Cabeçote: E se Kurt Cobain ainda estivesse vivo?

Kurt Cobain, frontman do Nirvana, faria 50 anos nesta segunda-feira (20). Sua trajetória foi interrompida de forma brusca quando ele tinha apenas 27 anos: em 5 de abril de 1994, ele se matou com um tiro de espingarda.

Percebo que não há, exatamente, uma boa vontade em reconhecer o legado de Kurt Cobain por parte do público fã de rock. Esse sentimento aumenta quando falo daqueles ligados a gêneros como o hard rock e o metal, considerados mais “tradicionais”.

A rejeição é, de certa forma, natural. O Nirvana é creditado não só por ter capitaneado a explosão comercial do grunge, no início da década de 1990, como, também, por ter “matado” o segmento oitentista do hard rock e algumas ramificações do heavy metal. Já compactuei deste sentimento.

Contudo, tal atribuição é injusta. No mesmo ano em que “Nevermind” (1991) foi lançado, o “Black Album”, do Metallica, fez um enorme sucesso, o Guns N’ Roses seguiu sua trajetória de êxito com a turnê de “Use Your Illusion” e o Skid Row alçava voos ainda maiores com “Slave To The Grind”. Em 1992, trabalhos lendários como “Vulgar Dispaly Of Power” (Pantera), “Countdown To Extinction” (Megadeth) e “Keep The Faith” (Bon Jovi) chegavam a público.

Kurt Cobain liderou um movimento que, como todos os outros existentes na música, foi cíclico. Os distintos excessos da década de 1980 foram substituídos por certo minimalismo nos anos 1990. É desonesto enxergar o grunge como algo alheio à música: o hard rock presente no som do Pearl Jam e do Soundgarden, as influências metal do Alice In Chains e a sonoridade punk a-la Stooges do Nirvana mostram que o segmento não surgiu do nada. E isto só citando as quatro bandas mais famosas.

Reflexões a parte, como seria se Kurt Cobain não tivesse decidido acabar com sua própria vida em 5 de abril de 1994? E se ele ainda estivesse vivo para completar o seu 50° aniversário?

Trata-se, obviamente, de exercício de imaginação. Não só porque substitui o que realmente aconteceu, mas também porque, mesmo se excluíssemos o fato de 5 de abril de 1994, é quase impossível imaginar em Kurt Cobain vivo em 2017. Ele teria cometido suicídio ou falecido sob outras circunstâncias nos anos seguintes.

Quem teve a oportunidade de ler um pouco sobre Kurt Cobain, sabe que o músico teve uma adolescência problemática. O problema teve início quando seus pais se divorciaram quando ele tinha apenas 9 anos. Na sequência, o futuro rockstar não soube lidar com suas novas “famílias”: o pai se casou com outra mulher e teve um filho mais novo, de quem Kurt sentia ciúmes. Já a mãe começou a namorar um homem que abusava dela. A violência doméstica rolava na frente de Kurt.

A partir de sua adolescência, Kurt Cobain foi visto como um degenerado por onde passava. Não conseguiu se graduar no colégio e acabou expulso de casa por sua mãe. Chegou a morar debaixo de uma ponte.

O cenário estimulou a construção de um sujeito degenerado, com problemas psicológicos que nunca foram tratados – pelo contrário, foram potencializados com a fama. O vício em drogas e o comportamento errático se tornaram as marcas de Cobain até o fim de sua vida.

Ainda assim, como mero exercício de imaginação, vale imaginar o que teria acontecido se Kurt Cobain conseguisse sobreviver. Para que Cobain continuasse vivo, muitas coisas teriam que mudar, inclusive dentro dele próprio. O Kurt porra-louca já não poderia existir mais em determinado momento a partir da segunda metade da década de 1990.

Não dá para imaginar, por exemplo, o Nirvana com uma sobrevida sem o Kurt porra-louca. A sinceridade é o principal charme das músicas de Cobain, que nunca foi um instrumentista técnico ou um letrista de autorias complexas. Quando ele deixasse de ter experiências intensas para retratar em suas canções, o que restaria?

Há quem especule que ele poderia acabar brigado com Dave Grohl. Duvido muito, mas, sem dúvidas, Grohl não ficaria no Nirvana por muito tempo. O desejo de Dave em capitanear um projeto com suas próprias composições já era explícito desde os tempos ao lado de Kurt.

Por tudo isto, não imagino o Nirvana como um projeto duradouro a longo prazo, mesmo se Kurt Cobain ainda estivesse vivo. Creio que Kurt se envolveria com trabalhos de teor mais experimental. Basicamente, seria impulsionado por grupos que ele mesmo influenciou, como o Radiohead.

Sem o devido tratamento clínico, Kurt Cobain jamais seria capaz de aceitar o sucesso. Isto afetaria a sua produtividade e o tornaria, inevitavelmente, recluso. Turnês gigantescas e lançamentos pomposos não fariam parte da rotina de Cobain.

Ainda assim, creio que Kurt Cobain permaneceria como alguém relevante na música. Teria um destino próximo ao de Lou Reed em seus últimos anos. Mas deve-se considerar: é tudo exercício de imaginação. Definitivamente, Kurt não estaria vivo hoje se continuasse da forma em que se encontrava na década de 1990.

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Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: O melhor e o pior relacionado ao rock no Grammy 2017

Aconteceu, no último domingo (12), a 59ª cerimônia do Grammy Awards, premiação que é considerada a mais importante da música. O rock ocupa papel secundário no evento, é verdade, mas houve o que comentar com relação ao gênero musical em questão.

Neste ano, a Recording Academy, que promove o Grammy Awards, corrigiu alguns erros históricos com dois nomes de impacto no rock. Um deles é, inclusive, ligado ao metal.

O primeiro foi David Bowie. Falecido em 2016, o músico foi homenageado ao ganhar cinco prêmios, nas categorias “Melhor performance de rock”, “Melhor música de rock”, “Melhor disco de música alternativa”, “Melhor pacote de gravação” e “Melhor produção de disco não-clássico”. Os últimos dois são compartilhados com outros profissionais.

É verdade que o reconhecimento a David Bowie foi justo, tanto pelo disco “Blackstar” quanto pela música que dá nome ao álbum. Mas precisava esperar tanto tempo para reconhecer um dos maiores nomes da música contemporânea? Eu acho que não.

Digo isto porque, até então, David Bowie só tinha um Grammy, de “Melhor videoclipe”, por “Jazzin’ for Blue Jean”, conquistado na década de 1980. E o agravante é que esta não é uma categoria especificamente musical.

