Derrapada: Kyuss – Kyuss (Welcome To Sky Valley)

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Quem vê Josh Homme a frente do Queens of the Stone Age e seu rock alternativo característico, pode nem imaginar os antecedentes muito mais pesados do guitarrista e vocalista. Nativo de Joshua Tree, mas criado em Palm Desert, ambas cidades californianas, ele ingressou em sua primeira empreitada musical séria com meros 14 anos, ao lado dos colegas John Garcia e Brant Bjork. As “generator parties” do Kyuss, onde eles iam até locais isolados no deserto, plugavam seus instrumentos e tocavam, se tornaram lenda no submundo musical da Califórnia.

Sem sequer sombra de pretensão, o quarteto – completado por Nick Olivieri e, mais tarde, Scott Reeder – criou os alicerces para a cena stoner rock do anos 90. O principal mérito dos caras foi traduzir toda a aridez ao seu redor em música, criando, assim, uma sonoridade viajante e totalmente influenciada por nomes como Black Sabbath e Blue Cheer. Vê-se aí o motivo de o baixo ser tão privilegiado na mixagem: valia tudo para ficar mais pesado, inclusive tocar guitarra com um amplificador para baixistas.

O Kyuss teve sua estreia discográfica em 1991, mas foi com o clássico Blues For The Red Sun no ano seguinte que eles foram aclamados pela mídia e deram o ponto de partida para seu extenso legado. O produtor Chris Goss foi eficaz o bastante para captar toda a potência do Kyuss ao vivo em estúdio, ajudando na concepção de um dos discos mais emblemáticos daquela década. Mas o melhor ainda estava por vir.

A recepção foi tão calorosa que logo eles estavam assinando contrato com a Elektra para mais um álbum. Outra mudança veio com a saída do insano Nick Olivieri e a entrada de Scott Reeder, ex-The Obsessed. Assim, com novo membro e nova gravadora, o time do Kyuss foi capaz de maximizar os riffs inspirados e a atmosfera psicodélica de Blues For The Red Sun e dar origem a uma sonoridade muito mais variada que a de outrora. Não é à toa que o autointitulado virou a Bíblia do stoner.

Erroneamente batizado de Welcome To Sky Valley por alguns, o disco homônimo viria a ser o último com Brant Bjork atrás da bateria, e se trata do Kyuss em seu apogeu como banda. O nível estratosférico de criatividade pode ser constatado pela proposta inicial, que era lançar as dez faixas juntas, divididas em três partes. Segundo Homme, o objetivo era fazer com que ouvir a obra em um CD player fosse um verdadeiro inferno e, além disso, apreciá-la como um trabalho inteiro e não uma coletânea de músicas. Mais tarde, o disco foi relançado de maneira convencional.

Na ficha técnica do autointitulado, lê-se “listen without distraction”. E não há instrução melhor para a audição dessa verdadeira obra-prima do stoner mundial. Só prestando muita atenção é que o ouvinte é capaz de mergulhar em todas as nuances propostas pelos riffs espetaculares de Josh Homme, que segura a peteca muito bem e faz a tarefa de dois guitarristas. A potência vocal de John Garcia merece igual menção, e aqui ele se encontra em seu auge, sem cometer os exageros de antes.

O início de “Gardenia” denuncia os timbres imundos conseguidos por Homme através de um amplificador de baixo, e faz parecer que estamos diante de uma dupla de guitarristas. Não é de se espantar que ele seja o maior destaque de todo o registro, pois chega a carregar a banda nas costas em vários momentos. É interessante notar que eles resolveram se aventurar por territórios mais melódicos, como é visto na acústica “Space Cadet” e em “Demon Cleaner”, onde Garcia abandona os vocais berrados em troca de algo mais contido. Porém, em ambas, persiste a psicodelia característica do Kyuss.

Saíram daqui alguns dos clássicos mais memoráveis do grupo. É o caso de “Supa Scoopa and Mighty Scoop”, onde Josh se supera definitivamente e faz ter certeza de que esse disco traz sua melhor performance como guitarrista já registrada. A instrumental “Asteroid” também merece destaque, assim como a acelerada “Odyssey” e “N.O.”, cover da obscura Across The River.

A faixa escondida ao final da viagem que é “Whitewater” mostra que, no final das contas, o Kyuss é uma banda das mais bem-humoradas. Trilha sonora ideal para ligar o carro e dirigir sem rumo por paisagens desérticas e insuportavelmente quentes. Além de, é claro, ser material imprescindível para se entender a avalanche de grupos adoradores da maconha e do Black Sabbath que surgiram nos anos 90.

John Garcia (vocais)
Josh Homme (guitarras, violões)
Scott Reeder (baixo)
Brant Bjork (bateria)

I
01. Gardenia
02. Asteroid
03. Supa Scoopa and Mighty Scoop

II
04. 100 Degrees
05. Space Cadet
06. Demon Cleaner

III
07. Odyssey
08. Conan Troutman
09. N.O. (Across The River cover)
10. Whitewater

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Derrapada: The Black Keys – Brothers

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Após o sucesso do White Stripes, foi criado um parâmetro de comparação com toda e qualquer banda que utilizasse o formato guitarra-vocal-bateria. E com o Black Keys não foi diferente. Formado cinco anos depois do casal, em Akron, Ohio, a banda de Dan Auerbach e Patrick Carney foi vítima de várias comparações que, no fim das contas, não levam a lugar algum. Contudo, desde a estreia em estúdio no ano de 2002, o grupo vem construindo uma sólida base de fãs.

E isso começou do underground. Foi gravando discos em porões, fazendo shows em antros alternativos e assinando contrato com gravadoras independentes que os dois colegas de escola arquitetaram seu público-alvo, e logo a dupla possuía um séquito considerável. A sonoridade calcada no blues rock puro e simples com algumas referências no soul e no rock das antigas cativou a muitos e, finalmente, chegou ao mainstream em 2010.

