela própria Polygram em 1990 e outra em 2006 pela Lemon Records.

Apesar de não ter alcançado a fama, o Blackjack merece muito mais que uma simples escutada dos adeptos do Rock and Roll de verdade. É colocar pra rolar e se apaixonar instantaneamente. E lamentar que Bolton tenha preferido virar o novo Agnaldo Timóteo ao invés de um Coverdale.

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Porta-malas: Cacophony

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Responsável por alavancar a carreira de muita gente nos anos 1980, a Shrapnel Records de Mike Varney já contou com um elenco de dar inveja. Incontáveis deuses da guitarra deram suas primeiras fritadas em bolachas que levavam o emblema do tanque de guerra no verso. Entre os prodígios que decolaram graças à Shrapnel estão dois bem conhecidos da galera: Marty Friedman e Jason Becker.

Em 1986, Friedman e Becker formaram o Cacophony, um supergrupo que atendia à proposta da gravadora para a qual trabalhavam: virtuose sem limites, do tipo que faria qualquer iniciante em guitarra sentir vontade de abandonar o instrumento. Peter Marrino (vocal), Atma Anur (bateria) e Jimmy O’Shea (baixo) completavam o time. A estreia em disco veio no ano seguinte com Speed Metal Symphony, apontado em 2009 como o nono melhor álbum de shred guitar (aka bululu) pela revista Guitar World.

O segundo lançamento veio em 1988 com Friedman e Becker (já maior de idade) assinando a produção. Em Go Off! o Cacophony ganhou mais cara de banda e, consequentemente, desagradou a molecada que curtia mesmo aquele monte de solos frenéticos. O monstro Deen Castronovo tocou a bateria. De qualquer forma, o grupo seria desmanchado pouco tempo depois.

Friedman e Becker continuariam sendo parceiros e fazendo participações um no disco do outro: Becker contribui em duas faixas (“Saturation Point” e “Jewel”) do Dragon’s Kiss de Friedman enquanto este contribui em outras duas (“Temple of the Absurd” e “Eleven Blue Egyptians”) de Perpetual Burn. Ambos os discos foram lançados em 1988. Aí cada um seguiu seu caminho: Friedman fez história no Megadeth e Becker levou uma rasteira do destino, sendo diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica quando estava no auge integrando a banda de David Lee Roth.

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Porta-malas: Seduce

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Detroit, Michigan, 1980. Mark Andrews (vocal, baixo) e David Black (guitarra) integravam um grupo chamado Sparks quando conheceram o baterista Chuck Burns através de amigos em comum. Todos os três tinham 19 anos quando deram vida ao Seduce.

Em tempos de glamour e hard rock pra tocar no rádio, o Seduce nadou contra a corrente, apostando numa sonoridade de guitarras ásperas e baixo no talo, quase que num duelo com a voz. Isto, combinado ao visual carregado, garantiu ao Seduce uma boa reputação na cena da Motor City. Suas apresentações nos clubs locais eram quase sempre lotadas; no repertório, além de músicas próprias, covers que iam desde Monkees e Jimi Hendrix até Deep Purple e Black Sabbath. Em seus primórdios, abriram shows de Accept, Saxon e Girlschool.

A primeira demo que se tem notícia data de 1984, um ano antes de o trio fazer sua estreia oficial em disco. A bolacha autointitulada, gravada nas coxas e 100% financiada pela banda chamou a atenção de muita gente, inclusive de Miles Copeland, irmão do baterista do The Police, Stewart Copeland, e dono da I.R.S. Records que, na época, faturava alguns milhões tendo o R.E.M. como principal artista. O contrato foi assinado em 1986 e Too Much Ain’t Enough veria a luz do dia dois anos mais tarde.

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Numa entrevista ao Detroit Metro Times realizada em dezembro de 2010, Burns mostra certo descontentamento em relação ao álbum: “Para gravar este disco, nós voamos até Reno, ficamos hospedados num hotel de merda, o estúdio era uma merda, a bateria alugada que eu usei era uma merda e havia muita gente dando palpite, o que também era ume merda.” Too Much Ain’t Enough custou uma pequena fortuna para ser realizado, mas como a I.R.S. não estava inserida no contexto das hairbands, a promoção foi fraca e as vendas não ultrapassaram a marca das 25 mil cópias.