É sintomático: espera-se o artista morrer para que ele receba o seu devido valor. Isto acontece não só em premiações, mas com reconhecimento por parte da imprensa e de alguns segmentos do público.

O segundo erro histórico corrigido foi com o Megadeth. Após 12 indicações e nenhuma vitória, a banda de Dave Mustaine conquistou, enfim, o Grammy de “Melhor performance metal”, categoria pela qual havia disputado por nove vezes anteriormente. A música “Dystopia” foi a premiada.

Também é um momento justo para reconhecer o Megadeth. O grupo tem conseguido se manter relevante e o álbum “Dystopia” mostra isto muito bem. A entrada do guitarrista Kiko Loureiro deu sangue novo à banda e Dave Mustaine – que, além de frontman, é o principal compositor – parece ser criativamente insaciável, pois raramente decepciona em seus lançamentos.

Como no caso de David Bowie, o reconhecimento ao Megadeth também poderia ter vindo antes, em especial, durante sua fase considerada mais “clássica”, na década de 1990. As várias indicações sem prêmios acabaram por virar motivo de chacota com o tempo.

Ainda sobre Megadeth, vale a pena relembrar a gafe cometida pela organização do Grammy. Quando a banda foi anunciada como vencedora da categoria “Melhor performance metal”, começou a rolar a música “Master Of Puppets”, do Metallica.

Por mais que Dave Mustaine não pareça mais ter sentimentos negativos relacionados ao Metallica, a situação também virou motivo de piada nas redes sociais. Faltou cuidado, mas essa cautela não parece existir durante todo o tempo: de forma aleatória, um dos prêmios de David Bowie foi anunciado ao som de The Who. Duvido que falariam o nome de Katy Perry ao som de Taylor Swift ou vice-versa.

O prêmio de “Melhor disco de rock” foi conquistado por “Tell Me I’m Pretty”, do Cage The Elephant. Um trabalho que mal obteve repercussão em seu próprio segmento foi agraciado com a honraria e deixou bons registros, como “Magma” (Gojira) e “California” (Blink-182), para trás. Um pouco estranho.

O prêmio direcionado a “Eight Days A Week The Touring Years”, documentário sobre a época em que os Beatles faziam turnês, foi uma surpresa. O registro superou “Lemonade”, de Beyoncé, e foi reconhecido na categoria “Melhor filme musical”.

O único show com menção direta ao rock – e, neste caso, também o metal – foi, em meu ver, um desastre. Metallica e Lady Gaga se juntaram para tocar a música “Moth Into Flame”.

Praticamente nada deu certo. O microfone de James Hetfield não funcionou por metade da apresentação e, aparentemente, havia um problema de retorno em cima do palco, pois faltou sincronia entre as guitarras de Hetfield e Kirk Hammett em parte da performance.

Lady Gaga, por sua vez, forçou a barra e acabou ficando deslocada. Além dos vocais exagerados, das opções equivocadas de tonalidade e do rebolado deslocado, a performance geral de Gaga reforçou o estereótipo de “metaleiro doidão”, que passa o show inteiro se contorcendo sem a menor consonância com a música que rola nas caixas de som. Por ser a artista fenomenal que é, poderia ter preparado algo melhor.

Outras duas performances fizeram menção indireta ao rock: as homenagens a George Michael e Prince, que são artistas considerados pop, mas flertaram com o estilo em diversas ocasiões.

A homenagem a George Michael, morto em dezembro de 2016, foi uma catástrofe. Enquanto cantava “Fastlove”, Adele se perdeu em tonalidade e até ritmo. Precisou pedir para começar de novo e, ainda assim, a situação não melhorou muito.

A própria opção por tal performance soou um pouco equivocada. Parecia um velório. Havia uma melancolia excessiva, que contrastava com as imagens felizes do sempre empolgado George Michael ao fundo do palco. Até isto deve ter afetado Adele psicologicamente, pois a cantora estava visivelmente emocionada.

Já o tributo que The Time, Morris Day e Bruno Mars fizeram a Prince foi adequado à proposta do artista, morto em abril de 2016. Houve maior preparo e até tempo para que a homenagem fosse feita – quase dez minutos divididos entre as duas performances.

Inicialmente, The Time e Morris Day tocaram “Jungle Love” e “The Bird”, em uma apresentação sem defeitos. Bruno Mars elevou o patamar ao aparecer vestido de Prince e com a guitarra signature do falecido músico. Com sua banda, tocou “Let’s Get Crazy” e ainda arriscou solos de guitarra.

No geral, em comparação a outros anos, o Grammy de 2017 deu maior destaque ao rock. Só é incrível pensar que tantas gafes e situações curiosas tenham ocorrido justamente quando o gênero estava em evidência.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Uma retrospectiva do bizarro ano de 2016 no rock/metal

A morte de Lemmy Kilmister em 28 de dezembro de 2015 parecia um presságio sobre o que viria no ano seguinte. E, realmente, foi um anúncio prévio: 2016 foi estranho. Para o bem e para o mal.

Mal nos recuperamos da ida de Lemmy e outra morte de impacto nos pegou de surpresa: o falecimento de David Bowie, em 10 de janeiro. Ele se foi aos 69 anos, vítima de um câncer de fígado, dois dias após lançar seu 25° disco de estúdio, “Blackstar”.

Dias antes, em 4 de janeiro, algo igualmente estranho, mas com teor positivo, foi anunciado publicamente: o retorno de Slash e Duff McKagan ao Guns N’ Roses. A situação se desenhava desde 2015 e os rumores da volta eram fortes, mas a informação só se concretizou em 2016.

Ainda em janeiro, no dia 22, ocorreu outro fato incrivelmente negativo: durante o Dimebash 2016, Phil Anselmo fez uma saudação nazista, com o braço direito erguido, e gritou “Poder branco”, como um membro do KKK. Ele tentou se justificar, mas só piorou: disse que estava sob influência de “vinho branco”. O texto mais acessado da coluna Cabeçote no ano falou, justamente, sobre o assunto (Leia: O heavy metal não é apenas racista, é intolerante no geral).

No mesmo dia do gesto racista de Phil Anselmo, era lançado “Dystopia”, o primeiro disco do Megadeth com Kiko Loureiro nas guitarras. A entrada de Kiko à banda também foi algo inusitado. Não por seu talento, mas pela ocasião, visto que músicos brasileiros raramente conseguem um destaque internacional tão considerável quanto ele conseguiu. E Loureiro fez bonito: “Dystopia” é um dos grandes álbuns do ano.