Porém, antes que o sucesso comercial viesse, veio a primeira crise séria entre os dois. Após oito anos de turnê e gravação incessantes, as tensões cresceram a ponto de explodir. O baterista Patrick Carney não lidou bem com um divórcio, e sua antipatia afetou o companheiro de um modo que o mesmo acabou gravando um disco solo em 2009. Não é necessário dizer que isso só fez aumentar os conflitos, mas, felizmente, a dupla soube se reconciliar e retornou com um dos discos mais importantes e aclamados de sua carreira.

As gravações foram realizadas no lendário Muscle Shoals, no Alabama, e as foram descritas como frenéticas pelo duo. O resultado foi batizado Brothers, uma forma de reafirmar a união de vários anos que havia resistido à recente crise. E, apesar da modesta capa e do simples conteúdo, o sexto disco de estúdio lhes rendeu uma aclamação nunca antes vista.

Os trabalhos começam timidamente, com a contida “Everlasting Light”. De cara, Dan Auerbach se sobressai nos vocais, claramente influenciados pelo soul dos anos 50 e 60. As referências ao passado são, aliás, uma constante no full-length. “Next Girl” pode ser classificada com um blues feijão com arroz turbinado com doses de contemporaneidade. “Tighten Up”, o carro chefe e o single de maior sucesso do Black Keys até hoje, é outra que não pode deixar de ser mencionada. Nessa faixa, a influência dos medalhões da Motown é ainda mais latente.

Outro grande momento é a garageira e lo-fi “Howlin’ For You”. “Black Mud” é um instrumental onde ambos simplesmente destroem, alternando andamentos vagarosos com riffs próximos do Black Sabbath. A atmosfera crua é acentuada pelos órgãos, que também marcam presença em “The Only One” e conferem a esta um interessante clima sombrio.

“Sinister Kid” é mais acelerada e é tão simples que chega a ser ridícula toda sua qualidade. “The Go Getter” e seu andamento diferenciado do restante merece nota pelo fantástico riff e pela performance matadora de Auerbach. Finalizando, há a balada “These Days”, curiosamente a primeira música feita por eles após a reconciliação.

Eles logo souberam que estavam no caminho certo após Brothers ganhar, simplesmente, três Grammys em 2011. O lançamento seguinte, El Camino, continuou com a calorosa recepção e sedimentou de vez a popularidade dos Black Keys. Atestado de que, por vezes, a simplicidade pode ser muito mais cativante do que muitas invenções e notas a velocidade da luz. Indicado para quem estiver à procura de um som descompromissado e bem feito, ou para os que gostam de se manter atualizados quanto ao que acontece no mundo da música atual.

Dan Auerbach (vocais, guitarras, teclados)
Patrick Carney (bateria)

01. Everlasting Light
02. Next Girl
03. Tighten Up
04. Howlin’ For You
05. She’s Long Gone
06. Black Mud
07. The Only One
08. Too Afraid To Love You
09. Ten Cent Pistol
10. Sinister Kid
11. The Go Getter
12. I’m Not The One
13. Unknown Brother
14. Never Gonna Give You Up
15. These Days

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Derrapada: Nine Inch Nails – The Downward Spiral

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A simples falta do que fazer às vezes pode se tornar o motor criativo para as mais variadas modalidades artísticas. Foi assim com os expoentes da Invasão Britânica e sua escandalosa rebeldia para a época. Foi assim com os punks, cansados das convenções sociais e do rock progressivo. E foi assim com Michael Trent Reznor, um prodígio da música desde os cinco anos de idade.

Seu primeiro instrumento foi o piano, e, mais tarde, ele se aventurou pela tuba e pelo saxofone. Contudo, ao decorrer do tempo, Reznor constatou que sua terra natal – a Pensilvânia – o mantinha quase totalmente isolado do resto do mundo. Então, numa atitude que beirava o impulsivo, o filho de Nancy e Michael Reznor largou os estudos e rumou para Cleveland, onde almejava conseguir mais oportunidades para seus dotes musicais.

E elas vieram. Logo que conseguiu um emprego de engenheiro assistente e faxineiro no Right Track Studios, o jovem viu que poderia usar os tempos vagos no estúdio para gravar demos próprias. Nem mesmo a dificuldade em encontrar parceiros para isso o desanimou, e ele decidiu gravar praticamente tudo sozinho. A força de vontade mostrou resultado quando o multi-instrumentista foi contratado pela TVT Records.

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Reznor e o bizarro Marilyn Manson

Em 1989, cinco anos após abandonar sua vida campesina, Reznor concebeu o primeiro disco sob o nome de Nine Inch Nails, contando com contribuições aqui e ali. O debut satisfez à gravadora, mas nosso protagonista não se rendeu às limitações estabelecidas pela mesma e, no ano de 1992, migrou para a Interscope e criou seu próprio selo, Nothing Records. A atitude se mostrou muito saudável quando foi lançado o agressivo EP Broken, que serviu de prenúncio para o magnum opus do NIN.

O conceito para a grande obra de Reznor floresceu ainda em 1991, ano de sua aparição no Lollapalooza. Extremamente afetado pela energia negativa dos shows subsequentes ao festival, ele começou a desenvolver ideias focadas na destruição emocional de um indivíduo, que termina cometendo suicídio – daí o título The Downward Spiral. O próprio Trent entrou em depressão durante a escrita do álbum, sendo o ambiente usado – a casa em que Sharon Tate foi assassinada – outro agravante. Mas, dezoito meses depois, ele saiu da agourenta residência com um dos trabalhos mais aclamados da década de 90 debaixo do braço.

Tão logo foi lançado, The Downward Spiral estacionou na segunda posição da Billboard e lá ficou por uma semana. Para o ouvinte mais atento, o conteúdo tem muito do que foi feito por David Bowie em Berlim. Ao mesmo tempo, a temática pessimista e sombria remete, inevitavelmente, a um dos grandes momentos do Pink Floyd, o clássico The Wall. Some as duas influências e você terá ao menos uma prévia do segundo disco de estúdio do Nine Inch Nails.

