Cabeçote: A entrevista que fez David Donato ser demitido do Black Sabbath

O Black Sabbath estava em frangalhos no ano de 1984. Em uma só tacada, a banda havia perdido o vocalista Ian Gillan, que alegara problemas vocais mas logo se reuniu ao Deep Purple, e o baterista Bev Bevan, que participou do retorno do ELO.

O guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler logo convidaram Bill Ward para voltar ao banco da bateria. Contudo, faltava uma importante figura: a do vocalista.

Desde a saída de Ozzy Osbourne, o Black Sabbath apostou em duas figuras consagradas. Ronnie James Dio tornou-se conhecido no Rainbow, enquanto o já mencionado Ian Gillan foi um dos grandes cantores da década de 1970. Musicalmente, ambos se deram bem no grupo – especialmente Dio, que fez história com o Sabbath -, mas, a longo prazo, não funcionou.

Apesar da imprensa especializada cravar nomes como David Coverdale e Robert Plant para o posto na época, a aposta foi em um completo desconhecido: David Donato. Antes disso, o também pouco notável Ron Keel fez um teste para a vaga, mas não agradou.

Com a escolha de Donato, armou-se o circo para o “novo Sabbath”. O consagrado produtor Bob Ezrin, nome por trás de trabalhos de Alice Cooper, Kiss e Pink Floyd, foi contratado para trabalhar nos ensaios e nas novas composições, que viriam a integrar um disco de inéditas.

Enquanto isso, a banda começou a trabalhar na divulgação da nova line-up. Uma sessão de fotos foi feita e uma entrevista foi concedida à revista Kerrang!, referência no assunto.

Logo depois, David Donato foi demitido. A versão oficial aponta que os músicos não haviam gostado do resultado das sessões com Bob Ezrin. Por fora, diz-se que a entrevista que David Donato concedeu à Kerrang! não agradou à banda. Os integrantes teriam considerado como “horríveis” as declarações do cantor.

Desiludidos, os músicos do Black Sabbath optaram por encerrar suas atividades naquele período. O material das sessões foi todo descartado, com exceção de “No Way Out”, que vazou e hoje pode ser conferida no YouTube. A faixa viria a ser “The Shining”, lançada no álbum “The Eternal Idol”, em 1987.

Cada integrante cuidou de seu respectivo projeto solo. O de Tony Iommi, curiosamente, se transformou no disco “Seventh Star” (1986), lançado com o nome do Sabbath.

David Donato, por sua vez, entrou para o White Tiger, banda montada por Mark St. John após ter sido dispensado do KISS. O projeto durou apenas um disco, se desmanchou e Donato caiu no esquecimento.

Abaixo, segue a entrevista traduzida de David Donato à Kerrang!, em 1984. Em outras palavras: a entrevista que teria custado o emprego do vocalista.

“Never say die” – por Laura Canyon (pseudônimo da jornalista Sylvie Simmons)

“Tenho tentado chegar a algum lugar por 15 anos e venho cantando muito antes disso – tenho colocado minhas aplicações nisto, por todo este tempo, e agora que tenho este emprego, tenho que provar que merecia a chance.”

Ao contrário de seus antecessores, David Donato à banda como um desconhecido.

“Minha opinião é que queriam outro membro para a banda, queriam de novo o sentimento de, ‘ei, vamos ser uma banda’, não uma unidade com um vocalista que fica como, ‘aqui estou eu, lá está a banda’. E foi isto que sempre quis, senão teria lançado uma carreira solo há um bom tempo. Gosto do sentimento de ‘gangue’, ‘aqui estão os caras’. E eles foram ótimos em me fazer sentir desta forma. Deve ficar ainda melhor.”

Dentro e fora de várias bandas, ao longo dos anos, que nunca fizeram sucesos fora de pequenos clubes, David fez seu nome como modelo masculino. “Pelo dinheiro – fiz isto para continuar cantando.” Ele trabalhou para a Playboy e para o programa de TV da Dinah Shore (“tinha o cabelo curto e tudo o mais”), até receber uma ligação da Armageddon, uma banda cujo frontman era Keith Relf, dos Yardbirds. Ele trabalhou com a banda por volta de um mês. “Estavam procurando por um vocalista porque Keith Relf teve uma forte asma e não conseguia seguir por uma música sem sair do palco.”

“Então eu fui até eles, mas nunca me pediram para entrar, só ensaiamos por um mês. Então, Keith Relf se eletrocutou, todos voltaram para a Inglaterra e foi a última coisa que ouvi deles – nunca fizeram mais nada, nem lançaram um disco. O material era datado, mas era meu estilo, um verdadeiro, pesado e velho metal inglês.”

“Então voltei para os trabalhos como modelo, ganhar dinheiro assim e fazer um projeto original, com meu material, e contratar as pessoas, ter o controle. Mas quanto mais você ganha, mais você gasta – então, estive em Palm Springs mais vezes do que pensava. Eventualmente, me enchi de ser modelo. Então voltei e fiz a coisa dos clubes, voltei com a minha voz.”

Após flertar com bandas como Virgin, Hero e Headshaker, David finalmente chegou a um projeto com Glenn Hughes e Mark Norton (Mark St. John), com o nome Dali. O projeto era financiado por um homem rico, dono de várias pinturas caras. Eram composições de David e ele cantou sobre elas.

“Se eu tivesse mantido aquilo junto de Mark, teria sido um supergrupo também.”

Mas tudo deu certo. A fita com as demos do Dali fez com que David entrasse para o Sabs e deu o emprego de Mark Norton ao Kiss. “E Glenn está fazendo um disco solo e o baterista daquela demo vai trabalhar com ele, então foi bom para todos.”

Mas estaria ele no mesmo estilo do restante do Sabbath, musicalmente?

“Sim, completamente. Lembro de dizer a Don (Arden, empresário do Sabbath) que se eu tivesse que pensar em qual das três melhores bandas de todos os tempos eu gostaria de substituir o vocalista, Sabbath provavelmente seria a número um.”

Números dois e três foram Zeppelin e Deep Purple. O rapaz mira alto. Mas sobre o mesmo estilo pessoal, o que dizer de David ser um americano e todos os outros americanos que estiveram na banda, a deixaram embaixo de uma nuvem?

“Nada parece ser um problema ainda. Todos têm sido solidários e há vários apertos de mãos e tapinhas nas costas. A liberdade parece estar ali. Não prevejo problemas e não aconteceu nada até agora.”

Ele vai começar a contribuir com suas músicas se aparecer com as coisas certas, ele diz. E quanto ao material antigo, “eles disseram, ‘temos todos aqueles discos se você precisar’ – mas eu já os tenho. Sei todas as músicas. Não tenho que me esforçar tanto em aprender as minhas músicas favoritas! Fui baterista por vários anos (em uma banda cover), então tocávamos muitas coisas do Black Sabbath quando ‘Paranoid’ era popular.”

Não parece um pouco estranho, ele diz, cantar em uma banda que ele tanto admirava. “Tudo parece estar indo muito bem. Sempre tive uma imagem sobre qual cantor o Sabbath deveria ter – e era eu!”

Veja também: Os cantores “misteriosos” do Black Sabbath (texto por João Renato Alves)

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 7 bandas estigmatizadas pelo rótulo de “hard farofa”

Especialmente para fãs de rock e metal, separar bandas em subgêneros pode facilitar no momento de buscar grupos com sonoridade semelhante às de seus favoritos. E, cá entre nós, não dá para colocar Sonata Arctica e Arch Enemy em uma mesma “prateleira” – embora, obviamente, seja possível gostar de ambos.

No entanto, o conceito de se adequar determinadas bandas a subgêneros pode trazer algumas consequências negativas. Foi o caso das 7 bandas listadas abaixo, que poderiam ser melhor compreendidas e até abrangerem mais fãs se fossem classificadas corretamente entre tantos rótulos.

Todos os nomes abaixo foram julgados, de forma injusta, como bandas de “hard farofa”, glam metal, hair metal e por aí vai. Ainda que alguns grupos listados tenham “sofrido” menos com isto, há de se destacar o estigma que envolve cada membro deste top 7.

Antes de apresentar os escolhidos e os argumentos, destaco que não há problema algum em uma banda ser adepta ao hair metal. Só que, assim como Sonata Arctica e Arch Enemy não estão na mesma “prateleira”, não se deve fazer o mesmo com Twisted Sister e Poison, por exemplo.

Confira, a seguir, 7 bandas estigmatizadas pelo rótulo de “hard farofa”:

Scorpions

O pai dos grupos estigmatizados, não só dentro do chamado “hard oitentista”, mas no rock em geral.

O Scorpions é, para mim, uma das bandas mais abrangentes dentro do hard rock – e não só o segmento oitentista, mas no estilo como um todo. Fãs mais radicais de metal têm um preconceito besta com um dos grupos que, indiretamente, ajudou a arquitetar o estilo que tanto amam.