Janeiro se fechou com outro falecimento: Jimmy Bain, que estava com a banda Last In Line, se foi em 23 de janeiro, aos 68 anos, durante o cruzeiro do Def Leppard. A causa da morte foi um câncer no pulmão até então desconhecido.

Fevereiro foi um mês mais calmo, mas março veio com força, com a informação de que Brian Johnson estava com sérios problemas de audição. O cantor poderia ficar surdo caso continuasse a turnê de “Rock Or Bust” com o AC/DC. Ele acabou sendo afastado pelo grupo e substituído por Axl Rose nas datas remanescentes. O futuro da banda ainda é indefinido.

O tecladista Keith Emerson também morreu em março, mais especificamente no dia 11, aos 71 anos. Descobriu-se, posteriormente, que o músico havia cometido suicídio. Ele também sofria de problemas cardíacos e depressão associada ao alcoolismo. As questões emocionais de Emerson estavam diretamente relacionados à sua saúde física: lesões nos nervos o impediam de tocar em plena forma, o que o fez entrar em estado profundo de tristeza.

O obituário voltou a trabalhar com intensidade em abril, com a morte de Prince. Um dos grandes revolucionários da música pop, que flertou com o rock em distintos momentos de sua carreira, morreu no dia 21, aos 57 anos, vítima de uma overdose de opioides.

Ainda em abril, Axl Rose foi, enfim, oficializado no AC/DC, após semanas de especulação. Ele fez 23 shows com a banda, na Europa e nos Estados Unidos.

Em maio, Ozzy Osbourne ocupou os noticiários de fofoca. O motivo? O cantor terminou seu relacionamento com Sharon Osbourne, após traí-la com uma cabeleireira. Chegou a ser dado como desaparecido por um dia pela imprensa internacional, mas logo ressurgiu. Ao longo dos meses, reconciliou-se com a sua amada.

Outro assunto ligado a relacionamentos tomou os tabloides no fim de maio: Amber Heard acusou o ator e músico Johnny Depp de agredí-la física e verbalmente. O caso foi tratado paralelamente ao pedido de divórcio, entretanto, o casal chegou a um acordo – Heard recebeu US$ 7 milhões de Depp para dar fim à situação.

Ainda em maio, o obituário movimentou-se com a morte do baterista Nick Menza, aos 51 anos. Ele sofreu um ataque cardíaco durante um show de sua banda, OHM, em Los Angeles. Paul Di’Anno quase foi junto: o cantor foi hospitalizado e precisou cancelar uma turnê que faria no Brasil. Blaze Bayley, com quem Di’Anno excursionaria, disse que o colega estava com câncer no sistema linfático e problemas no joelho e nos quadris.

Junho foi o mês de alguns sustos. O principal foi a isquemia cerebral sofrida por Ian Paice. O músico foi rapidamente tratado e conseguiu se recuperar sem problemas. Joey Jordison revelou, também, que sua saída do Slipknot esteve relacionada a problemas de saúde. O caso ocorreu em 2013, mas só foi revelado ao público em 2016, no mês em questão. Ele sofreu com a mielite transversa, uma forma de esclerose múltipla.

Outro susto, já não relacionado (diretamente) à saúde, foi o fim do Aerosmith. Especulações alimentavam essa teoria, entretanto, foi em junho de 2016 que Steven Tyler afirmou que a banda acabaria – meses antes de uma turnê na América Latina, inclusive. A informação seguiu sem confirmação até novembro deste ano, quando uma turnê de despedida foi divulgada pelo grupo.

Ainda em junho, o Led Zeppelin venceu o julgamento sobre as acusações de plágio em “Stairway To Heaven”. Representantes da banda Spirit afirmavam que a banda havia roubado trechos da música “Taurus” para a lendária composição. O caso chegou ao tribunal, entretanto, Robert Plant e Jimmy Page, compositores da canção, venceram.

Julho, mês de férias escolares, também marcou um recesso nas bombas no mundo rock/metal. A volta do Temple of the Dog, com direito a shows sold-out, foi a informação daquele momento.

Em agosto, o Metallica foi divulgado como headliner do… Lollapalooza Brasil 2017. A atração pesada em um festival alternativo gerou reações mistas nas redes sociais, mas as camisas pretas vão acabar lotando o evento.

No mesmo mês, um holograma de Ronnie James Dio foi exibido durante o show do Dio Disciples, no Wacken Open Air. E o mais ridículo foi anunciado: a reprodução da imagem vai fazer uma turnê. Caça-níquel, não?

Setembro nos deu uma folga para duas polêmicas em outubro. A primeira ocorreu após uma declaração de Jonathan Davis, que afirmou que o Sepultura, em “Roots”, copiou o Korn. Os irmãos Cavalera, que antes reconheciam a “super-influência”, passaram a dizer, em entrevistas, que não era bem assim. Também em outubro, Bob Dylan foi nomeado para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Ele sequer compareceu à cerimônia.

Em novembro, chamaram a atenção a mega-turnê do Guns N’ Roses pelo Brasil, com Slash e Duff McKagan na formação e a reunião do Helloween, com Michael Kiske, Kai Hansen e os demais integrantes do grupo, cujo primeiro show será em São Paulo, no ano de 2017. O novo disco do Metallica, “Hardwired…To Self-Destruct” – o primeiro de inéditas desde “Death Magnetic”, de 2008 -, também conquistou as manchetes do segmento.

Dezembro ainda não acabou, mas trouxe alguns fatos-bomba. E o obituário se movimentou novamente, com o falecimento de Greg Lake, no dia 7, aos 69 anos. Ele sofria de um câncer não especificado. Resta-nos torcer para que Tony Iommi não tenha o mesmo destino tão cedo: ele luta contra um linfoma, mas, também neste mês, um caroço surgiu na garganta do guitarrista. Ele fará uma operação para removê-lo e ainda não se sabe se é cancerígeno ou não.

Neste mês, o Deep Purple anunciou a “The Long Goodbye Tour”, que promove o seu próximo disco, “inFinite”. O nome indica que esta será a última turnê do grupo, entretanto, a informação não foi confirmada oficialmente até o momento.

Se o Deep Purple sai de cena, o Skid Row volta à tona. Sebastian Bach revelou, em recente entrevista, que o retorno da banda com sua formação clássica está em negociação. Tão inesperado quanto o retorno do Guns N’ Roses – que aconteceu no inusitado 2016.

O ano ainda não acabou e temo que notícias inesperadas e tristes nos acometam até o dia 31. Todavia, falecimentos de músicos e despedidas de bandas mostram, mais uma vez, que os dinossauros do gênero estão indo. A “reposição” acontece em ritmo lento, graças a todos os envolvidos – grupos, engravatados e, principalmente, fãs. Independente disto, que 2017 seja um ano melhor.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: E se a formação clássica do Motörhead tivesse se reunido?