É interessante notar que a obra segue certa ordem: do início da depressão até o declínio total do protagonista. “Mr. Self-Destruct”, acelerada e caótica, serve como uma introdução à personalidade já deturpada do indivíduo. “Piggy” entra em contraste direto com sua antecessora, sendo altamente calma e atmosférica. Na pesada “Heresy”, o tema principal é a descrença em Deus, e a letra contém um ácido senso de humor. “March of the Pigs” e “Closer” foram os dois singles principais, e tornaram-se clássicos. A primeira traz o momento mais próximo do rock convencional, enquanto “Closer” poderia ser facilmente confundida com uma balada inofensiva se não fosse seu polêmico refrão. “Ruiner” beira o apocalíptico e, junto à variada “The Becoming”, abre alas para a parte mais viajante do registro.

“I Do Not Want This”, outro destaque, é uma das poucas passagens em que o narrador se mostra esperançoso. Porém, essa esperança logo é substituída pela derrocada final das duas últimas músicas. A faixa que dá nome ao disco descreve, em meio a gritos desesperados, o suicídio do protagonista. “Hurt”, conhecida na voz do eterno Johnny Cash, pode ser tratada como a carta de despedida do mesmo, e encerra com chave de ouro o marco definitivo da carreira de Trent Reznor.

The Downward Spiral pode ser uma aventura difícil para os que não estão habituados com a sonoridade experimental do Nine Inch Nails ou com o tema que o circunda. Sua sonoridade, ainda que preserve alguns elementos roqueiros, está predominantemente ligada aos sintetizadores e se mostra bastante densa em algumas passagens. Mas, uma vez que você entre nessa jornada suicida, trate-a como o refrão de “Piggy”: “nothing can stop me now”.

Trent Reznor (vocais, todos os instrumentos, bateria em 2)

Flood (chimbal em 5, sintetizador em 7)
Chris Vrenna (bateria em 14, samples)
Adrian Belew (guitarras em 1 e 7)
Danny Lohner (guitarras em 9)
Andy Kubiszewski (bateria em 13)
Stephen Perkins (bateria em 8)

01. Mr. Self-Destruct
02. Piggy
03. Heresy
04. March of the Pigs
05. Closer
06. Ruiner
07. The Becoming
08. I Do Not Want This
09. Big Man with a Gun
10. A Warm Place
11. Eraser
12. Reptile
13. The Downward Spiral
14. Hurt

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Derrapada: Mudhoney – Superfuzz Bigmuff plus Early Singles

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Com o advento do grunge nos veículos midiáticos, a juventude foi arrebatada pelo som cheio de angústia e peso de nomes como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden, para citar os mais famosos. Porém, ao compararmos essas três bandas, as semelhanças não são grandes. E isso exemplifica bem o real significado do termo “grunge”: um rótulo para designar grupos de Seattle e arredores que, de uma forma ou outra, se relacionavam. Mas, se o grunge possuísse uma fórmula padrão, esta seria a do Mudhoney.

Existiram dois embriões para o Mudhoney. O primeiro, Mr. Epp and the Calculations, era mais uma brincadeira ginasial do que qualquer outra coisa. Serviu, no entanto, para reunir dois parceiros futuros: Mark Arm, vocalista, e Steve Turner, guitarrista. Juntos, eles recrutaram Alex Vincent, Jeff Ament e Stone Gossard, dessa vez para uma empreitada mais séria. À toque de caixa, gravaram sua estreia em estúdio: Come On Down, EP de 1985, é considerado o primeiro registro grunge.

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O Green River

Após outro EP e um full-length, a banda se desintegrou e cada um seguiu seu caminho. Gossard e Ament, após passarem pelo Mother Love Bone, fundaram o Pearl Jam. Enquanto isso, Mark Arm se juntou mais uma vez ao seu parceiro de longa data para desenvolver aquele que seria o grupo mais duradouro da carreira de ambos. Encontrar novos companheiros não foi tarefa difícil, devido à crescente vastidão do cenário de Seattle. Os escolhidos, por fim, foram Matt Lukin e Dan Peters, baixista e baterista. Uma vez reunido, o quarteto passou a compor e ensaiar antes de fazer qualquer apresentação ao vivo, o que reafirma a seriedade dos envolvidos.

Nesse período de ebulição cultural, os vários nomes emergentes precisavam de algo que pudesse levá-los para além de Seattle. Esse foi o papel da Sub Pop Records, gravadora fundada em 1986 que se tornou lendária por ter sido a primeira a oferecer contratos para o Nirvana, o Soundgarden e – claro! – o Mudhoney.  A banda de Arm e Turner viria a ser, posteriormente, um símbolo da Sub Pop, apesar da estreia ter vendido um pouco abaixo dos padrões. Gravado em 1988 e produzido por Jack Endino, Superfuzz Bigmuff se tornou referência para a maioria das bandas de Seattle. A recepção nos Estados Unidos foi moderada, e em 1989 eles partiram em uma turnê pelo Reino Unido com o Sonic Youth. Naquele mesmo ano, veio o primeiro disco, autointitulado e garageiro até a alma.

Aproveitando a popularidade cada vez maior do Mudhoney, eis que, em 1990, a Sub Pop põe no mercado um apanhado de faixas essenciais para se entender o grunge. E seu conteúdo já vem explícito no título: o EP de estreia acrescido de singles dos primórdios. O mais interessante é que a mistura é extremamente uniforme, a ponto de parecer que todas as doze músicas foram feitas sob medida para serem lançadas em um só disco. A fórmula predominante é o som caótico guiado por alguns dos timbres de guitarra mais imundos de todos os tempos. Não é à toa que o nome do álbum veio de dois pedais de distorção muito apreciados pela dupla de guitarristas Arm/Turner.