Para compreender isto, basta dar o play em discos como “In Trance” (1975), “Virgin Killer” (1976) e “Taken by Force” (1977), além do ultra-clássico “Tokyo Tapes” (1978). O que o grupo alemão fez, em especial ao lado de Uli Jon Roth, transcendeu quaisquer barreiras de gênero musical.

Ainda que contestáveis, alguns álbuns lançados após “Crazy World” (1990) mostraram, ainda, uma veia experimental do Scorpions. E, a partir de “Unbreakable” (2004), o grupo passou a apostar em uma mescla de tudo que havia sido feito até então: o melódico dos anos 1980 aliou-se ao rock mais visceral feito na década de 1970 e ganhou pitadas de contemporaneidade.

É verdade que, paulatinamente, o Scorpions fez com que seu som ficasse mais melódico e, talvez, mais comercial ao longo da década de 1980. Entretanto, um período que abrangeu cerca de uma década na carreira de um grupo com mais de 45 anos de estrada é o suficiente para estigmatizá-lo? Não creio que seja este o pensamento correto.

Y&T

Não foi, exatamente, o estigma que impediu um possível estouro comercial do Y&T. A banda californiana não soube se impor dentro de seu próprio cenário e permitiu que o Van Halen fosse o único grupo local a explodir no fim da década de 1970.

Ainda assim, é um desperdício pensar que o Y&T foi relegado ao hair metal – e a um posto secundário, de banda “lado B”. O som praticado pelo grupo vai muito além de “hard farofa” presente em discos mais comerciais, como “In Rock We Trust” (1984) e “Down For The Count” (1985). No geral, o Y&T soa muito mais britânico do que americano – e este é o seu charme.

Entre as bandas de hard rock surgidas no fim dos anos 1970, diria que o Y&T é dona de uma das discografias mais regulares. O grupo nunca esteve entre meus favoritos, mas seus trabalhos são, no geral, irretocáveis.

Quiet Riot

O Quiet Riot teve mais ligações com o glam rock e com o heavy metal do que com a fusão dos dois – o famigerado glam metal. E isto é tão claro em boa parte dos discos que seria leviano limitar a banda do falecido Kevin DuBrow ao “hard farofa”.

Os dois primeiros discos do Quiet Riot lidam, diretamente, com o glam rock popularizado por grupos como Slade, T. Rex, Mott The Hoople e afins. No ótimo “Metal Health”, há uma orientação mais metálica, ainda que as características setentistas tenham sido preservadas.

Os únicos três discos que dialogam com algo semelhante ao hair metal são os três seguintes: o pouco inspirado “Condition Critical” (1984), o quase AOR “QR III” (1986) e o pasteurizado “QR” (1988). Depois disso, o Quiet Riot não flertou mais com o subgênero.

Twisted Sister

Com um visual tão chamativo, é difícil não misturar o Twisted Sister às bandas de hair metal. Entretanto, as próprias raízes do grupo, fincadas na segunda metade da década de 1970.

Nos discos pré-“Stay Hungry” (1984), é possível ver que o Twisted Sister alia um pouco de dois mundos: momentos de influência glam rock ao estilo de Mott The Hoople e Alice Cooper se misturam a um “quê” de heavy metal, com base em trabalhos de Black Sabbath e Judas Priest.

No próprio “Stay Hungry” e no subsequente “Come Out And Play”, as duas influências se dissociaram. As músicas mais metal mostravam isto de forma mais objetiva, enquanto os hits bebiam diretamente do glam rock – e nada além. “Love Is For Suckers”, que seria um disco solo de Dee Snider, é o único de pegada um pouco mais comercial, ainda que tenha quase nada de hair metal.

Great White

O visual do Great White, por vezes, lembrava o de uma banda de hair metal. A sonoridade, no entanto, entrega que o grupo esteve distante de tais raízes.

Ao longo de sua trajetória, o grupo de Los Angeles apostou em uma pegada mais setentista, ainda que existissem algumas músicas mais comerciais. A voz de Jack Russell e o timbre vintage de guitarra de Mark Kendall mostram que a veia dos envolvidos pulsava mais forte por grupos como o Led Zeppelin.

Tesla

Um dos maiores erros possíveis é associar o Tesla ao hair metal. A banda jamais teria essa ligação com o subgênero em questão se tivesse nascido em outra época que não fosse a década de 1980 – e, talvez, nem o mesmo sucesso.

O som do Tesla, quase uniforme ao longo de sua discografia, é um hard rock de pegada mais setentista e, por vezes, bluesy. As letras, de temáticas um pouco mais inteligentes, lembravam pouco as de seus “colegas”. O visual mais sóbrio – exceto pelos mullets – também estava distante do hair metal.

Até mesmo o comportamento diante de aparições públicas era diferente. O quinteto adotou, desde sempre, uma postura mais discreta. O único que, talvez, tenha associado sua imagem a polêmicas tenha sido o guitarrista Tommy Skeoch, que saiu duas vezes da banda devido a problemas com drogas.

Zebra

Talvez a banda menos conhecida da lista, o Zebra só tinha um visual mais atualizado. O restante não tinha nada de hair metal, nem mesmo de oitentista.

Os três primeiros discos do Zebra caminham não só pelo hard rock setentista, mas, também, por uma peculiar veia progressiva. É comum lembrar-se dos momentos mais experimentais do Led Zeppelin ou do Rush enquanto se ouve alguns dos trabalhos do trio.

Na tracklist de seus discos, o Zebra aliava faixas mais curtas a canções consideradas mais longas, de cinco a sete minutos de duração. E até os momentos mais comerciais, como o semi-hit “Tell Me What You Want”, eram arranjados de uma forma distinta.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Quando Pata, do X Japan, reuniu músicos do hard americano

O guitarrista Pata entrou para o X, posteriormente conhecido como X Japan, em 1987, um ano antes do lançamento do primeiro disco do grupo, “Vanishing Vision”. Em cinco anos, a banda se tornou uma das maiores do Japão, com a aposta em uma sonoridade que mescla speed metal a pitadas orquestradas visual kei – uma espécie de resposta ao glam ocidental.

Em 1993, o X Japan lançou “Art Of Life”, mas pouco o promoveu, visto que os membros já estavam dedicados, desde 1992, a projetos solo. Um dos trabalhos mais curiosos foi, justamente, o de Pata, que parece ser o músico mais ligado ao rock ocidental entre todos os seus colegas.

Em sua primeira empreitada solo, Pata montou, praticamente, uma banda de hard rock com influência do blues. Dois discos foram lançados: “Pata”, em 1993, e “Raised On Rock”, em 1995. E para tornar isto realidade, reuniu músicos de currículo pesado (e ocidentais) para o projeto.

Para seu primeiro disco, Pata contou com James Christian (House Of Lords) nos vocais, Tommy Aldridge (Whitesnake, Ozzy Osbourne, House Of Lords e outros) na bateria e colaborações pontuais de músicos como Mike Porcaro e Simon Philips (Toto), Tim Bogert (Cactus, Vanilla Fudge), entre outros.

O músico chegou a fazer uma pequena turnê para divulgar seu primeiro álbum. Levou consigo James Christian e Tommy Aldridge, entre outros músicos, para datas em casas de shows no Japão.

No álbum posterior, “Raised On Rock”, de 1995, Pata fez quase uma franquia oriental do House Of Lords: além de James Christian nos vocais, contou com Chuck Wright (também ex-Quiet Riot) no baixo e Ken Mary na bateria, além de Daisuke Hinata nos teclados. A formação é mais enxugada, visto que não houve tantas participações especiais.

Em ambos os discos, Pata aposta, como dito anteriormente, em um hard rock de influência bluesy, mas que também soava moderno e concatenado com a sonoridade praticada por grandes bandas americanas. Gosto mais do primeiro álbum, de 1993, apesar do segundo ser mais sóbrio em sua produção.

Ambos os trabalhos também alternam entre faixas instrumentais e canções com a voz de James Christian, que é um grande cantor. Nas músicas onde a guitarra de Pata é o destaque, a veia bluesy emerge. Quando Christian está no “comando”, a pegada é mais hard rock.

O X Japan continuou pouco movimentado até o fim de 1995, quando Pata já havia lançado seus dois discos solo. O grupo retornou para divulgar “Dahlia”, já em 1996, e encerrou suas atividades em 1997.

Após o fim do X Japan, Pata seguiu a investir em outros grupos, como o P.A.F., o Ra:IN e o Dope HEADz, mas, na minha opinião, nenhum chega aos pés de sua dupla de álbuns solo, que nunca mais foi revisitada. O X retomou atividades em 2007 e, desde então, não parou mais.