A formação clássica do Motörhead quase se reuniu nos anos 1990. Foi o que revelou o guitarrista “Fast” Eddie Clarke, em recente entrevista ao site EonMusic. Ele, Lemmy Kilmister e o baterista Phil “Philthy Animal” Taylor voltariam a tocar juntos no fim da década.

A ideia, segundo Clarke, era fazer algo diferente do que fazia a formação que seguia com Lemmy no momento, composta por Phil Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (bateria). “Não iríamos chatear a banda atual, faríamos talvez algo acústico, mas de um jeito diferente, ter uma orquestra feminina com suspensórios e meias-calças, algo assim”, afirmou.

Lemmy demonstrou interesse, mas não quis abrir mão da formação que o acompanhava. “Sentiu-se muito culpado”, conta o guitarrista.

Um exercício de imaginação é sempre válido nesses momentos: o que teria rolado se a formação clássica do Motörhead tivesse se reunido naquele período? Seria melhor? Pior? Difícil fazer projeções do tipo, mas dá para começar imaginando o que a banda não faria na época.

Entre o fim da década de 1990 e o início do século 21, o Motörhead fez alguns de seus discos mais “diferentes”. “Snake Bite Love”, de 1998, é um disco um pouco mais melódico e menos uptempo. Quase metade das faixas ultrapassa os quatro minutos de duração – algo pouco comum na discografia da banda. Destaque (negativo) para a a música “Night Side”, citada por Lemmy como a pior gravada pelo grupo até então.

Em contrapartida, dois anos depois, o grupo lançou “We Are Motörhead”, um de seus discos mais pesados e agressivos. E, na sequência, nova mudança: “Hammered”, de 2002, é menos metal e mais rock and roll. Trata-se, ainda, de um dos discos menos admirados pelo próprio Lemmy, por seus “altos e baixos”.

Os trabalhos futuros seguiram essa linha mais rock and roll, mas sempre com momentos um pouco distintos, como a ácida “God Was Never On Your Side” e a rústica “Whorehouse Blues”. Mesmo com regularidade, o Motörhead ainda surpreendeu após sua fase mais experimental.

Não consigo imaginar essa inventividade com “Fast” Eddie Clarke e, especialmente, com Phil “Philthy Animal” Taylor. Um retorno do Motörhead clássico garantiria uma volta às raízes com prazo de validade limitado.

Taylor chegou a ser demitido, em sua última passagem pelo Motörhead, porque não conseguiu aprender a tocar “I Ain’t No Nice Guy” a tempo da gravação. Clarke, por sua vez, saiu porque a banda optou por trabalhar com Wendy O. Williams. Dá para confiar?

Enquanto o Motörhead seguiu sem Clarke e Taylor, os próprios músicos não conseguiram fazer algo de muita relevância enquanto estiveram fora. “Philthy Animal” praticamente só existiu ao lado de Lemmy – não à toa, nunca superou o fato de ter sido substituído por Mikkey Dee. Já Eddie teve bons momentos com o Fastway, mas nada além disso.

Por sorte (e bom senso), Lemmy não teve coragem de enfrentar seus fiéis escudeiros. Phil Campbell e Mikkey Dee continuaram com ele até o dia de sua morte. Deram a estabilidade que o Motörhead precisava e pela qual o grupo ficou conhecido por novas gerações.

E, por mérito, o Motörhead conseguiu seguir sem ser atrapalhado por visões romantizadas a partir de sua formação clássica. Foi uma das poucas bandas no segmento que os fãs não imploraram por reuniões que sabíamos que dariam errado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Há 30 anos, perdíamos Cliff Burton

Morto em 27 de setembro de 1986, Cliff Burton segue, ainda hoje, como um dos baixistas mais influentes do heavy metal. Às vezes chega a ser endeusado de forma até exagerada. Já contestei esse tipo de opinião em um texto anterior desta coluna, mas tenho consciência de que isso acontece naturalmente com talentos que se vão cedo demais.

No entanto, o exagero por parte de alguns fãs, além de parte da “imprensa especializada”, não tira os méritos de Cliff Burton. Foi, sim, um dos grandes músicos do estilo.

No baixo, Cliff Burton foi um híbrido clinicamente calculado entre Lemmy Kilmister e Geezer Butler, com uma dose extra de conhecimento em teoria musical. Quando entrou no Metallica, era o músico mais experiente no cenário musical até então, pois havia integrado uma série de bandas na Califórnia.

(No vídeo acima, Cliff Burton com o Trauma, antes de entrar para o Metallica)

Vale destacar, inclusive, que o Metallica mudou o planejamento inicial de mudar-se para Los Angeles porque Cliff Burton não topou. Só faria parte do grupo se a mudança fosse para San Francisco. Os demais músicos fizeram questão de ter Burton na formação.

O resto é história – e com doses cavalares de contribuições de Cliff Burton, diga-se de passagem. A sonoridade do Metallica só começou a atingir um patamar mais elevado, no que diz respeito a sofisticação em melodias e arranjos, graças a Burton, que ensinou muito sobre teoria musical aos demais músicos antes das gravações de “Ride The Lightning”.

A morte de Cliff Burton não evitou que o Metallica se tornasse a maior banda de metal do mundo – e digo isto com base nos números, tanto de vendas de discos quanto de arrecadação em turnês. No entanto, de certo modo, o Metallica só se transformou na potência que hoje conhecemos porque Burton passou por ali e os demais músicos permitiram que ele realmente colaborasse.

Cliff Burton faleceu jovem demais. Tinha somente 24 anos. Sua morte foi traumática também para seus companheiros de banda, que eram ainda mais jovens que o baixista. Titubearam sobre dar sequência ou não ao Metallica. Ainda bem que continuaram. A cicatriz fica, mas a vida continua.

Como Cliff Burton ficou tão pouco tempo no Metallica, muitos fãs se divertem ao pensar como seria se Burton tivesse sobrevivido ao acidente e permanecido no grupo. Os mais puristas dizem que a banda não teria ficado tão “comercial” (?). Eu discordo.

Arrisco-me a dizer que a trajetória do Metallica teria sido muito parecida com a que realmente foi trilhada. Cliff Burton tinha um background musical bastante amplo e, por mais que fosse fã de heavy metal, dificilmente se negaria a estar envolvido em álbuns como o famigerado “Black Album”, os contestados “Load” e “ReLoad” e o bem trabalhado “Death Magnetic”.