De cara o ouvinte é arrebatado pela antológica “Touch Me I’m Sick”, o primeiro single da banda. Possivelmente seu maior clássico, a faixa traz a receita que inclusive o Nirvana usaria anos mais tarde. Detalhe para sua introdução com um singelo arroto, homenagem à clássica “Raw Power” dos Stooges. Em seguida, há a sombria “Sweet Young Thing Ain’t Sweet No More”, o lado B do single de estreia. “Hate The Police” é um cover muito bem feito do The Dicks, e a dobradinha “Burn It Clean” e “You Got It (Keep It Outta My Face)” tem notável poder incendiário. “Halloween”, outro cover, encerra a primeira metade em um transe psicodélico que se transforma em outra referência aos Stooges.

A próxima parada é o conteúdo original do debut de 1988. Vê-se uma orientação mais próxima do punk em algumas ocasiões, além de músicas maiores, mas nada que soe deslocado; como dito antes, a coletânea possui uma uniformidade notável. Merece nota a urgente “No One Has”, bem como “In ‘n’ Out Of Grace”, “Need” e “Chain That Door”, onde o baterista Dan Peters pisa no acelerador com vontade.

Material simplesmente imprescindível para os amantes do gênero. Uma boa parte do que há no rock alternativo noventista pode ser encontrado aqui, e em uma de suas formas mais primais. Um ano depois, eles lançariam outro clássico e, em seguida, assinariam contrato com a Reprise. A sonoridade continuou selvagem, ainda que com alguns toques mais refinados aqui e ali. Porém, os timbres sujíssimos e a atmosfera insalubre nunca foram recapturados novamente. Resumindo: clássico e único!

Mark Arm (vocais, guitarra)
Steve Turner (guitarra)
Matt Lukin (baixo)
Dan Peters (bateria)

01. Touch Me I’m Sick
02. Sweet Young Thing Ain’t Sweet No More
03. Hate The Police (The Dicks cover)
04. Burn It Clean
05. You Got It (Keep It Outta My Face)
06. Halloween (Sonic Youth cover)
07. No One Has
08. If I Think
09. In ‘n’ Out Of Grace
10. Need
11. Chain That Door
12. Mudride

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Derrapada: Germs – (GI)

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Na vasta cena punk e hardcore de Los Angeles, muitos grupos só seguiam tendências previamente desenvolvidas e viviam na sombra de nomes já consagrados. À primeira vista, pode parecer que o Germs se encaixava nesse círculo. Mas o tempo provou justamente o contrário.

A banda começou como um mero passatempo adolescente, com o problemático vocalista Jean Paul Beahm e Georg Ruthenberg, guitarrista. Mais tarde, a dupla ficaria conhecida como Darby Crash e Pat Smear, respectivamente. O número de formações até a estabilização foi grande e, finalmente, eles puderam fazer seu primeiro show com Lorna Doom no baixo e Don Bolles segurando as baquetas. A definição de Smear para a estreia nos palcos diz tudo: “nós fizemos barulho por cinco minutos, até que a plateia nos expulsou”.

Concertos caóticos seriam a maior constante na curta carreira do Germs, e confeririam à banda uma reputação nada convidativa. Era comum que Darby Crash entrasse no palco influenciado por drogas, mal cantando e ameaçando a plateia. O restante da banda não ficava atrás, com desmaios e vômitos também sendo frequentes. Tudo isso, aliado à sonoridade já selvagem do quarteto, exterminava qualquer possibilidade de o Germs possuir algum futuro. Mas, surpreendentemente, eles contrariaram todas as expectativas.

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Em 1979, a banda já havia gravado dois singles, que mostravam um som mais rápido e mais agressivo do que o de seus conterrâneos. Veio, então, a prova cabal do poder de fogo do verdadeiro bando de chapados. (GI), produzido por Joan Jett, vendeu pouco e foi o único disco completo deixado pelos californianos. Duas características muito propícias para a posterior aclamação.

O debut solitário permanece como um dos manifestos mais crus e selvagens da época, e foi a chance de se ouvir a banda realmente tocando. Mas nem por isso o caos diminuiu. A produção minimalista de Jett fez com que Darby Crash e seus comparsas soassem como uma banda de garagem pronta para destruir qualquer coisa que aparecer em sua frente – e é exatamente isso! Tudo isso regado a letras niilistas, bateria veloz e riffs rascantes. Não por acaso, o disco é considerado como uma das primeiras obras do hardcore.

O Germs findaria após Darby demitir o baterista Dan Bolles. O vocalista e seu parceiro Pat Smear chegariam a formar a Darby Crash Band, descrita pelo guitarrista como um Germs com músicos piores. No dia 3 de dezembro de 1980, eles se reuniriam num show esgotado e dariam aos jovens punks uma última dose de seu caos sonoro e visual. Quatro dias depois, Crash cometeria suicídio por overdose de heroína. Era parte de um pacto com a amiga Casey Hopkins, que não morreu. Curiosamente, John Lennon seria assassinado um dia depois.

Do restante do grupo, o que mais conquistou fama foi Pat Smear. Ele tocou ao lado do Nirvana por alguns anos e, atualmente, está no Foo Fighters. O Germs retornou aos palcos em 2006, com o ator Shane West substituindo o finado Darby. Apesar das críticas quanto ao substituto escolhido, eles seguem em turnê pelos Estados Unidos.

(GI) é um disco arrebatador, caótico, selvagem e insano. A morte de seu principal compositor um ano após seu lançamento só ajudou a aumentar a aura mística em torno do mesmo, e o disco influenciou demasiadamente o hardcore posterior. Destaques com as clássicas “What We Do Is Secret” e “Lexicon Devil”, e os petardos “Communist Eyes”, “Land of Treason”, “American Leather”, “Manimal”, “We Must Bleed” e “Media Blitz”. Um ponto fraco? A inclusão da totalmente dispensável faixa final, arrastada improvisação gravada ao vivo no estúdio. Ao fim do disco, fica o resumo da curta vida de Darby: um rastro de destruição e muito barulho. Essencial.