Pata – “Pata” (1993)

01. 6 Hours To Minute
02. East Bound
03. 5 O’ Clock
04. All The Way
05. So Far
06. Road Of Love
07. Little Iron Waltz
08. Story Of A Young Man
09. Psychedelic Jam
10. Positively Unsure
11. Strato Demon

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 4, 6, 8 e 9
Tim Bogert – baixo em 2, 4, 9 e 11
Gerald Johnson – baixo nas faixas 3, 5 e 6
Mike Porcaro – baixo nas faixas 10
Tommy Aldridge – bateria nas faixas 3, 4, 5, 6 e 9
Simon Phillips – bateria nas faixas 2, 10 e 11
Daisuke Hinata – teclados nas faixas 1, 2, 5, 6, 8, 10, 11
Rafael Padilla – percussão nas faixas 5, 8 e 10
Mike Finegen – órgão Hammond nas faixas 2

Ouça:

Pata – “Raised On Rock” (1995)

01. Raised On Rock
02. Weirdo
03. You’re My Everything
04. Silence Before The Storm
05. World Gone Insane
06. Tea For One
07. Fly Away
08. Blues For My Baby
09. Remind You

Pata – guitarra, violão
James Christian – vocal nas faixas 1, 3, 5 e 8
Chuck Wright – baixo
Ken Mary – bateria
Daisuke Hinata – teclados

Ouça:

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Quando Bernie Tormé e Brad Gillis tocaram com Ozzy Osbourne

Ozzy Osbourne contou com dois guitarristas distintos entre o falecimento de Randy Rhoads, em 19 de março de 1982, e a efetivação de Jake E. Lee, já em 1983. O primeiro foi Bernie Tormé (Gillan, Desperado), que integrou o grupo entre o fim de março e o início de abril de 1982. Depois, entrou Brad Gillis (Night Ranger), que ficou de abril a dezembro do mesmo ano.

O período em questão abrangeu duas turnês: a “Diary Of A Madman Tour” e a “Speak Of The Devil Tour”. A primeira ocorreu entre novembro e agosto de 1982 – ou seja, contou com as participações de Randy Rhoads, Bernie Tormé e Brad Gillis em diferentes datas. A segunda abrangeu o período entre dezembro de 1982 e maio de 1983 e, além de Gillis, contou com Jake E. Lee nas guitarras.

O período com Bernie Tormé

Bernie Tormé chegou para “apagar o incêndio”: precisava substituir Randy Rhoads o mais rápido possível. Apesar do falecimento do guitarrista, ainda existiam dezenas de datas da “Diary Of A Madman Tour” a serem cumpridas. Apenas oito shows, de 20 a 30 de março, foram cancelados. Foi o tempo que Ozzy Osbourne e seus músicos encontraram para ensaiar com Bernie e tentarem se recuperar emocionalmente para as apresentações.

Em recente entrevista ao Ultimate Classic Rock, Bernie Tormé relatou ter encontrado um cenário “horrível” ao encontrar Ozzy e seus músicos. “Cheguei em uma quinta-feira e Randy havia falecido no sábado anterior. Não havia passado uma semana. Ninguém falou comigo no dia em que cheguei, exceto Don Airey (tecladista). A atmosfera era terrível, com razão”, afirmou.

Bernie Tormé detalhou como cada músico se sentia com relação ao futuro da banda. “Suponho que, em algum nível, Tommy (Aldridge, baterista) e Don (Airey) queriam seguir em frente. Ozzy (Osbourne) não tinha o menor desejo nisto e Rudy (Sarzo, baixista), certamente, também não”, disse.

Depois de uma audição e três dias de ensaios, os músicos foram para o palco. E Bernie Tormé não se deu bem. O primeiro show de Bernie – no 1° de abril de 1982, em Bethlehem, Estados Unidos – foi, segundo ele, “horrível”. “Não estava com meus amplificadores, nem meus pedais e estava com apenas uma guitarra. Três ou quatro músicas tinham afinações diferentes e eu usei uma péssima guitarra alugada. Além disso, eu não sabia as músicas. Era difícil ouvir algo no palco, com aquele castelo e tudo. Só dava para escutar a caixa da bateria e Ozzy”, afirmou.

Tormé revelou, ainda, que Ozzy Osbourne chorava o tempo todo durante a turnê. “Saía do palco e o via atrás, chorando sem parar. Nos dias de folga, estava sempre fora de si. Ele não estava disposto a superar. Foi um terror, porque sua carreira ficou na m*rda por anos e ele não teve uma vida depois graças a Randy”, disse.

Boicote?

Apesar de relatar apoio da banda e da empresária Sharon Osbourne em continuar no posto de guitarrista, Bernie Tormé disse que estava sendo “boicotado”. “Antes do show no Madison Square Garden, não tive passagem de som. Disseram-me, depois, que a gravadora queria colocar Earl Slick como guitarrista. Fiquei p*to. Estou aqui, levando esses shows adiante, você me pede para ficar e depois faz isto?”, revelou, ainda ao Ultimate Classic Rock.

No fim das contas, Bernie Tormé tocou apenas sete shows e foi substituído por Brad Gillis, também de forma provisória. Eles se conheceram por acidente. “A gravadora americana não queria Brad, mas ele não conseguia agendar uma audição e viajou com a nossa equipe. Em um dia, no café da manhã, o vi com uma guitarra na mesa. Ele sabia todas as músicas e havia visto Randy tocar. ‘Estou aqui porque a gravadora quer que você saia’, ele disse.”

Segundo Bernie, Don Airey era o único que não queria um novo músico. “Eu disse, ‘Don, quero ir para casa e este cara é ótimo, deixe-o fazer um teste’. Já havia dito a Ozzy e Sharon que estava fora, mas ficaria até arrumarem um substituto. Depois, descobri que eles estavam carregando o substituto, mas não o haviam testado”, afirmou, surpreso.

O período com Brad Gillis

Brad Gillis ocupou a vaga de Bernie Tormé de forma quase imediata. O último show de Tormé ocorreu no dia 10 de abril de 1982, enquanto que o primeiro de Gillis aconteceu três dias depois, no dia 13.

O músico do Night Ranger contou, em entrevista concedida à Guitar World no ano de 2013, que havia assistido a um show de Ozzy Osbourne com Randy Rhoads. “Vi Ozzy meses antes de Randy morrer. Diziam que Randy era o próximo Eddie Van Halen, então fui assistir ao show – e ele me impressionou. Estava dirigindo quando ouvi a notícia de que ele havia falecido em um acidente de avião. Lembro de encostar meu caminhão e ficar pensando em como as coisas podem se perder tão facilmente”, afirmou.

Gillis conta que já estava no Night Ranger quando entrou para a banda de Ozzy Osbourne. “Nós do Night Ranger não queríamos tocar muito por aí até termos um contrato e estourarmos. Então, comecei uma banda chamada Alameda All Stars. Tocávamos em pubs e sempre havia algumas músicas de Ozzy no repertório”, disse.

Foi em um desses shows que Brad Gillis foi convidado para se juntar à banda de Ozzy Osbourne. “Após Randy morrer, alguém nos viu tocando e me disseram para tentar uma audição com Ozzy. Pensei, ‘é, claro’, mas esse ‘alguém’ era Preston Thrall (irmão de Pat Thrall, que tocou com Tommy Aldridge na banda de Pat Travers). Dias depois, recebi uma ligação por volta das oito da manhã. Na outra linha, uma mulher dizia, ‘oi, Bradley, aqui é Sharon Arden, empresária de Ozzy Osbourne, e gostaríamos que você viesse até Nova York para um teste'”, afirmou.

Brad contou ter pensado que era um trote, mas que Ozzy Osbourne também conversou com ele e pediu para que aprendesse a tocar 18 músicas. “Tive dois dias para aprender todas as músicas. Ozzy estava com Bernie Tormé como interino e queria me levar para ver alguns shows da turnê. Então, assisti às apresentações e passei quatro dias treinando por 12 horas cada”, disse.

No primeiro show, em Binghamton, Nova York, Brad Gillis cometeu apenas um erro. “Em ‘Revelation (Mother Earth)’, entrei na parte rápida um pouco antes e Ozzy me disparou um olhar mortal”, comentou o guitarrista.

Apesar de estar com Ozzy Osbourne, um superstar já naquela época, Brad Gillis preferiu seguir com o Night Ranger. “Fizemos vários shows e gravamos ‘Speak Of The Devil’, mas não sentia que aquilo era ideal para mim. A banda de Rudy Sarzo, o Quiet Riot, havia conseguido um contrato de uma gravadora naquela época e ele saiu. O Night Ranger também conseguiu um contrato, então rolei os dados e decidi pelo Night Ranger”, afirmou o músico. Vale destacar que Sarzo foi substituído provisoriamente por Pete Way.

Como citado por Brad Gillis, durante seu período com Ozzy Osbourne, ele registrou as guitarras do disco ao vivo “Speak Of The Devil”. O repertório consiste apenas em versões de músicas do Black Sabbath.

Ozzy Osbourne não queria lançar “Speak Of The Devil”. O álbum só foi feito porque ele devia dois discos à Jet Records. Anteriormente à morte de Randy Rhoads, o Madman e seus músicos trabalhavam no disco ao vivo que viria a ser “Tribute”, que acabou sendo engavetado e divulgado somente em 1987.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 15 discos de rock/metal já lançados em 2017 – e o que achei deles

O ano de 2017 começou menos intenso em termos de lançamentos de discos se comparado a 2016. Poucas bandas grandes divulgaram seus trabalhos até então.