O Metallica seguiu caminhos contestados em alguns momentos. Ainda assim, creio que Cliff Burton, onde quer que esteja, ficou satisfeito com o que a banda fez após sua morte. Siga descansando em paz, Cliff.

Observação: ok, talvez “St. Anger” soasse um pouco diferente e certamente os baixos de “…And Justice For All” não ficassem escondidos na mixagem. Mas nada muito além disso.

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: A ‘indústria Dio’ e os reflexos no futuro do metal

Grandes nomes deixam legados imensos. É o caso de Ronnie James Dio, um dos grandes vocalistas da história do heavy metal.

Cultuado em seu segmento, Dio não era exatamente um artista que lotava arenas, mas tinha fãs fiéis espalhados pelo mundo. E muitos deles ficaram órfãos com seu falecimento.

Recentemente, três bandas foram montadas a partir do nome de Dio. Duas, de forma mais direta: Dio Disciples, formada por Wendy Dio (isso mesmo, pela empresária) e feita para ser apenas um tributo, e Last In Line, que começou como uma homenagem, mas logo partiu para o material autoral.

A terceira, Resurrection Kings, só tem relação com o baixinho em sua line-up: Craig Goldy e Vinny Appice, ambos ex-integrantes da banda de Dio. Ainda assim, o grupo se promove com o nome do finado Ronnie em materiais de divulgação, como folders e releases.

O Disciples é um caso meramente marqueteiro, o Resurrection Kings nem tanto e o Last In Line fica entre os dois, apesar de seu disco de estreia ser incrível. Mas esses casos ainda passam.

O que me assustou, porém, foi o holograma de Ronnie James Dio. Ok, a experiência durante o Wacken Open Air foi legal, todos se emocionaram e tudo o mais. Só que a reprodução da imagem de Dio vai fazer turnê. Eu disse turnê!

Cada um tem direito de fazer grana em cima do que quiser. Não há crime nisso. Mas é impressionante o quanto a “indústria Dio” movimenta.

O cerne deste absurdo não está somente na preguiça dos músicos envolvidos em trabalhar num projeto novo ao invés de fazer dinheiro às custas de um nome já falecido. É culpa, também, dos fãs do estilo, que têm aversão ao novo, ao inédito, ao diferente.

A situação se torna ainda mais problemática quando a mesma análise é feita acerca de outros nomes do rock/metal. Ian Gillan, por exemplo, tem 70 anos. Tony Iommi tem 68 – mesma idade de Klaus Meine e Alice Cooper. Ozzy Osbourne está com 67. Rob Halford faz 65 no fim deste mês. Paul Stanley está com 64. Angus Young tem 61. Steve Harris, 60.

Nem todos vão durar por muito tempo. O Black Sabbath está saindo de cena, assim como o Aerosmith deve sair no fim do ano que vem. Scorpions e KISS podem cumprir, mesmo que depois de um bom prazo, a promessa de se despedir das turnês.

Depois que isso acontecer, faremos hologramas de todos eles? As projeções de imagem sairão em turnê, no lugar dos originais? Teremos ótimos músicos formando bandas-tributo a eles? Haverá uma corrente de instrumentistas (alguns tretados em vida, como Vivian Campbell era com Ronnie James Dio) faturando às custas deles?

Pensar no futuro desse segmento me assusta. De verdade.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: O inflacionado mercado de shows no Brasil começa a sentir o baque

As últimas semanas foram de promoções no mercado de shows internacionais. Houve ofertas de ingressos para Black Sabbath em quatro cidades, Scorpions em duas e Whitesnake também em quatro, além de exemplos fora do universo rock/metal.

Há apresentações internacionais cujos ingressos não passaram por promoções, mas claramente encalharam em suas vendas. Casos de Aerosmith em Recife, com entradas ainda disponíveis para todos os setores, e Richie Sambora em Porto Alegre, que aconteceu na última semana em um vazio Pepsi On Stage.

A maioria dos shows, evidentemente, lota. Mas algumas datas já mostram fragilidade. Faz com que apareça o questionamento sobre esse mercado, tão inflacionado. As evidências são claras: o cenário de apresentações internacionais no Brasil precisa ser revisto.

Entre os maiores shows que virão ao Brasil no segundo semestre, dois contam com o “fator despedida”. O Black Sabbath está, oficialmente, em sua turnê final. Já o Aerosmith não entrou, ainda, em uma excursão do tipo, mas Steven Tyler confirmou em entrevistas que a banda não passa de 2017.

Mesmo com esse apelo, há problemas na comercialização de ingressos – Aerosmith em Recife e Black Sabbath em todos os shows no Brasil. O principal motivo é o alto custo para o consumidor, do momento em que adquire a entrada até quando se sai do local do show. Tudo é inflacionado.

Além do caríssimo ingresso, paga-se uma taxa de conveniência para se obter o serviço de SACs e sites que não funcionam direito. Dentro dos locais das apresentações, o valor é alto para se consumir. Bizarrices como garrafa d’água a R$ 6 ou copo de cerveja a R$ 12 não são incomuns de se encontrar. E, geralmente, não se pode entrar com alimentos ou bebidas – é necessário se render ao preço praticado por ali.

Dessa forma, parte dos fãs fogem. Ficam aqueles que gostam muito, têm uma boa grana guardada, possuem um cartão de crédito robusto e/ou estão empolgados demais para aquela ocasião.

Promoções mascaram problemas

O caso mais curioso é o do Black Sabbath, cujos shows lotaram em 2013, mas que, agora, são alvo de promoções. Por bons dias, pares de entradas em arquibancadas foram comercializados a R$ 125, tanto na época do Dia dos Namorados quanto na última semana, chamada de “Semana do Rock”. Ainda assim, há setores com ingressos disponíveis. Ok, as apresentações só acontecem em dezembro, mas se existem ofertas promocionais, é porque há a preocupação da produção em não conseguir atrair o público até lá.

O mercado de shows no Brasil tem sido cada vez mais explorado. Bandas que não costumavam passar por aqui, agora, vêm com alguma frequência. Há tantas opções de apresentações internacionais de rock/metal no segundo semestre que o consumidor precisa escolher – e economizar bastante, pois os ingressos andam bem caros.

Apesar da evolução do mercado, a experiência oferecida ainda é ruim. Sites de compra cheios de problemas técnicos, locais inadequados, estruturas incompatíveis, atrações de abertura (quando há) escolhidas mediante pagamento de jabá, alimentos e bebidas de qualidade questionável oferecidos na área interna são só alguns dos problemas a serem listados.

Crise?