Darby Crash (vocais)
Pat Smear (guitarras)
Lorna Doom (baixo)
Don Bolles (bateria)

01. What We Do Is Secret
02. Communist Eyes
03. Land of Treason
04. Richie Dagger’s Crime
05. Strange Notes
06. American Leather
07. Lexicon Devil
08. Manimal
09. Our Way
10. We Must Bleed
11. Media Blitz
12. The Other Newest One
13. Let’s Pretend
14. Dragon Lady
15. The Slave
16. Shut Down (Annihilation Man)

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Derrapada: Entombed – Left Hand Path

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Nos primórdios da década de 90, a cena death metal era dominada pelos pioneiros da Flórida e pelas bandas inglesas. O estilo ainda estava sendo incrementado, e cada grupo acoplava diferentes influências a seu som: as palhetadas do thrash, as temáticas satânicas do black e até mesmo o baixo do jazz. Enquanto isso, a alguns vários quilômetros de distância desses dois centros, nomes como o Carnage e o Nihilist entregavam seu death metal e já demonstravam alguma diferenciação se comparados ao Morbid Angel e ao Carcass, por exemplo.

As duas bandas supracitadas acabaram se fragmentando e originando outras três: o Dismember, o Unleash e o Entombed. A última foi a grande responsável por levar o death metal sueco para além de sua terra de origem, e por essas e por outras é atualmente considerada como uma das melhores do metal mundial. E não é para menos.

O Entombed tomou forma em 1987, na capital Estocolmo, e foi a primeira de seu circuito a assinar contrato com uma gravadora maior – nesse caso, a Earache. Sem perder tempo, o quarteto entrou no lendário estúdio sueco Sunlight ao final de 1989 e saiu de lá com uma das obras de maior magnitude da história do death metal. Left Hand Path caiu feito uma bomba nas prateleiras e colocou a Suécia no mapa do metal extremo. O disco, em suas dez faixas de pura destruição sonora, trouxe o elemento mais distinto das bandas suecas do gênero: o característico timbre das guitarras de Uffe Cederlund e Alex Hellid, mais pesado e denso que o de seus contemporâneos.

Num primeiro momento, é difícil acreditar que o disco é a estreia do Entombed. Cada um dos instrumentistas beira a perfeição em seu desempenho, e a produção é uma das melhores daqueles tempos. E é isso que nos mostra a faixa-título, iniciando os trabalhos sem rodeios. Um dos maiores clássicos da banda, a composição possui um leque rico de andamentos e riffs, além da letra, que é uma das poucas a escapar dos clichês satânicos e/ou repugnantes.

“Drowned” prossegue alternando vagarosidade quase doom metal com momentos que lembram o d-beat do Discharge. O trabalho do baterista Nicke Andersson é algo a se salientar, aliás. A próxima, “Revel In Flesh”, é a primeira ocasião em que se faz uso dos blast beats efetivamente e não desaponta. Na cadenciada “When Life Has Ceased”, o destaque vai para a dupla de guitarristas Cederlund e Hellid.

Outro grande destaque é “But Life Goes On” e seu refrão ganchudo, quase assobiável. A música é uma porrada sem frescuras ou maiores ornamentos. Por outro lado, “Morbid Devourment” usa e abusa de diferentes bases e ritmos, contando com um melódico solo de Hellid em sua porção final. Encerrando definitivamente há a climática “The Truth Beyond”, onde Andersson se sobressai mais uma vez.

Os suecos continuariam nesse caminho até 1993, quando influências mais tradicionais foram incorporadas ao seu som e desenvolveu-se o chamado death n’roll. O debut Left Hand Path permanece como o momento mais memorável de sua discografia, e é obrigatório na estante virtual ou física de qualquer headbanger que se preze. E, para os que não estão familiarizados com o estilo, eis aqui uma ótima porta de entrada.


Lars-Göran Petrov (vocais)
Uffe Cederlund (guitarra, baixo)
Alex Hellid (guitarra)
Nicke Andersson (bateria, baixo)

01. Left Hand Path
02. Drowned
03. Revel In Flesh
04. When Life Has Ceased
05. Supposed To Rot
06. But Life Goes On
07. Bitter Loss
08. Morbid Devourment
09. Abnormally Deceased
10. The Truth Beyond

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Derrapada: Megadeth – Peace Sells… But Who’s Buying?

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A vingança é um prato que se come frio. Certamente, esse foi o lema de Dave Mustaine ao formar o Megadeth junto ao baixista David Ellefson. Ainda remoendo sua expulsão do Metallica, o exímio guitarrista recrutou uma série de bateristas até que a banda se estabilizasse com Gar Samuelson. E, quando ficou claro que Kerry King não conseguiria conciliar seus dois projetos, Chris Poland foi efetivado.

Na estreia de 1985, Killing Is My Business… And Business Is Good!, Mustaine parecia exorcizar todos os seus demônios da forma mais crua o possível. Seu espírito desordeiro tomou conta das sessões de gravação do seminal disco, e terminou com um produtor demitido e o próprio Megadeth assumindo as rédeas da produção. Mas a pobreza da mesma não foi o bastante para ofuscar a transbordante competência de Mustaine e seus comparsas, e o debut ganhou atenção no underground.

O ano de 1986 começou com uma mudança crucial para o quarteto. Insatisfeito com as limitações de sua gravadora, a Combat Records, o grupo encerrou contrato no meio das gravações do segundo trabalho e, em seguida, entrou para o cast da Capitol. Sem demissão de produtores, desta vez; as sessões registradas até aquele momento foram devidamente remixadas por Paul Lani. E o resultado apresentou ao grupo uma banda muito mais entrosada e destruidora que antes.

O amadurecimento pode ser notado, antes de tudo, pelo título do álbum em questão, um recado nada sutil à ONU. Tal aspecto mostra que o conteúdo lírico estava se voltando a críticas sociais, uma das características mais marcantes do Megadeth. Todavia, a mudança mais notável se situa no instrumental. E “Wake Up Dead” é um exemplo perfeito. Com vocalizações sombrias de Dave, rajadas de riffs e complexidade evidente, a faixa prossegue como um dos clássicos atemporais do thrash metal.