Ainda assim, sempre há alguém fazendo um bom trabalho em alguma parte do mundo. Veja, abaixo, o que achei sobre 15 discos de rock/metal lançados no primeiro trimestre de 2017. A lista está organizada em ordem alfabética.

Battle Beast – “Bringer Of Pain”: A imprensa especializada em metal tem criticado este disco por soar um pouco mais hard rock/heavy tradicional que os antecessores. Para mim, este é, justamente, um fator positivo: a pegada power metal deu espaço a um hard melódico, acentuado pelos ótimos vocais de Noora Louhimo. Um dos grandes lançamentos deste primeiro trimestre.

Black Star Riders – “Heavy Fire”: Fui surpreendido logo quando pensei em desistir do Black Star Riders. Os dois discos lançados anteriormente soavam como uma cópia barata do Thin Lizzy. Por pouco, dispensei “Heavy Fire”, mas ainda bem que decidi escutá-lo. Trata-se de um trabalho consistente e mais inventivo, apesar das influências de Phil Lynott seguirem pulsantes por aqui.

Blacktop Mojo – “Burn The Ships”: Uma das surpresas dessa lista. O segundo disco desta banda texana mostra que é possível fazer stoner rock/metal com vocais de qualidade – para muitas bandas, isto parece algo impossível. A pitada southern de algumas faixas é um atrativo extra. Muito bom disco.

Eclipse – “Monumentum”: Já faz algum tempo que o Eclipse tem se destacado com ótimos lançamentos. Ainda que “Monumentum” não garanta tantas surpresas, é um trabalho mais maduro. O hard rock tipicamente escandinavo praticado pela banda sueca tem ganhado cada vez mais consistência. Altamente cantarolável.

Horisont – “About Time”: Com forte influência do rock praticado na década de 1970, o Horisont consegue uma textura empoeirada até na produção de seus discos. “About Time” apresenta esta característica aliada a boas músicas. De tão vintage, chega a soar alternativo. Eu, particularmente, gostei. Apesar de não ter nada inovador por aqui, é um disco atípico para 2017.

House Of Lords – “Saint Of The Lost Souls”: Depois de fazer o mesmo disco várias vezes, James Christian e seus asseclas, enfim, apresentaram algo diferente, apeasr de ainda aquém do que já ofereceram no passado. “Saint Of The Lost Souls”, 11° disco de estúdio do House Of Lords, segue em uma veia melódica, que, por vezes, chega a flertar com o metal. O grande trunfo por aqui é a aposta em arranjos menos tradicionais. Graças a eles, por vezes, até esquecemos o quão ruim é a produção – bateria e teclados soam mais computadorizados que a voz de Sebastian Bach na atual década.

Jack Russell’s Great White – “He Saw It Comin'”: Jack Russell e Great White não combinavam mais. A separação foi a melhor opção para ambos os lados: Russell seguiu em carreira semi-solo (já que ainda usa o nome do ex-grupo), enquanto a banda seguiu com Terry Ilous. Apesar de soar sem inspiração em alguns momentos, “He Saw It Comin'” é o melhor que Jack Russell pode oferecer a esta altura do campeonato: rock de melodias canastronas, instrumentais básicos e bons refrães.

KXM – “Scatterbrain”: Precisamos de mais projetos como o KXM. O hard alternativo feito pelo trio, formado por dUg Pinnick (King’s X), George Lynch (Lynch Mob) e Ray Luzier (Korn) é simplesmente incrível. “Scatterbrain” reafirma o que o disco de estreia, lançado em 2014, havia apresentado: instrumental técnico e arrojado, melodias fora do padrão e performances individuais de cair o queixo.

Mastodon – “Emperor Of Sand”: Tem sido cada vez mais difícil classificar o Mastodon em um subgênero do metal, ou até mesmo do rock. Ainda bem que é assim: mostra que a banda está cada vez mais original. “Emperor Of Sand” é um disco muito contemporâneo que exibe diversas influências – do hard ao progressivo, do heavy tradicional ao groove e por aí vai – em um corpo homogêneo, com melodias grudentas, refrães poderosos e letras que merecem atenção.

One Desire – “One Desire”: Até o momento, a revelação do hard rock neste ano. Músicos de distintas raízes se uniram a este projeto: André Linman já é ligado ao hard rock por meio de sua outra banda, o Sturm und Drang, enquanto o baixista Jonas Kuhlberg tem conexões com o power metal e o guitarrista Jimmy Westerlund já produziu de Good Charlotte a Pitbull. Em seu disco de estreia, o grupo finlandês aposta na vertente mais melódica do hard rock. O diferencial está em Linman, um grande cantor, e nas composições – boa parte tem cara de hit.

Overkill – “The Grinding Wheel”: Uma das bandas mais consistentes do thrash metal, o Overkill lançou seu 18° disco de estúdio com o mesmo vigor dos primeiros. “The Grinding Wheel” reforça a identidade do grupo, que toca thrash metal de pegada mais direta. Graças ao repertório e à ótima produção, pode ser considerado, facilmente, um dos melhores da extensa carreira do Overkill.

Sepultura – “Machine Messiah”: O Sepultura vive um grande momento. Cada disco lançado com Derrick Green mostra um passo adiante em qualidade e inventividade. “Machine Messiah” alia um groove metal muito bem tocado a certa sofisticação, seja pelas letras, pelos vocais menos gritados ou até por momentos orquestrados. O ar levemente experimental e a própria batuta do bom produtor sueco Jens Bogren fizeram com que o quarteto soasse renovado neste disco.

Stephen Pearcy – “Smash”: Pearcy disse, em determinadas entrevistas, que Bobby Blotzer nunca compôs uma nota sequer para os discos do Ratt. No entanto, “Smash” também coloca em prova a capacidade criativa de Stephen. Comparado ao que foi feito com o Ratt, “Smash” é fraquíssimo. A péssima produção só piora: parece ter sido gravado de forma amadora. O repertório não cativa e Pearcy mostra que já não consegue cantar mais, nem com retoques de estúdio.

Tokyo Motor Fist – “Tokyo Motor Fist”: O primeiro disco do supergrupo formado por Ted Poley (Danger Danger), Steve Brown (Trixter), Greg Smith (Alice Cooper, Rainbow) e Chuck Burgi (Rainbow, Blue Öyster Cult) é bem bom. Divertido, ganchudo e repleto de refrães grudentos. Soa como uma continuação de “Revolve”, último disco do Danger Danger, mas com menos teclados. Merecia uma produção melhor, mas ficou bom do jeito que está.

Unruly Child – “Can’t Go Home”: Assim como “Smash”, de Stephen Pearcy”, o novo álbum do Unruly Child é outro disco gravado de forma muito amadora. Compromete o repertório que, se não é genial, ao menos atende à média do AOR contemporâneo. Os teclados de músico que toca em churrascaria barata e os backing vocals quase techno de tão editados tiram o charme de um álbum que poderia ter a sempre imponente voz de Marcie Free como destaque. Em faixas mais clean, como “See If She Floats”, é possível ver o potencial perdido por aqui.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 15 covers de Chuck Berry feitos por grandes artistas

Chuck Berry se foi. O músico faleceu na tarde de sábado (18), aos 90 anos, em sua casa na cidade de St. Charles, nos Estados Unidos.

Não foi em vão que Chuck Berry recebeu a alcunha de “pai do rock n’ roll” por fãs, músicos e jornalistas. Por mais que seja difícil cravar quem realmente criou o rock n’ roll, não seria injusto eleger Berry como o responsável pela popularização de alguns padrões repetidos na história do gênero musical em questão.

O grande trunfo de Chuck Berry foi levar o blues e o R&B de suas raízes negras e colocá-los, em uma versão mais enérgica – o rock n’ roll -, à rotina dos adolescentes. Isto passou não só pela criação do novo gênero musical, mas, também, pela persona de rockstar.

Chuck Berry desenvolveu uma versão mais “suja” e ainda mais dançante do R&B, com forte influência do blues. Além disso, foi Berry quem desenvolveu uma persona típica de estrela do rock, especialmente quando se fala da forma em que se portava nos palcos.

O comportamento explosivo dentro dos palcos também se refletiu fora dele. Chuck Berry teve inúmeros problemas com a lei. Foi Berry quem construiu, involuntariamente, a imagem do “roqueiro transgressor”.

Chuck Berry influenciou os músicos mais importantes do rock em geral. Beatles, Rolling Stones e Beach Boys, três dos maiores nomes surgidos na década de 1960, foram alguns dos grupos que beberam da fonte de Berry. Artistas que vieram depois, como AC/DC e Ted Nugent, entre diversos outros, também citam a importância do músico americano em suas trajetórias.

Com o intuito de mostrar o quão Chuck Berry foi importante, a lista abaixo reúne 15 versões de suas músicas feitas por grandes artistas. E que Berry descanse em paz.