Não dá para usar a crise econômica como argumento principal para esses problemas, porque ainda há shows lotados, uma demanda ainda considerável e problemas que sempre existiram. O momento de recessão não serve como impedimento nesse contexto.

Se há uma crise, está no cerne desse mercado. Cobrar caro e não oferecer uma experiência de acordo com o valor faz com que muitos desanimem de ir a apresentações desse porte. Não são muitos os encorajados a pagar mais da metade de um salário mínimo para encarar todos os problemas anteriormente listados.

Além da urgência em melhorar as condições oferecidas ao público (ou abaixa o valor, ou aumenta a qualidade do produto como um todo), há outras alternativas que ajudam o mercado de shows. Turnês conjuntas são um exemplo: nas duas últimas passagens do Iron Maiden pelo Brasil, a banda veio com outros grupos de grande porte para atrair os fãs. Em 2013, por exemplo, Slayer e Ghost acompanharam os britânicos. Já neste ano, o Anthrax abriu as apresentações.

Há outras alternativas e existe muito a se melhorar nesse mercado. Só não dá para confiar sempre em turnês de despedida e atrações nababescas. Não há público que suporte, por tanto tempo, um mercado tão inflacionado.

Leituras recomendadas:

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Por favor, respeitem o Babymetal

Milhões de visualizações em seus clipes no YouTube. Presença certa em grandes festivais pelo mundo. Garantia de lotação máxima em arenas dentro e fora do Japão. Milhares de seguidores em redes sociais. Razoável sucesso de vendas com o disco mais recente, “Metal Resistance”.

O Babymetal tem os holofotes que muitas bandas de metal gostariam de obter – especialmente as mais atuais, já que, nos últimos 10 ou 15 anos, nada de impactante surgiu entre os nomes mais novos do estilo. Trouxe mais fãs para dentro do estilo e serviu como uma espécie de introdução para interessados em um gênero musical que, apesar de ter grandes expoentes, respira por aparelhos.

Ainda assim, o Babymetal enfrenta uma resistência tão burra dentro da “comunidade metal” que chega a ser incompreensível. Os mais tradicionais não só bradam pelos quatro ventos que odeiam a banda como também se preocupam em criticar os discos, as apresentações e os fãs.

A maioria da “comunidade metal” é composta por esses tipos mais tradicionais. Para ser mais exato, são tiozões ortodoxos e supostos prodígios super-entendidos sobre música. Resiste-se às novidades da mesma forma que espera-se que um novo Iron Maiden ou Judas Priest chegue para “salvar os impuros que não ouvem o verdadeiro metal”. Foi assim com o new metal, com o metalcore e basicamente com qualquer subgênero menos padronizado que tenha surgido nas últimas duas décadas.

É como as religiões mais tradicionais – paradoxalmente, algo que a “comunidade metal” tanto critica. Até que algo novo seja aceito, passa-se por inúmeros testes. O Ghost precisou de três discos e elogios de dezenas de músicos consagrados para convencer os puristas de que “aquilo é metal”. O Slipknot precisou de mais discos, turnês incendiárias e de um Stone Sour como projeto paralelo de alguns integrantes para conquistar a aceitação. Não é mais uma questão de gosto ou empatia, mas sim de avaliação estética. É metal? Pode. Não é metal? Não pode.

O mais grave é que, como em outros casos na “comunidade metal”, a rejeição ao Babymetal costuma ser fundamentada em preconceitos. Para os puristas, Babymetal é “coisa de viado”, “coisa de mulherzinha”, “coisa de criança”. De acordo com essa concepção retrógrada, homossexuais, mulheres e crianças estão proibidos de ouvir metal. (Neste outro texto – clique aqui -, há uma resposta pronta para argumentos prontos como “Rob Halford é um gay de respeito”, “não há preconceito no metal” ou “há muitas mulheres no metal”)

Não significa nada, mas o Babymetal é metal. Além disso – e o que realmente vale algo – é que se trata de um dos conjuntos mais notáveis dentro do estilo dos últimos anos. Agrega de diversas formas a um cenário defasado, cansado e tradicionalista ao extremo.

Não é só popularidade. O Babymetal é contestador. Uma banda nipônica, capitaneada por três adolescentes, foge completamente da estética ocidental do metal, que só aceita mulheres se forem “gostosas” ou se houver alguma adaptação ao que os homens já praticam há anos no estilo. A possibilidade musical apresentada pelo Babymetal é um tapa na cara daqueles que entendem o metal, o rock ou até a música como cagação de regra.

Ninguém é obrigado a gostar de Babymetal, nem deve deixar de criticar a sonoridade com argumentos válidos. Escrevo esse texto sem ter nenhuma música do grupo em minha playlist. Deve-se, porém, entender que a banda é importante, é classificada como metal e ninguém pode ser moralmente reduzido por gostar dela. Especialmente com base em preconceitos.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Morte de Nick Menza encerra ciclo prematuro com Megadeth

Toda morte prematura de artistas que ainda se mantinham ativos interrompe ciclos que ainda não chegaram ao fim. É óbvio. No entanto, dentro do âmbito dos falecimentos inesperados, o caso de Nick Menza surpreende ainda mais.

Era inevitável: em algum momento, Nick Menza se reuniria com o Megadeth. O baterista mais notável que passou pela banda ensaiou um retorno em diversas ocasiões – a mais recente, no fim de 2014. Nunca foi adiante.

Nick Menza estava com 51 anos quando morreu, no último sábado (21), enquanto tocava com o projeto OHM em Los Angeles. Os problemas com tóxicos, especialmente na década de 1990, e a própria idade limitaram um pouco a sua capacidade com as baquetas. Ainda assim, continuava um grande baterista.

Filho do músico de jazz Don Menza, que gravou a trilha de saxofone da música-tema da “Pantera Cor-de-Rosa”, Nick nunca escondeu suas influências jazzísticas. Era um grande admirador de Buddy Rich. Antes de entrar para a banda de Dave Mustaine, aos 23 anos, Menza já havia tocado nas bandas Rhoads – liderada por Kelle Rhoads, irmão do icônico Randy Rhoads – e Cold Fire e trabalhado como músico de estúdio, além de ser técnico de bateria de Chuck Behler, no próprio Megadeth.

No Megadeth, Nick Menza entrou como uma luva. Era como um sucessor de Gar Samuelson, responsável por dar uma pitada jazzística à banda, só que bem mais técnico e habilidoso. Mesmo com a liderança de Dave Mustaine sob todos os aspectos, Menza tentou colaborar com algumas composições enquanto esteve no grupo.