E não há descanso. Depois da quebradeira de pescoços proporcionada pela abertura, o massacre continua com a climática “The Conjuring”. Contendo a melhor atuação da dupla Mustaine/Poland no registro, a canção acabou sendo deixada de lado depois da conversão do vocalista e de Ellefson. O motivo? Sua letra contendo instruções de como fazer bruxarias, prática usada pelo primeiro naqueles tempos.

“Peace Sells”, outra faixa marcante, conta com letra crítica e solos excelentes. “Devils Island” já começa propícia para o headbang, e abre alas para “Good Mourning/Black Friday”. Não deixe a introdução te enganar: o peso e a velocidade também comparecem aqui, assim como os arranjos rebuscados. “Bad Omen” é outro brinde ao torcicolo, onde o inevitável destaque vai para a dupla de guitarras e para o frenético Samuelson. Como encerramento, há a dobradinha “I Ain’t Superstitious” e “My Last Words”. A primeira, um cover descontraído do bluesman Willie Dixon, e a última, outra porrada das mais vigorosas.

Os frutos não demoraram a ser colhidos. Em 1987, eles partiram em sua primeira turnê mundial, acompanhados pelo Overkill e pelo Necros nos Estados Unidos. Por outro lado, os problemas internos começavam a beirar o insustentável: Samuelson sofria sucessivas overdoses e Poland chegou a vender equipamento da banda para comprar heroína. A demissão de ambos foi quase instantânea, mas o alicerce do Megadeth continuou firme. Prova disso é a posterior repercussão mundial em 1990 com Rust In Peace, outro disco icônico.

Dave Mustaine (vocais, guitarra)
Chris Poland (guitarra)
David Ellefson (baixo, backing vocals)
Gar Samuelson (bateria)

01. Wake Up Dead
02. The Conjuring
03. Peace Sells
04. Devils Island
05. Good Mourning/Black Friday
06. Bad Omen
07. I Ain’t Superstitious (Willie Dixon cover)
08. My Last Words

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Derrapada: Inocentes – Pânico Em SP

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Fundado em meados de 1981, o Inocentes já nasceu engajado no circuito punk paulista. O então baixista Clemente era conhecido por integrar o lendário Restos de Nada, fato que lhe deu credibilidade para o novo projeto. Eles entrariam na história só pela participação nas essenciais coletâneas Grito Suburbano e SUB, mas quiseram mais.

Após um pequeno hiato, a banda é totalmente reformulada. Clemente, agora guitarrista, passa a ser acompanhado por Ronaldo Passos, André Parlato e Antônio Parlato, o Tonhão. E a sonoridade também não fica incólume: o quarteto não teme represálias por parte dos antigos colegas punks e adota algo próximo do pós-punk. Com isso, acabaram associados a bandas como Ira!, Patife Band e As Mercenárias, o chamado rock paulista.

Mas o atestado definitivo de emancipação da cena punk viria apenas em 1986. Naquele ano, Branco Mello (Titãs) tomou conhecimento da banda e levou uma fita demo para os executivos de sua gravadora, a Warner. Não deu outra: foram contratados e logo começaram a trabalhar em sua estreia. Tudo isso em meio a gritos de “traidores” e “vendidos”.

O resultado foi o mini-LP Pânico Em SP, produzido por Pena Schmidt e pelo próprio Branco Mello. Uma espécie de retrato da capital paulista na década de 80, o debut foi o primeiro registro de uma banda relacionada ao punk lançado por uma grande gravadora. E tais raízes não foram esquecidas. Prova disso é a presença de “(Salvem) El Salvador” e da faixa-título, já gravadas pela banda em outros tempos.

As letras do disquinho merecem um parágrafo a parte. Começando pela clássica “Rotina”, um grito contra o estilo de vida tedioso através do olhar quase paranoico do patriarca. A descrição dos personagens metropolitanos prossegue em “Não Acordem a Cidade”, onde os protagonistas são os viciados e os traficantes, moradores definitivos dos becos. Mas a faixa mais emblemática é guardada para o final: a faixa-título é icônica e quase apocalíptica em sua crítica à mídia, aos policiais e aos governantes.

Sobra espaço, ainda, para manifestos anti-guerra (“Salvem El Salvador”) e referências ao fanatismo religioso islâmico (“Expresso Oriente”). Com um registro compacto, o Inocentes conseguiu resumir todos os medos e os problemas, tanto dos paulistas quanto do mundo todo. E mostrou que a gravadora não fez nada ser suavizado; muito pelo contrário. Obra bem maior do que seus dezenove minutos.

Clemente Nascimento (vocais, guitarra)
Ronaldo Passos (guitarra)
André Parlato (baixo)
Tonhão (bateria)

01. Rotina
02. Ele Disse Não
03. Não Acordem a Cidade
04. Salvem El Salvador
05. Expresso Oriente
06. Pânico Em SP

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Derrapada: Down – NOLA

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Quando o Down foi formado, a ideia dos envolvidos era apenas se reunir para destilar as influências de medalhões como Black Sabbath e Saint Vitus. E as circunstâncias em que a fundação se deu também não contribuíram para que o projeto se tornasse algo mais sério: era 1991, e a carreira do frontman Phil Anselmo ao lado do Pantera ia de vento em popa. Mas, querendo ou não, era um supergrupo que merecia ser ouvido. Afinal, completando o time, havia Pepper Keenan (Corrosion of Conformity), Jimmy Bower (Eyehategod), Todd Strange e Kirk Windstein (ambos do Crowbar).

Até que a retomada das atividades fosse possível, passaram-se quatro anos. Nesse intervalo, eles gravaram uma demo – já sem Todd Strange -, realizaram shows esporádicos e assinaram contrato com a Elektra. Uma vez feito isso, o quarteto entrou em estúdio e gravou tudo o que já havia sido escrito. O resultado foi batizado NOLA, em referência a Nova Orleans e a Louisiana, e impressionou muitos.