Em sequência ao lançamento de Too Much Ain’t Enough, o Seduce embarcou em uma breve turnê como banda de abertura do Vinnie Vincent Invasion, que havia acabado de lançar All Systems Go e possuía um single, “Love Kills”, entre as mais pedidas. No mesmo ano de 1988, o documentário The Decline of Western Civilization Part II: The Metal Years apontou o Seduce como a maior banda de Detroit… e, de fato, era mesmo. O trio saiu em turnê também com Iggy Pop, que os apadrinhou durante um tempo.

Foram duas as músicas de trabalho, “Watchin'” e “Anytime Or Place”, mas nenhuma delas obteve mais do que sucesso local. Relocar-se para Los Angeles era o que restava fazer, mas a I.R.S. pulou fora esgotando todas as possibilidades. A era metal era um navio que naufragava lentamente, e os grandes nomes já haviam partido nos poucos botes salva-vidas disponíveis.

Apesar de não ter mais gravado discos, o Seduce segue vivo, movido apenas pela paixão que seus integrantes sentem em tocar juntos. Uma vez por ano, Andrews, Black e Burns se reúnem para uma série de shows em sua cidade natal, acompanhados de perto e com um entusiasmo oitentista pelos fãs do tipo die-hard. Às vezes viver de passado pode ser uma boa.

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Porta-malas: War Babies

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Eis aqui uma prova de que nem tudo que vinha de Seattle no final dos anos 1980 e início de 1990 cheirava a grunge – apesar de o som, de alguma maneira, incorporar alguns elementos-chave do gênero. O War Babies tomou forma em 1988 quando os ex-TKO Brad Sinsel (vocal) e Tommy “Gun” McMullin (guitarra), que tiveram seus dias de Alice in Chains, Mother Love Bone e Soundgarden, resolveram que era hora de encabeçar um novo projeto. Richard Stuverd (bateria, ex-The Fastbacks), Guy Lacey (guitarra, em substituição) e Shawn Trotter (baixo) completavam o line-up que entrou em estúdio para registrar o único álbum do quinteto.

O álbum autointitulado só veria a luz do dia em 1992 por conta da política da Columbia em não lançar nada que pudesse concorrer em vendas com Michael Jackson (!). Anos mais tarde veio à tona que a intenção do selo, na verdade, era “roubar” o Aerosmith da Geffen. Não conseguindo, depois de quase um ano tentando, o War Babies foi lançado como a resposta da Columbia para o Aerosmith. Mais louco que isso, só Bill Gazzarri dizendo que o Odin seria maior que o Van Halen.

A primeira música de trabalho foi “Hang Me Up”, coescrita por ninguém menos que Paul Stanley que, deixando de lado o fato de ser Deus, não é lembrado com muito apreço por Brian Sinsel. Em entrevista concedida ao Full In Bloom Music, o vocalista o quão traumático foi o convívio fugaz que teve com o Starchild: “Não nos demos muito bem. Paul era rude e desrespeitoso em muitos sentidos. Quando mostrei o material que estava escrevendo, sua reação foi um silêncio fúnebre”. O nome de Paul saiu nos créditos do álbum.

Depois de “Hang Me Up” foram lançadas “Blue Tomorrow” (uma ode à Andrew Wood, do Mother Love Bone, que era amigo de Sinsel e McMullin) e uma power ballad, “Cry Yourself to Sleep.

A coisa começou a desandar ainda nas primeiras semanas de divulgação do álbum. Há de se convir que lançar um disco de hard rock em 1992 era mais arriscado que transar em cabaré sem camisinha. A profecia se confirmou com o fim das atividades após pouquíssimas apresentações ao vivo, quase todas, no circuito de barzinhos e casas noturnas de Seattle.

Cada bebê seguiu seu caminho. Sinsel lidera o American Standard, McMullin formou o Dead Letters para depois migrar para o Gunn and Damage Done; Lacey e Trotter estão atualmente divididos entre o 8 Days in Jail e o Sledgeback e Stuvenrud, depois de rodar por um punhado de bandas locais, aterrissou no Three Fish de Jeff Ament, do Pearl Jam.

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