A relação conflituosa com Dave Mustaine marcou a passagem de Nick Menza pelo Megadeth. Não poderia ser diferente: Mustaine é (ou era) um sujeito difícil, assim como Menza. As brigas por conta do uso de álcool e drogas e pela divisão dos lucros entre os integrantes da banda eram frequentes.

Apesar disso, até mesmo o frígido Dave Mustaine se arrepende da forma que demitiu Nick Menza. O baterista se recuperava de uma cirurgia para a retirada de um tumor benigno do joelho quando foi informado, por telefone, que estava fora do grupo. Um tratamento frio demais a um músico que ficou dez anos na formação. Jimmy DeGrasso ocupou a vaga de Menza até 2002, quando Mustaine também sofreu com um problema de saúde – no braço – e deu um fim provisório à banda.

Pelo menos em outras duas ocasiões, Nick Menza foi convidado a voltar e chegou a sentar no banquinho da bateria do Megadeth, mas foi dispensado. Em 2004, quando o grupo foi remontado, Dave Mustaine afirmou ter desistido de contar com Menza porque ele não estava “fisicamente apto” para a turnê na sequência. Dez anos depois, em 2014, com o retorno de Marty Friedman também sendo discutido, tudo foi por água abaixo após discussões relacionadas a pagamentos não chegarem a um consenso. Menza alega que a banda queria que ele gravasse o novo disco, que viria a ser “Dystopia”, de graça.

Mesmo com todas as rusgas, a impressão era de que, em algum momento, a formação clássica do Megadeth se reuniria. Especialmente no caso de Nick Menza, a impressão é de que o ciclo foi interrompido de forma prematura. O músico foi demitido em uma situação onde até Dave Mustaine se mostra arrependido – diferente de Marty Friedman, que optou sair, por conta própria.

A cabeça-dura dos envolvidos impossibilitava, até então, o retorno da line-up responsável por gravar “Rust In Peace”, “Countdown To Extinction”, “Youthanasia” e “Cryptic Writings”. Agora, um aparente acaso do destino – potencializado por descuidos ao longo dos anos – deu fim às chances. Descanse em paz, Nick Menza.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Ao lado de Ozzy, Sharon foi mais importante do que você pensa

O casamento de Ozzy e Sharon Osbourne chegou ao fim. Um relacionamento com altos e baixos não suportou a mais um problema – desta vez, uma suposta traição.

Não é fácil de compreender, mas essa união foi, provavelmente, a de maior impacto da história do rock. Vai muito além dos mitos envolvendo John Lennon e Yoko Ono. Com o impulso de Sharon, Ozzy Osbourne revolucionou um estilo musical pela segunda vez – a primeira foi ao lado do Black Sabbath.

É de conhecimento geral que Ozzy Osbourne estava na lama quando foi demitido do Black Sabbath em 1979. O vocalista já havia saído voluntariamente em 1978, quando tentou dar o pontapé inicial em um projeto solo, chamado Blizzard Of Ozz. No entanto, Osbourne voltou meses depois. Não durou muito: os excessos e as tensões com os demais integrantes fizeram que o Madman fosse despedido da banda.

Fora do Black Sabbath, o primeiro investimento que Ozzy Osbourne recebeu foi do pai de Sharon Osbourne, Don Arden, da gravadora Jet Records. Ele também empresariava o Sabbath. Sharon foi enviada a Los Angeles para “cuidar” de Ozzy e não demorou muito para que eles começassem a se relacionar.

Com uma superbanda formada por Bob Daisley e Don Airey (ambos ex-Rainbow), Lee Kerslake (Uriah Heep) e o prodígio Randy Rhoads (Quiet Riot), Ozzy Osbourne tinha tudo para despontar. O problema era a sua personalidade autodestrutiva. Viciado e sem confiança, Ozzy quase fez o projeto ir por água abaixo, tanto antes quanto depois de dar certo.

Sharon empresária

A partir de 1980, Sharon Osbourne passou a ser decisiva na carreira de Ozzy. A empresária comprou os direitos sobre a carreira de Osbourne e acompanhou cada passo do cantor, especialmente a partir do momento em que Randy Rhoads faleceu. Ela chegou a sugerir Gary Moore para a vaga – nome que já havia sido indicado por ela antes de Rhoads entrar para a banda.

O que era negócio, virou compromisso também no âmbito pessoal: Sharon e Ozzy se casaram em julho de 1982. Apesar disso, o Madman complicou o início do enlace: cada vez mais afundado em drogas, o cantor fez da vida de Sharon um inferno. Ele chegou a ser preso por tentar assassiná-la em algum momento da década.

Os reflexos da decadência pessoal também vinham em seu trabalho musical: Ozzy Osbourne parecia ter perdido o controle artístico de seus discos. A estabilidade em ambos os aspectos só vieram a partir da década de 1990, com bons discos e alguma sobriedade em suas ações.

Ozzfest

Em 1996, o casal criou o Ozzfest, um dos festivais mais importantes do rock. Quem comandava mesmo o projeto era Sharon Osbourne, com o auxílio esporádico de um de seus filhos, Jack Osbourne.

O evento anual foi importante não só comercialmente, como também em termos de legado: enquanto o metal estava em frangalhos na segunda metade da década de 1990, o Ozzfest segurava as pontas, fazia o mercado segmentado girar e lançava novas bandas.

Comemorar?

Curiosamente, com o anúncio do divórcio, vi dezenas de comentários infelizes nas redes sociais que comemoravam a situação. Há quem atribua uma imagem de controladora a Sharon, mas ninguém pode negar sua importância para a vida e a carreira de Ozzy. Celebrar um fato complicado para o casal e para toda a sua família é um ato de ignorância com relação à história de um ídolo.

Ozzy Osbourne nunca escondeu a importância de Sharon em sua vida. Tudo isso se tornou ainda mais evidente na autobiografia do cantor, “Eu sou Ozzy”. Há mais declarações de amor à (até então) esposa do que detalhes sobre a trajetória musical do vocalista em sua carreira solo.

Sabe-se do machismo acentuado na “comunidade metal”, na anterior superexposição do casal na imprensa e em um reality show e de alguns posicionamentos infelizes de Sharon Osbourne, como o “caso Iron Maiden” – no qual não existe coitadinho. Ainda assim, celebrar um divórcio – supostamente causado por uma traição de Ozzy – é demais.