Ao se dar play em “Temptation’s Wings”, fica muito claro que o Down não é um mero projeto paralelo. O entrosamento entre os quatro amigos é notável, e é impossível não destacar o trabalho da dupla Keenan e Windstein, bem como a competência de Anselmo no microfone. Ele estava em seu auge, berrando a plenos pulmões suas mágoas, decepções ou, simplesmente, sua vontade de ficar chapado. Não coincidentemente, o final dos anos 90 foi o período mais sombrio do Pantera.

“Lifer” é outra porrada que já possui identidade de clássico. “Pillars of Eternity”, desde seu riff ao seu solo, é uma faixa demolidora. “Rehab” prossegue com a demolição, ainda que tenha atmosfera mais soturna e perceptíveis influências do southern rock. “Underneath Everything”, apesar de seu pessimista conteúdo lírico, tem um refrão assobiável.

A seguinte, “Eyes of the South”, pode começar muito tranquila, mas logo se transforma em outra homenagem ao doom metal tão amado pela banda. Em contrapartida, “Jail” começa e termina em formato acústico e viajante; e não decepciona, absolutamente. “Losing All” traz o baterista Jimmy Bower espancando com vontade seu kit, e “Stone The Crow” é outro momento em que as coisas ficam mais tranquilas. Como destaque final, há “Bury Me In Smoke”, conciliando muito bem agressividade e melodia em seus sete minutos.

A recepção foi calorosa, tanto do público quanto da crítica, e a turnê de promoção foi compacta: treze shows na Louisiana e arredores. Eles só retornariam ao estúdio oito anos depois, saciando o crescente número de fãs. Quanto a estreia, o começo promissor de uma das bandas mais interessantes da atualidade. Merece ser ouvido com muita atenção.


Phil Anselmo (vocais, guitarra em 11)
Kirk Windstein (guitarras, baixo)
Pepper Keenan (guitarras)
Jimmy Bower (bateria)

Músicos adicionais:
Lil’ Daddy (percussão em 5 e 8)
Sid Montz (percussão em 8)
Big Ross (teclados em 8)

01. Temptation’s Wings
02. Lifer
03. Pillars of Eternity
04. Rehab
05. Hail The Leaf
06. Underneath Everything
07. Eyes of the South
08. Jail
09. Losing All
10. Stone The Crow
11. Pray For The Locust
12. Swan Song
13. Bury Me In Smoke

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Derrapada: Wipers – Youth of America

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É difícil encontrar alguém tão entusiasmado com a música quanto Greg Sage. Envolvido com a mesma desde cedo por ser filho de um radialista, ele logo decidiu que gostaria de entrar no ramo. Traçou a ideia minuciosamente: o plano era lançar dez discos num período de quinze anos, sem turnês ou algo do gênero. Isso porque acreditava na música como uma forma de arte, e não mero entretenimento; acreditava que, dissociando música e imagem, a audição seria muito mais profunda.

O Wipers nasceu em 1977, em Portland, Oregon. Sage encontrou como parceiros para a inusitada ideia Dave Koupal e Sam Henry, baixista e baterista, respectivamente. Verificando a época em que se deu a fundação, é fácil imaginar que a banda praticaria punk rock e/ou hardcore. Mas, principalmente nesse aspecto, Greg queria ser diferente. E o que Wipers fez transcendeu ambos os rótulos.

Com o passar do tempo, ficou claro para o mentor do grupo que fazer tudo sozinho – gravar, lançar e distribuir discos – não seria tarefa das mais fáceis. Logo, em 1980, o Wipers estreou pela gravadora Park Avenue com o clássico Is This Real?, que, apesar de trazer alguns dos clichês da época, não foi inserido no mesmo patamar do punk ou do hardcore; e era essa a ideia.

Mais tarde, ficou também decidido que shows seriam indispensáveis se o trio desejasse consolidar sua carreira. Mas, musicalmente falando, as ideias permaneciam intactas, e isso foi o fio condutor do álbum seguinte. Youth of America, gravado com uma nova seção rítmica, soa tal qual um ataque à estrutura veloz e frenética do hardcore. A recepção, de acordo com o próprio Sage, só foi razoável na Europa. E sua influência atingiu, entre outros nomes, o Nirvana e o Sonic Youth intensamente.

Com tracklist curto e duração idem, Youth of America é um registro fora dos padrões. O destaque às guitarras está ali, nítido e sempre presente, mas colocar o piano em junção com os distorcidos e altos riffs é, no mínimo, estranho. No entanto, “Taking Too Long” mostra que a dupla instrumental casou muito bem e, ao mesmo tempo, foi parcialmente ofuscada pelos vocais – ora emotivos, ora desesperados, prenunciando o Fugazi e o Nirvana simultaneamente.

Os riffs se tornariam uma das marcas registradas do Wipers no futuro, e são eles que guiam todas as faixas. A temática das letras oscila entre a raiva e a angústia frequentemente. E há também a clássica rebeldia juvenil, só que mais intensa e menos plastificada, na faixa-título de dez minutos. “No Fair”, outra digna de nota, traz consigo uma tensão que parece acabar apenas quando Sage vocifera os raivosos versos. E “When It’s Over” foi, simplesmente, a escola do Sonic Youth.

Ao fim desse texto, fica apenas uma dúvida: sendo tão influente, por que o Wipers continua tão obscuro? Seja qual for a resposta, o desejo de Greg Sage foi atendido.

Greg Sage (vocais, guitarras, piano)
Brad Davidson (baixo)
Brad Naish (bateria)

01. Taking Too Long
02. Can This Be
03. Pushing The Extreme
04. When It’s Over
05. No Fair
06. Youth of America

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Derrapada: Ty Segall – Twins

Ty Segall - Cover

Não se pode dizer que Ty Segall seja um nome conhecido por aqui. Na realidade, até mesmo em sua terra natal o multi-instrumentista não é tão badalado. Mas isso não muda o fato de ele praticar boa música.