Beatles – “Roll Over Beethoven”

Rolling Stones – “Little Queenie”

Beach Boys – “Rock And Roll Music”

Rod Stewart – “Sweet Little Rock ‘N’ Roller”

Bruce Springsteen – “You Never Can Tell”

Judas Priest – “Johnny B. Goode”

Motörhead – “Let It Rock”

AC/DC – “School Days”

Jerry Lee Lewis – “Sweet Little Sixteen”

Jimi Hendrix – “Johnny B. Goode”

The Yardbirds – “Too Much Monkey Business”

MC5 – “Back In The U.S.A.”

Johnny Winter – “Thirty Days”

David Bowie – “Around And Around”

Elvis Presley – “Johnny B. Goode”

Veja também:

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Ozone Monday, a banda formada das cinzas do Skid Row

Muitos pensam que o Skid Row apenas demitiu Sebastian Bach no meio da década de 1990 e seguiu suas atividades, apesar de tal sequência ter rolado em slow-motion. No entanto, a banda realmente chegou a encerrar suas atividades por três anos, entre 1996 e 1999, após o desligamento de Bach. E, neste período, os instrumentistas montaram uma banda chamada Ozone Monday, com outro vocalista.

Os motivos para a demissão de Sebastian Bach, até hoje, seguem nebulosos. E não é pela ausência de motivos, mas, sim, pelo excesso.

Bach nunca foi um cara fácil de se lidar. Tinha problemas para lidar com seu ego, mesmo não contribuindo em quase nada nas composições, e envolvia-se em brigas com frequência. O cantor chegou a socar o queixo de Jon Bon Jovi, um dos grandes responsáveis por facilitar a caminhada do Skid Row ao sucesso, após uma brincadeira que envolveu um “banho” de farinha e ovo. O vício em drogas e bebidas alcoólicas só agravou as características negativas da personalidade do vocalista.

O fim do Skid Row

Em 1996, um ano após o disco “Subhuman Race” ter sido lançado, Sebastian Bach foi desligado do Skid Row. O cantor alega que a razão da demissão foi uma discussão sobre uma proposta para que abrissem shows da turnê de reunião do KISS.

Sebastian Bach queria fazer as apresentações e chegou a fechar as datas. Rachel Bolan não quis, pois estava trabalhando em um projeto paralelo chamado Prunella Scales, com performances já agendadas no mesmo período.

Para convencer Bach a voltar atrás, alguns integrantes do Skid Row disseram que o grupo já era muito grande para abrir para o KISS. Fã de carteirinha dos mascarados, Bach respondeu que “a banda nunca será grande o bastante para abrir para o KISS” – com palavreado ofensivo no meio, é claro.

As origens do Ozone Monday

Sem Sebastian Bach, os integrantes remanescentes do Skid Row não quiseram dar continuidade à banda, que entrou em uma espécie de hiato. No lugar da consagrada banda de hard rock, nasceu o Ozone Monday.

A formação do Ozone Monday era composta pelos quatro remanescentes do Skid Row – os guitarristas Scotti Hill e Dave “The Snake” Sabo, o baterista Rob Affuso, o baixista Rachel Bolan – e o vocalista Shawn McCabe. O cantor era conhecido por ter integrado o Mars Needs Women, uma banda de rock alternativo que chegou a lançar um disco, “Sparking Ray Gun” (1995), por meio da Warner Records.

O trabalho de estreia do Mars Needs Women fez sucesso moderado e a banda acabou por excursionar com o Cheap Trick. No entanto, o grupo nunca chegou a um patamar de consagração semelhante ao do Skid Row, por exemplo.

Shawn McCabe já era conhecido de Scotti Hill. Na época em que o disco de estreia do Mars Needs Women foi lançado, o cantor e o guitarrista fizeram um projeto paralelo, chamado Chrome Daddy. A banda gravou algumas músicas que só foram lançadas posteriormente em coletâneas do selo independente Main Man Records.

Início e fim

O hiato do Skid Row coincidiu com uma pausa na carreira do Mars Needs Women. McCabe topou unir forças com os demais músicos e a banda começou em grande estilo: abriu shows do KISS (o mundo dá voltas, né?) e do Mötley Crüe antes mesmo de lançar um disco de estúdio.

Apesar de não contar com um álbum lançado, o Ozone Monday apresentava, em seus shows, um repertório completamente autoral. Nada de covers de Skid Row: a ideia era, mesmo, trabalhar em um novo projeto.

Musicalmente, o Ozone Monday se dissociava bastante do hard rock praticado pelo Skid Row. Tratava-se de um projeto orientado ao rock alternativo, com pitadas de pop rock. Na época, os integrantes descreviam o grupo como uma “união entre o Cheap Trick e o Oasis”.

Alguns shows foram feitos, tanto abrindo para KISS e Mötley Crüe quanto em pequenas casas, e um disco de estreia chegou a ser registrado. O trabalho foi produzido por Michael Wagener, que trabalhou com o Skid Row em seu primeiro álbum e em “Slave To The Grind”. Só que o registro, que deveria chegar às prateleiras das lojas em 1999, jamais foi lançado.

Não se sabe o motivo para o disco ter sido engavetado, mas basta dar o play na música abaixo para entender que, provavelmente, nenhuma gravadora aceitou investir grana no Ozone Monday. Além de musicalmente fraca, a banda era bastante genérica.

O Ozone Monday encerrou suas atividades em 1999, já sem Rob Affuso em sua formação. Scotti Hill, Dave “The Snake” Sabo e Rachel Bolan optaram por reformar o Skid Row, com Johnny Solinger nos vocais. Affuso não topou participar do retorno e foi substituído por Charlie Mills, que logo deu lugar a Phil Varone, que tocou no Saigon Kick e, com Bolan, no Prunella Scales.

Já Shawn McCabe assumiu o nome artístico Shawn Mars e voltou a trabalhar com o Mars Needs Women, bem como em outros projetos paralelos. Há diversos registros de sua carreira em seu canal de YouTube.

Neste mesmo período, vale destacar que Sebastian Bach estava mergulhado de cabeça em sua carreira solo. Ele estava com dois músicos da até então antiga banda solo de Ace Frehley – o guitarrista Richie Scarlet e o baterista Anton Fig – gravando um disco solo que, na verdade, nunca chegou a ser lançado. Ele seguiu envolvido em musicais de teatro e turnês até a metade da década seguinte, quando divulgou o álbum “Angel Down”.

Motivos?

Em 2014, o baterista Rob Affuso falou, em entrevista ao Metal Rules, sobre esse conturbado momento de sua vida, que engloba o fim do Skid Row e a concepção do Ozone Monday.

“Foi um período desconfortável. Não estava me dando bem com Sebastian, nem os outros caras. Ele estava muito difícil naquela época e isso forçou os caras a tomarem a decisão de trocar de vocalista. Eu não queria de fato seguir sem Sebastian. Achava que Sebastian era uma parte integral do Skid Row, tal como Rachel e Snake, porque eles compunham muito da música”, disse.

Ele afirmou, ainda, que não se sentia bem com o Ozone Monday. “Não estava convencido sobre a música que estávamos tocando, eu não estava convencido de que o vocalista [Shawn McCabe] era a escolha certa. Não que ele fosse ruim, ele era bom, mas eu não estava convencido de que ele fosse o vocalista certo. Perdi minha paixão por música. Foi aí que a banda e eu nos separamos, não estava mais interessado no que estávamos fazendo”, completou.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Em SP, Ace Frehley faz show recomendado especialmente para fãs

Ace Frehley @ Tom Brasil, São Paulo (SP), 05/03/2017

O jornalismo sempre busca a isenção, mas há situações na vida em que se torna difícil separar razão e emoção. E como praticar jornalismo consiste em contar histórias reais, por vezes, também é difícil dissociar olhares crítico e de admirador.

O segmento musical do jornalismo, felizmente, permite que o emocional se sobressaia em algumas ocasiões. Digo isto porque a resenha a seguir, sobre o show que Ace Frehley fez no Tom Brasil, em São Paulo, no último domingo (5), pode não fazer sentido para quem não admirava o músico ou sua ex-banda, o Kiss, previamente.

A única apresentação de Ace Frehley no Brasil em sua curta turnê sul-americana teve um caráter emocional peculiar, em meu ver, pois Ace é notável por ter sido alguém que poderia ter oferecido (ainda) mais à música. Seus anos de hiato poderiam ter sido complementados com bons discos e turnês. Contudo, o errático guitarrista e ocasional vocalista se rendeu aos seus vícios (ou foi rendido por eles) em diversas ocasiões, o que lhe custou o posto de integrante do Kiss nas décadas de 1980 e 2000.

Mas vê-lo se apresentando ao vivo, no alto de seus 65 anos – e pela primeira vez em carreira solo no Brasil -, faz compensar o comportamento errático de outrora. Ace parece estar disposto a compensar o tempo perdido. E o show feito em São Paulo, para um cheio, mas não lotado Tom Brasil, demonstrou isto, mesmo com alguns erros técnicos a serem destacados.