A autobiografia de Ozzy Osbourne está aí. As entrevistas do casal e de pessoas relacionadas a Ozzy também estão disponíveis. Ignorar a indireta importância de Sharon para o heavy metal é deixar uma parte da história de lado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Motivos para que a formação clássica do Dokken não se reúna

Desde abril do ano passado, integrantes da formação clássica do Dokken afirmam à imprensa que uma reunião estaria a caminho. O assunto ganhou força novamente nas últimas semanas, com Jeff Pilson e Mick Brown falando sobre as conversas entre os músicos. Até George Lynch havia comentado sobre isso anteriormente.

O empolgado Mick Brown chegou a deixar a banda de Ted Nugent, na qual tocava há 11 anos, para se dedicar mais ao possivelmente reunido Dokken. O entrave estaria na agenda de Jeff Pilson, que não abre mão do Foreigner: há shows marcados até 2018.

No entanto, há uma série de motivos para o Dokken original não se reunir. De início – e não poderia ser diferente –, está o prazo de validade. Don Dokken e George Lynch nunca se deram bem. Nem mesmo no auge do sucesso. Uma parceria entre artistas tão diferentes e egocêntricos não deve durar. O grupo se reuniu no meio da década de 1990 e a tentativa fracassou. Foi lançado, inclusive, o álbum mais enfadonho de sua discografia: “Shadowlife”.

Lynch brincou, em entrevista concedida no ano passado, que a cada dois anos os músicos sentam para discutir uma possível reunião. E nunca sai do papel. Não deu certo há 30 anos, não deu certo há 20 anos e não vai dar certo agora.

Não à toa, declarações de pessoas envolvidas com o Dokken no passado indicam que a parceria passava longe de ser saudável para os envolvidos. Há quem defenda Don Dokken, há quem defende George Lynch. O produtor Tom Werman coloca George como o vilão. “George Lynch e Don Dokken nunca foram amigos. Na verdade, era a banda contra o vocalista. Mas ele escrevia as músicas românticas e elas faziam sucesso. Era uma engenharia bem dividida. George jogava uns contra os outros, era o cara malvado”, disse, em entrevista.

Don Dokken não segura o tranco mais

O estado atual da voz de Don Dokken também é deplorável. Vi ao vivo e sei do que estou falando. É um caso atípico, pois não há resquícios do vocal de antigamente. Até mesmo Axl Rose nos seus momentos mais Mickey Mouse esteve em melhor forma. Os hábitos de Don o prejudicaram e o preço foi cobrado.

Especialmente no caso de George Lynch, deixar o bom Lynch Mob de lado para apostar em uma furada reunião do Dokken parece arriscado. Os últimos lançamentos do Mob mostram que a banda está afiada e bem posicionada em uma variação distinta do hard rock, que aproveita o estilo melódico peculiar do guitarrista e o swing dos vocais de Oni Logan.

Quando George Lynch se reuniu com Jeff Pilson e Mick Brown para o T&N, o resultado foi fantástico. E sem Don Dokken. O resultado da parceria com Michael Sweet também foi positivo. São projetos com visibilidade em nichos, assim como o Dokken, que já deixou de ser uma mega-atração ainda na década de 1980.

E a grana?

Nem mesmo financeiramente parece compensar tanto. A primeira reunião do Dokken não foi um grande sucesso. Culpa dos integrantes, que já não estavam se entendendo e colaboraram para um mau gerenciamento, é verdade. Vinte anos depois, o apelo é ainda menor.

Como fã do Dokken, prefiro ver a banda estacionada, em uma parcial aposentadoria, enquanto o Lynch Mob ganha espaço e possíveis combinações entre George Lynch, Mick Brown e Jeff Pilson acontecem. A mais recente, inclusive, foi a participação de Pilson em “Rebel”, álbum do Mob, lançado no ano passado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Vá para casa, Paul Di’Anno

Paul Di’Anno tem a mesma idade de Bruce Dickinson. Ambos têm 57 anos e só alguns meses de diferença – o primeiro nasceu em maio e o segundo, em agosto de 1958. No entanto, basta dar uma olhada em fotos ou vídeos atuais de ambos para entender porque Di’Anno precisa se aposentar com urgência.

Recentes vídeos de uma performance no Japão mostram Paul Di’Anno em uma cadeira de rodas. O cantor não perdeu a capacidade de andar. Ele está dessa forma porque tem evitado desgastar os joelhos, que, segundo o próprio, deveriam ter sido operados há, pelo menos, cinco anos.

Não é uma novidade ver Paul Di’Anno sentado, pois ele se apresentou dessa forma no Wacken Open Air e em uma recente turnê no Brasil, ambos em 2015. No entanto, muitos fãs ainda se surpreendem com o estado do cantor, que também demonstra muito desgaste em sua voz. Na performance de “Phantom Of The Opera”, registrada no vídeo abaixo, Di’Anno mistura o seu estilo rasgado de cantar com técnicas de falsete, como se estivesse tentando imitar Bruce Dickinson. Incrivelmente, falha nos dois estilos. Além disso, perde o ritmo e o tom em alguns momentos – algo que se repete em outras filmagens, dessa e de outras noites.

Já deixei claro em textos anteriores que sou entusiasta do bom envelhecimento e, em certos casos, da aposentadoria. O pensamento de que o artista deve “morrer no palco” é retrógrado. Não se trata apenas de continuar fazendo o que gosta, mas de saber o que faz e de se cuidar o suficiente para entregar um bom produto ao público. Música é paixão, mas também é negócio. Vale destacar, ainda, que não é só por Di’Anno estar se apresentando em uma cadeira de rodas, mas por todo o contexto que envolve essa situação.

Di’Anno ainda não parou porque ainda há um público que não está diretamente interessado em seu trabalho, mas em sua história. Até mesmo no Brasil há muitos desses fãs que procuram ir em suas apresentações não para ouvi-lo cantar, mas para dizer que o viu ao vivo.

O errático Paul Di’Anno tomou muitas decisões erradas em sua vida. No âmbito pessoal, optou por um ranço com os ex-colegas de Iron Maiden. Além disso, os vícios prejudicaram sua saúde. Profissionalmente, deu “barrigadas” com o projeto de AOR Di’Anno na década de 1980 e infinitas turnês – até hoje – que privilegiavam apenas o material registrado com o Maiden.

A aposentadoria definitiva de Paul Di’Anno, por sua vez, seria uma decisão correta. Aliás, ele anunciou que faria isso anos atrás, mas voltou atrás e ainda disse que todos o entenderam errado. Nem mesmo o bom disco do Architects of Chaoz, gravado pelo cantor com sua banda de turnê de longa data, The Phantomz, fez com que as atenções voltassem para ele. Vá para casa, Di’Anno, sem olhar para trás. Você e seu legado são maiores do que tudo isso.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras e repórter do jornal Correio de Uberlândia. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.