Antes de embarcar em carreira solo, Segall fez parte de algumas bandas de Orange County e da Bay Area, estreando com uma fita cassete em 2008. A atenção da crítica veio com Lemons, o terceiro trabalho, que já apresentava a sonoridade costumeira de outros de seus discos: garage rock barulhento, gravação lo-fi e tempero indie.

Sua rotina de lançamentos foi notavelmente alta desde sempre, mas, a partir de 2012, Ty Segall deu sinais de que se encontrava em seu auge criativo. Naquele ano, lançou dois discos: um com a Ty Segall Band, intitulado Slaughterhouse, e Twins, onde ele toca praticamente tudo. E, ainda que ambos partilhem da mesma base sonora – o garage rock –, possuem algumas diferenças entre si.

Sobre Twins, o sexto disco de sua carreira, Segall afirmou que seu objetivo era provocar um encontro entre o Hawkwind, os Stooges e o Black Sabbath. O resultado, aclamado por publicações como Pitchfork, BBC e NME, foi um disco que parece ter sido feito no auge dos anos 90.

Segall só contou com ajuda de outros instrumentistas em quatro faixas; o resto quem compôs e tocou foi exclusivamente ele. Contudo, o álbum em sua totalidade soa como uma banda completa, com sua parede de guitarras rascantes e bateria urgente. As composições barulhentas, aliás, são constantes: só há uma faixa – a boa “Gold On The Shore” – em que a distorção é substituída pelo pacífico violão.

É notável, também, a psicodelia viajante de alguns momentos de Twins, como em “Inside Your Heart”, “The Hill” e “There Is No Tomorrow”. É uma faceta muito bem-vinda e mostra a versatilidade de Ty, tanto como vocalista quanto como instrumentista. Outros destaques ficam com a mais moderna “Thank God For Sinners”, “You’re The Doctor”, que parece ter saído das garagens de San Francisco na década de 60, o single “Would You Be My Love” e a arrastada “Ghost”.

Para os admiradores de um som descompromissado e desordeiro, aí está uma boa pedida. Twins pode parecer um daqueles discos idolatrados por hipsters tendenciosos, mas esconde um trabalho que homenageia com propriedade os sons de garagem da década de 60.

Ty Segall (todos os instrumentos)

Músicos adicionais:

Brigid Dawson (vocais em 4)
Peter Grimm (vocais em 5 e 11)
Charles Moothart (bateria em 6)

01. Thank God For Sinners
02. You’re The Doctor
03. Inside Your Heart
04. The Hill
05. Would You Be My Love
06. Ghost
07. They Told Me Too
08. Love Fuzz
09. Handglams
10. Who Are You
11. Gold On The Shore
12. There Is No Tomorrow

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Derrapada: Carcass – Necroticism: Descanting The Insalubrious

Front

O trabalho do Carcass como banda apresentou uma notável evolução já nos anos primários dos ingleses. Do imundo goregrind para o protótipo de death metal bastou um ano, por exemplo. Mas isso foi pouco para Jeff Walker e seus companheiros e, já na turnê do clássico Symphonies of Sickness, mais um membro foi efetivado: o guitarrista Michael Amott, ex-Carnage. Seu senso melódico provaria ser essencial para o aprimoramento sonoro do agora quarteto.

Necroticism: Descanting The Insalubrious, grandioso já em seu título, foi gravado no Amazon Studios e manteve a parceria do Carcass com o produtor Colin Richardson. Contudo, as semelhanças com seu antecessor não são uma constante no álbum e por esse motivo acabou desapontando alguns fãs. O Carcass, a partir daquele momento, se firmava como uma das bandas mais técnicas do metal.

A arte da capa exemplifica muito bem o conteúdo lírico pelo qual eles são conhecidos. Mas, aqui, as doentias letras de Jeff Walker tomaram proporções quase científicas, o que deixa claro seu talento para esse tipo de literatura. Outro detalhe importante é que as oito pauladas aqui presentes contêm uma minuciosa descrição de maneiras econômicas de se livrar de cadáveres. Sublime.

Walker e o baterista Ken Owen costumam classificar a música do álbum como progressiva. E os motivos para tal ficam claros em “Inpropagation”, que tem como essência as mudanças rítmicas; vê-se aí a competência de Owen nas baquetas. E, por falar em competência, o que a dupla Bill Steer e Michael Amott faz aqui é simplesmente obra de gênio: metralhadoras incansáveis de riffs técnicos e – acredite – pegajosos. O maior destaque de todo o full length, sem sombra de dúvida.

Em seguida, um dos maiores clássicos dos nativos de Liverpool: a potente “Corporal Jigsore Quandary”. As mudanças de ritmo seguem com a mesma constância, e a faixa tem Walker e Steer dividindo os vocais magistralmente. “Symposium of Sickness” começa com vigorosos blast beats e um riff insano para logo se transformar em uma composição cadenciada e muito bem tocada. Destaco, ainda, “Pedigree Butchery” e “Incarnated Solvent Abuse”, tão boas quanto seus títulos.

Necroticism funcionou como a ponte ideal entre a sujeira de Symphonies of Sickness e a melodia de Heartwork. Mas a banda nunca voltou a gravar uma obra tão equilibrada em sua técnica quanto essa. Essencial para se ficar ciente de toda a competência dos ingleses.

Jeff Walker (vocais, baixo)
Bill Steer (guitarra, vocais adicionais)
Michael Amott (guitarra, vocais adicionais)
Ken Owen (bateria)

01. Inpropagation
02. Corporal Jigsore Quandary
03. Symposium of Sickness
04. Pedigree Butchery
05. Incarnated Solvent Abuse
06. Carneous Cacoffiny
07. Lavaging Expectorate of Lysergide Composition
08. Forensic Clinicism/The Sanguine Article

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