A performance começou com poucos minutos de atraso, após as caixas de som rodarem a tape de “Fractured Mirror”, faixa que encerra o disco solo de Ace Frehley lançado em 1978. A abertura ficou a cargo de “Rip It Out”, do mesmo álbum, diferente dos shows anteriores, que o show se abria com “Parasite”. Afiada, a banda apresentou suas credenciais: além de Ace nos vocais e guitarra, a apresentação contou com o veterano Richie Scarlet (guitarra e vocais) e os competentes Chris Wyse (baixo e vocais) e Scot Coogan (bateria). Todos tocaram essa música muito bem.

Na sequência, Ace e sua trupe apresentaram “Toys”, do disco autoral mais recente (“Space Invader”, de 2014), e “Parasite”, clássico do Kiss composto por Frehley. O cover da banda mascarada ficou notavelmente lento, apesar de ter sido bem tocado. “Snowblind”, a seguir, sofreu com o mesmo problema, mas a plateia reagiu bem mesmo assim.

“Love Gun”, com Scot Coogan mandando muito bem nos vocais, e “Rocket Ride” levantaram a galera, enquanto a autobiográfica “Rock Soldiers” chamou a atenção por sua boa execução instrumental. Na sequência, Chris Wyse fez um solo de baixo que valeu pela dedicação – ele tocou trechos de “N.I.B.” (Black Sabbath) e “God Of Thunder” (Kiss) para animar o público -, mas era dispensável neste show.

Wyse assumiu os vocais na pesada “Strange Ways”, que embolou um pouco no instrumental, mas nada que comprometesse. Afinal, trata-se de uma baita música que praticamente nunca foi tocada ao vivo pelo Kiss. Em seguida, Ace apareceu com sua guitarra repleta de dispositivos de luz para “New York Groove”, original do Hello e regravada em seu disco solo de 1978. Um dos poucos momentos de maior interação promovido por Frehley, que deixou o público cantar o refrão antes do solo final.

“2 Young 2 Die”, com o empolgado Richie Scarlet nos vocais, foi dedicada à memória de Eric Carr, falecido ex-baterista do Kiss que era próximo a Ace Frehley. O Spaceman ainda duelou em solos de guitarra com Scarlet antes de seu grande momento, em “Shock Me”, uma das mais aguardadas pelo público. Na sequência, Ace fez seu tradicional solo com a guitarra disparando fumaça pelo captador. Se falta primor técnico, sobra impacto histórico – bastou que ele mostrasse o instrumento “em chamas” para que a plateia delirasse.

Para encerrar o show regulamentar, outro clássico: “Cold Gin”, também com bastante interação com o público – Ace deixou de cantar os versos para permitir que as vozes dos presentes ecoassem. O bis contou com uma boa versão de “Detroit Rock City” com Scot Coogan nos vocais e a arrasa-quarteirão “Deuce”, de volta para onde tudo começou, pois foi a primeira música que Frehley tocou com o Kiss.

Ace, até hoje, não está acostumado com a figura de frontman. Pouco interage com o público e, por vezes, se confunde ao cantar e direciona sua voz para longe do microfone, ou “capa” notas e acordes na guitarra. Richie Scarlet também erra nas seis cordas pelo excesso de empolgação. Scot Coogan toca corretamente, mas desacelerou em músicas importantes. Chris Wyse, tecnicamente, não parece ter cometido nenhum erro.

Entretanto, ninguém parece ter se importado com essas pequenas falhas, justamente pela importância emocional que esta apresentação teve para boa parte dos presentes. Eu, particularmente, não liguei – e curti muito o show. Ace e seus asseclas soaram como banda e escolheram o repertório com maestria.

Por tudo isto, foi um show para fãs que reconhecem Ace por seu legado. Quem esteve lá para ouvir o eterno Spaceman de peito aberto, sem ligar para possíveis erros de execução, saiu bastante satisfeito da casa de shows. Foi o meu caso.

Ace Frehley (vocal e guitarra)
Richie Scarlet (guitarra e vocal)
Chris Wyse (baixo e vocal)
Scot Coogan (bateria e vocal)

01. Rip It Out
02. Toys
03. Parasite
04. Snowblind
05. Love Gun
06. Rocket Ride
07. Rock Soldiers
08. Solo de baixo + Strange Ways
09. New York Groove
10. 2 Young 2 Die + solos de guitarra
11. Shock Me + solo de guitarra
12. Cold Gin

Bis:
13. Detroit Rock City
14. Deuce

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Widowmaker, o projeto de Dee Snider que poderia ter dado certo

Dee Snider não estava dando certo com o Twisted Sister desde a metade da década de 1980. O período foi marcado pela fraca repercussão de “Come Out And Play”, lançado em 1985, e o “caso PMRC”, onde Snider foi um dos únicos músicos que chegaram a depor em tribunal contra a ação da Parents Music Resource Center, que buscava censurar álbuns de pop e rock com conteúdo considerado subversivo.

Os bastidores do Twisted Sister não iam bem e Dee Snider começou a trabalhar em um disco solo já entre 1986 e o início de 1987. Por pressão da Atlantic Records, o material foi lançado sob a alcunha da banda e se tornou o último trabalho da discografia composto 100% por músicas inéditas: “Love Is For Suckers”.

Desperado

Ao fim de 1987, Dee Snider pediu demissão do Twisted Sister – e, obviamente, a banda chegou ao fim, visto que Snider, além de vocalista, era o único compositor e a principal imagem. Em 1988, ele começou a trabalhar em um projeto chamado Desperado, com o baterista Clive Burr (ex-Iron Maiden), o guitarrista Bernie Torme (Gillan, Ozzy Osbourne) e o baixista Marc Russel.

Desacreditado pela indústria fonográfica em geral, Dee Snider não conseguiu fazer com que o Desperado conseguisse lançar seu único disco, “Ace”. O grupo conseguiu um contrato com a Elektra, mas quando o trabalho já estava gravado e prestes a ser lançado, os diretores da companhia decidiram engavetá-lo. As músicas chegaram a ser pirateadas até serem divulgadas, oficialmente, no álbum “Bloodied, But Unbowed”, em 1996.

Dee Snider definhava. Sem conseguir retornar, no auge do sucesso do hard rock nos Estados Unidos, o vocalista se manteve recluso entre 1989 e 1990. Enquanto isso, só aumentavam os problemas financeiros que Snider já acumulava anos antes, especialmente após ter que bancar a existência do Despertado.

Nova chance

Eis que, em 1991, Dee Snider ganhou mais uma chance. O produtor Ric Wake apostou no vocalista e o convidou para lançar um novo disco pela Esquire Records, com distribuição da ainda tímida CMC International. O voto de confiança veio, justamente, quando o hard rock e o heavy metal começavam a cair em popularidade, após a chegada do grunge e do rock alternativo.

As más notícias não param por aí: Bernie Torme teve problemas no pulmão e não conseguiu participar do projeto. Clive Burr já estava fora. A banda foi reformada com o guitarrista Al Pitrelli, recém-saído do grupo de Alice Cooper, e o baterista Joe Franco, que tocou em “Love Is For Suckers” e era grande amigo de Snider. Apenas o desconhecido baixista Marc Russel foi mantido.

Widowmaker

O novo projeto foi batizado sob a “bênção” do baixista Bob Daisley: Widowmaker. Daisley teve uma banda com esse nome no passado e Dee Snider resolveu perguntar a ele se poderia utilizar tal alcunha. “Não dou a mínima. Ferramos com tudo mesmo!”, disse Bob.

Algumas músicas presentes no primeiro disco do Widowmaker, “Blood And Bullets” (1992), foram reaproveitadas do trabalho feito com o Desperado. Outras canções, por sua vez, eram realmente novas.

Ao ouvir “Blood And Bullets”, é inegável que havia uma química entre os envolvidos – até maior que no Desperado. O primeiro trabalho do Widowmaker transita na linha tênue entre o hard rock e o heavy metal. É ganchudo e pesado ao mesmo tempo.

A PMRC voltou a incomodar Dee Snider graças à capa de “Blood And Bullets”, considerada subversiva. Depois de discutir com Ric Wake, Snider foi obrigado a concordar com o acréscimo do selo “Parental Advisory” no álbum – algo que, diga-se de passagem, Dee Snider lutou contra anos atrás. O aviso era opcional, contudo, várias lojas de discos se recusavam a vender material que estava na lista da PMRC sem que houvesse o alerta na arte frontal.

Apesar das ótimas músicas e até do polêmico selo – que, sim, chamava a atenção -, “Blood And Bullets” foi, inicialmente, ignorado pelo público. A banda precisou passar alguns meses na estrada para que o álbum, lançado sob um selo independente e com distribuição pífia, fosse melhor divulgado. Vale destacar, inclusive, que a primeira turnê do Widowmaker foi, também, a primeira de Snider em cinco anos. Desde 1987, o cantor não pisava em um palco.

Dificuldade

Com o tempo, “Blood And Bullets” teve 50 mil cópias vendidas. Contudo, quando as coisas pareciam melhorar, a Esquire Records fechou as portas ao fim de 1992 e a viabilidade do Widowmaker caiu por terra.

Neste momento, Dee Snider beirava a miséria. Estava completamente no vermelho, pois não havia conseguido quitar suas dívidas passadas. Ele havia vendido a sua casa entre 1989 e 1990, mas a grana precisou ser direcionada para outros fins. Snider, sua esposa e seus três filhos estavam próximos de ficar sem teto.

Ainda assim, o Widowmaker encontrou forças para continuar e, em 1994, o segundo disco da banda foi lançado. Intitulado “Stand By For The Pain”, o álbum tem uma proposta musical muito diferente de seu antecessor. O mergulho no rock/metal alternativo é notório. As músicas são boas, mas não há o mesmo charme de “Blood And Bullets”.

A tentativa de entrar na patota do alternativo não deu certo – ainda mais porque “Stand By For The Pain” também foi lançado de forma independente, pela Deadline Records – e o grupo chegou ao fim ainda em 1994.

A retomada de Dee

A situação financeira de Dee Snider só veio a melhorar nos anos seguintes, mas o cantor não parou de trabalhar. Um projeto inusitado foi responsável por sanar os débitos de Snider: uma canção natalina que ele compôs para Celine Dion. Mas a cantora sequer soube que a canção era de autoria de Dee. “Não conte que Satã escreveu uma canção de Natal”, disse ele ao produtor Ric Wake.

Ele chegou a lançar um filme, intitulado “Strangeland”, em 1998, além de ter se envovlido com programas de rádio e composição de trilhas sonoras. O Twisted Sister, por sua vez, teve três reuniões imediatas, nos anos de 1997, 2001 e 2002, mas voltou de vez à atividade em 2003.

É inegável que o Widowmaker acabou chegando tarde demais. Provavelmente, um retorno do Twisted Sister teria sido adiado se o grupo paralelo de Dee Snider tivesse vida mais longa – e caso as dívidas não tivessem assolado a vida do cantor.

Em recente entrevista, o baterista Joe Franco chegou a dizer que os discos que fez com o Widowmaker são os melhores de sua carreira. E olha que ele trabalhou com o Twisted Sister em “Love Is For Suckers” e em projetos futuros de Dee Snider.

O Widowmaker tinha todos os predicados para dar certo. Infelizmente, não rendeu. Hoje, seus álbuns permanecem com um status cult.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: E se Kurt Cobain ainda estivesse vivo?

Kurt Cobain, frontman do Nirvana, faria 50 anos nesta segunda-feira (20). Sua trajetória foi interrompida de forma brusca quando ele tinha apenas 27 anos: em 5 de abril de 1994, ele se matou com um tiro de espingarda.

Percebo que não há, exatamente, uma boa vontade em reconhecer o legado de Kurt Cobain por parte do público fã de rock. Esse sentimento aumenta quando falo daqueles ligados a gêneros como o hard rock e o metal, considerados mais “tradicionais”.

A rejeição é, de certa forma, natural. O Nirvana é creditado não só por ter capitaneado a explosão comercial do grunge, no início da década de 1990, como, também, por ter “matado” o segmento oitentista do hard rock e algumas ramificações do heavy metal. Já compactuei deste sentimento.

Contudo, tal atribuição é injusta. No mesmo ano em que “Nevermind” (1991) foi lançado, o “Black Album”, do Metallica, fez um enorme sucesso, o Guns N’ Roses seguiu sua trajetória de êxito com a turnê de “Use Your Illusion” e o Skid Row alçava voos ainda maiores com “Slave To The Grind”. Em 1992, trabalhos lendários como “Vulgar Dispaly Of Power” (Pantera), “Countdown To Extinction” (Megadeth) e “Keep The Faith” (Bon Jovi) chegavam a público.

Kurt Cobain liderou um movimento que, como todos os outros existentes na música, foi cíclico. Os distintos excessos da década de 1980 foram substituídos por certo minimalismo nos anos 1990. É desonesto enxergar o grunge como algo alheio à música: o hard rock presente no som do Pearl Jam e do Soundgarden, as influências metal do Alice In Chains e a sonoridade punk a-la Stooges do Nirvana mostram que o segmento não surgiu do nada. E isto só citando as quatro bandas mais famosas.

Reflexões a parte, como seria se Kurt Cobain não tivesse decidido acabar com sua própria vida em 5 de abril de 1994? E se ele ainda estivesse vivo para completar o seu 50° aniversário?

Trata-se, obviamente, de exercício de imaginação. Não só porque substitui o que realmente aconteceu, mas também porque, mesmo se excluíssemos o fato de 5 de abril de 1994, é quase impossível imaginar em Kurt Cobain vivo em 2017. Ele teria cometido suicídio ou falecido sob outras circunstâncias nos anos seguintes.

Quem teve a oportunidade de ler um pouco sobre Kurt Cobain, sabe que o músico teve uma adolescência problemática. O problema teve início quando seus pais se divorciaram quando ele tinha apenas 9 anos. Na sequência, o futuro rockstar não soube lidar com suas novas “famílias”: o pai se casou com outra mulher e teve um filho mais novo, de quem Kurt sentia ciúmes. Já a mãe começou a namorar um homem que abusava dela. A violência doméstica rolava na frente de Kurt.

A partir de sua adolescência, Kurt Cobain foi visto como um degenerado por onde passava. Não conseguiu se graduar no colégio e acabou expulso de casa por sua mãe. Chegou a morar debaixo de uma ponte.

O cenário estimulou a construção de um sujeito degenerado, com problemas psicológicos que nunca foram tratados – pelo contrário, foram potencializados com a fama. O vício em drogas e o comportamento errático se tornaram as marcas de Cobain até o fim de sua vida.

Ainda assim, como mero exercício de imaginação, vale imaginar o que teria acontecido se Kurt Cobain conseguisse sobreviver. Para que Cobain continuasse vivo, muitas coisas teriam que mudar, inclusive dentro dele próprio. O Kurt porra-louca já não poderia existir mais em determinado momento a partir da segunda metade da década de 1990.

Não dá para imaginar, por exemplo, o Nirvana com uma sobrevida sem o Kurt porra-louca. A sinceridade é o principal charme das músicas de Cobain, que nunca foi um instrumentista técnico ou um letrista de autorias complexas. Quando ele deixasse de ter experiências intensas para retratar em suas canções, o que restaria?

Há quem especule que ele poderia acabar brigado com Dave Grohl. Duvido muito, mas, sem dúvidas, Grohl não ficaria no Nirvana por muito tempo. O desejo de Dave em capitanear um projeto com suas próprias composições já era explícito desde os tempos ao lado de Kurt.

Por tudo isto, não imagino o Nirvana como um projeto duradouro a longo prazo, mesmo se Kurt Cobain ainda estivesse vivo. Creio que Kurt se envolveria com trabalhos de teor mais experimental. Basicamente, seria impulsionado por grupos que ele mesmo influenciou, como o Radiohead.

Sem o devido tratamento clínico, Kurt Cobain jamais seria capaz de aceitar o sucesso. Isto afetaria a sua produtividade e o tornaria, inevitavelmente, recluso. Turnês gigantescas e lançamentos pomposos não fariam parte da rotina de Cobain.

Ainda assim, creio que Kurt Cobain permaneceria como alguém relevante na música. Teria um destino próximo ao de Lou Reed em seus últimos anos. Mas deve-se considerar: é tudo exercício de imaginação. Definitivamente, Kurt não estaria vivo hoje se continuasse da forma em que se encontrava na década de 1990.

Veja também:
10 bandas importantes com menos de 10 discos lançados
Ouça a bateria isolada de Dave Grohl no Nirvana, Foo Fighters e QOTSA
15 bons discos de hard rock da 2ª metade da década de 1990
Kurt Cobain chegou a ouvir Foo Fighters e deu beijo em Dave Grohl

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: O melhor e o pior relacionado ao rock no Grammy 2017

Aconteceu, no último domingo (12), a 59ª cerimônia do Grammy Awards, premiação que é considerada a mais importante da música. O rock ocupa papel secundário no evento, é verdade, mas houve o que comentar com relação ao gênero musical em questão.

Neste ano, a Recording Academy, que promove o Grammy Awards, corrigiu alguns erros históricos com dois nomes de impacto no rock. Um deles é, inclusive, ligado ao metal.

O primeiro foi David Bowie. Falecido em 2016, o músico foi homenageado ao ganhar cinco prêmios, nas categorias “Melhor performance de rock”, “Melhor música de rock”, “Melhor disco de música alternativa”, “Melhor pacote de gravação” e “Melhor produção de disco não-clássico”. Os últimos dois são compartilhados com outros profissionais.

É verdade que o reconhecimento a David Bowie foi justo, tanto pelo disco “Blackstar” quanto pela música que dá nome ao álbum. Mas precisava esperar tanto tempo para reconhecer um dos maiores nomes da música contemporânea? Eu acho que não.

Digo isto porque, até então, David Bowie só tinha um Grammy, de “Melhor videoclipe”, por “Jazzin’ for Blue Jean”, conquistado na década de 1980. E o agravante é que esta não é uma categoria especificamente musical.

É sintomático: espera-se o artista morrer para que ele receba o seu devido valor. Isto acontece não só em premiações, mas com reconhecimento por parte da imprensa e de alguns segmentos do público.

O segundo erro histórico corrigido foi com o Megadeth. Após 12 indicações e nenhuma vitória, a banda de Dave Mustaine conquistou, enfim, o Grammy de “Melhor performance metal”, categoria pela qual havia disputado por nove vezes anteriormente. A música “Dystopia” foi a premiada.

Também é um momento justo para reconhecer o Megadeth. O grupo tem conseguido se manter relevante e o álbum “Dystopia” mostra isto muito bem. A entrada do guitarrista Kiko Loureiro deu sangue novo à banda e Dave Mustaine – que, além de frontman, é o principal compositor – parece ser criativamente insaciável, pois raramente decepciona em seus lançamentos.

Como no caso de David Bowie, o reconhecimento ao Megadeth também poderia ter vindo antes, em especial, durante sua fase considerada mais “clássica”, na década de 1990. As várias indicações sem prêmios acabaram por virar motivo de chacota com o tempo.

Ainda sobre Megadeth, vale a pena relembrar a gafe cometida pela organização do Grammy. Quando a banda foi anunciada como vencedora da categoria “Melhor performance metal”, começou a rolar a música “Master Of Puppets”, do Metallica.

Por mais que Dave Mustaine não pareça mais ter sentimentos negativos relacionados ao Metallica, a situação também virou motivo de piada nas redes sociais. Faltou cuidado, mas essa cautela não parece existir durante todo o tempo: de forma aleatória, um dos prêmios de David Bowie foi anunciado ao som de The Who. Duvido que falariam o nome de Katy Perry ao som de Taylor Swift ou vice-versa.

O prêmio de “Melhor disco de rock” foi conquistado por “Tell Me I’m Pretty”, do Cage The Elephant. Um trabalho que mal obteve repercussão em seu próprio segmento foi agraciado com a honraria e deixou bons registros, como “Magma” (Gojira) e “California” (Blink-182), para trás. Um pouco estranho.

O prêmio direcionado a “Eight Days A Week The Touring Years”, documentário sobre a época em que os Beatles faziam turnês, foi uma surpresa. O registro superou “Lemonade”, de Beyoncé, e foi reconhecido na categoria “Melhor filme musical”.

O único show com menção direta ao rock – e, neste caso, também o metal – foi, em meu ver, um desastre. Metallica e Lady Gaga se juntaram para tocar a música “Moth Into Flame”.

Praticamente nada deu certo. O microfone de James Hetfield não funcionou por metade da apresentação e, aparentemente, havia um problema de retorno em cima do palco, pois faltou sincronia entre as guitarras de Hetfield e Kirk Hammett em parte da performance.

Lady Gaga, por sua vez, forçou a barra e acabou ficando deslocada. Além dos vocais exagerados, das opções equivocadas de tonalidade e do rebolado deslocado, a performance geral de Gaga reforçou o estereótipo de “metaleiro doidão”, que passa o show inteiro se contorcendo sem a menor consonância com a música que rola nas caixas de som. Por ser a artista fenomenal que é, poderia ter preparado algo melhor.

Outras duas performances fizeram menção indireta ao rock: as homenagens a George Michael e Prince, que são artistas considerados pop, mas flertaram com o estilo em diversas ocasiões.

A homenagem a George Michael, morto em dezembro de 2016, foi uma catástrofe. Enquanto cantava “Fastlove”, Adele se perdeu em tonalidade e até ritmo. Precisou pedir para começar de novo e, ainda assim, a situação não melhorou muito.

A própria opção por tal performance soou um pouco equivocada. Parecia um velório. Havia uma melancolia excessiva, que contrastava com as imagens felizes do sempre empolgado George Michael ao fundo do palco. Até isto deve ter afetado Adele psicologicamente, pois a cantora estava visivelmente emocionada.

Já o tributo que The Time, Morris Day e Bruno Mars fizeram a Prince foi adequado à proposta do artista, morto em abril de 2016. Houve maior preparo e até tempo para que a homenagem fosse feita – quase dez minutos divididos entre as duas performances.

Inicialmente, The Time e Morris Day tocaram “Jungle Love” e “The Bird”, em uma apresentação sem defeitos. Bruno Mars elevou o patamar ao aparecer vestido de Prince e com a guitarra signature do falecido músico. Com sua banda, tocou “Let’s Get Crazy” e ainda arriscou solos de guitarra.

No geral, em comparação a outros anos, o Grammy de 2017 deu maior destaque ao rock. Só é incrível pensar que tantas gafes e situações curiosas tenham ocorrido justamente quando o gênero estava em evidência.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Obrigado por tudo, Black Sabbath

O Black Sabbath chegou ao fim. A última apresentação da turnê de despedida do grupo, “The End”, ocorreu no último sábado (4), na Genting Arena, em Birmingham, Inglaterra.

(Foto: Ross Halfin / divulgação)

A escolha do local foi estratégica: o show derradeiro do grupo ocorreu na mesma cidade onde tudo começou. Foi em Birmingham que o guitarrista Tony Iommi e o baterista Bill Ward deram início ao Black Sabbath, que começou como um projeto de blues rock, chamado de Polka Tulk Blues Band.

Iommi e Ward convocaram o baixista Geezer Butler e o vocalista Ozzy Osbourne para a banda, que mudou de nome para Earth. O grupo quase não foi para frente, pois Tony – logo ele, que foi o único membro constante do Black Sabbath em quase 50 anos – abandonou a formação para integrar o Jethro Tull. Ainda bem que ficou ao lado de Ian Anderson por apenas dois meses.

Em 1969, o Earth se tornou Black Sabbath e gravou seu primeiro disco, autointitulado. Dá para dizer que, antes deste álbum, o heavy metal existia. Grupos como Cream, Steppenwolf, Iron Butterfly e Blue Cheer praticavam uma sonoridade pesada e intensa, como o gênero em questão pede. Mas foi o Sabbath quem estabeleceu as regras para a fundação de um dos estilos musicais mais venerados do mundo.

Em quase 50 anos, foram lançados 19 discos de estúdio, com mais de 70 milhões de cópias vendidas mundialmente – deste montante, 8 milhões somente nos anos 1970, mesmo sem apoio de rádios e críticos especializados. Contudo, mais importante que o sucesso comercial, deve-se reconhecer o legado que o Black Sabbath deixa.

Musicalmente, além de pioneiro em um estilo musical, o Black Sabbath influenciou centenas de bandas que vieram logo após. Todos os grandes nomes do heavy metal têm um quê de Sabbath: de Judas Priest a Metallica, de Iron Maiden a Slipknot, de Sepultura a Queens Of The Stone Age, dos nomes surgidos na década de 1970 aos grupos que nasceram nos últimos anos, seja de qualquer subgênero do metal ou de segmentos mais pesados do rock. É indissociável.

A simplicidade presente em sua música inovadora também é notável na personalidade de seus integrantes. Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward não nasceram em berços de ouro: vieram de famílias de operários e conquistaram seu espaço de forma orgânica, com trabalho, talento e, por que não, um pouco de sorte.

Isto se refletiu em praticamente toda a carreira do Black Sabbath, mesmo com os períodos de excessos, e até mesmo em seu fim. Apesar de ter contado com uma turnê que girou por todo o planeta, o Black Sabbath não teve uma despedida exibicionista.

O grupo poderia ter convidado nomes consagrados para aparições em shows e ter feito uma mega performance de encerramento em Londres, ao invés de Birmingham. Mas a opção pela cidade natal em um “adeus” honesto revela um pouco sobre os envolvidos. Apenas lamento que Bill Ward não tenha participado de algum momento desta turnê. Uma banda que passou por tantas mudanças na formação, infelizmente, acabou com uma rusga ainda pendente.

O Black Sabbath ainda pode voltar para shows esporádicos, em ocasiões especiais ou até mesmo para um disco de inéditas. Mas, infelizmente, a condição de saúde de Tony Iommi, que há anos enfrenta um linfoma, pode não permitir que isto aconteça.

Independente se haverá alguma reunião esporádica para um show isolado ou para um novo álbum, o Black Sabbath da forma que conhecemos chegou ao fim. Resta-nos seguir desfrutando da obra que Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward fizeram juntos, bem como os trabalhos feitos ao lado de Geoff Nicholls, Ronnie James Dio, Tony Martin, Vinny Appice, Ian Gillan, Bev Bevan, Eric Singer, Cozy Powell, Glenn Hughes, Bob Daisley, Ray Gillen, Dave Spitz, Neil Murray, Laurence Cottle, Brad Wilk, Tommy Clufetos, Don Airey e Bobby Rondinelli.

É muito provável que o Black Sabbath ainda seja lembrado daqui a 50 anos. E isto é o maior mérito que um trabalho artístico pode conquistar. Obrigado por tudo, Black Sabbath.

Igor Miranda é jornalista e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.