Cabeçote: 10 bandas importantes com menos de 10 discos lançados

No rock e no metal, quantidade nem sempre é sinônimo de bom serviço prestado. Há bandas clássicas que lançaram poucos discos, mas em um número suficiente para que fizessem história.

Com o auxílio da implacável memória do editor do site, João Renato Alves, a coluna separa 10 bandas importantes que lançaram menos de uma dezena de álbuns. Foram considerados apenas grupos que já encerraram suas atividades, para que a lista não seja “desmentida”.

Free

Apesar de ter feito história, o Free foi, de certa forma, uma banda juvenil. Os mais velhos – o baterista Simon Kirke e o vocalista Paul Rodgers – tinham 19 anos quando o grupo se formou. O mais jovem, o baixista Andy Fraser, ainda tinha 16.

Naturalmente, o grupo não durou por muito tempo. Eles existiram de 1968 a 1971, romperam e voltaram entre 1972 e 1973. Em ambos os períodos, foram registrados seis discos de estúdio.

O último foi “Heartbreaker”, de 1973. A banda acabou no mesmo ano. Dois anos depois, a morte de Paul Kossoff, vítima de uma embolia pulmonar agradava pelo uso de drogas, eliminou qualquer possibilidade de reunião.

Alice Cooper (a banda)

A banda Alice Cooper existiu até 1975, quando o vocalista, Alice Cooper, decidiu embarcar em uma gloriosa carreira solo. Enquanto grupo, foram lançados seis discos.

O último é o básico e ótimo “Muscle Of Love”, que chegou a público em 1973. Apesar do bom resultado, as sessões de gravação foram complicadas e o registro não foi bem em vendas. Em uma pausa nos trabalhos, Alice agiu e conseguiu se lançar como artista solo.

Os demais músicos se juntaram e formaram o Billion Dollar Babies, que não vingou. Um único trabalho, “Battle Axe”, foi lançado em 1977 e, obviamente, não integra a discografia da banda Alice Cooper.

The Doors

O The Doors até tentou continuar após a morte de Jim Morrison, em 1971, mas não deu certo. Capitaneado por Ray Manzarek, o grupo lançou três discos – o último, “An American Player”, é de 1978 e conta com fragmentos de vozes gravados por Morrison. Com o falecido vocalista, são seis álbuns. No total, há nove registros de inéditas no catálogo do Doors.

Led Zeppelin

O último disco concretamente lançado pelo Led Zeppelin foi “In Through The Out Door”, de 1979. O oitavo álbum da banda já refletia os problemas pelos quais os envolvidos passavam nos bastidores. Musicalmente, é mais fraco que seus antecessores, apesar de ter a genialidade do grupo presente em algumas faixas.

O baterista John Bonham morreu em 1980 e, em 1982, a coleção de faixas inéditas “Coda” foi lançada. O nono disco do grupo é considerado como parte da discografia. Desde então, o Led Zeppelin nunca mais lançou um álbum de estúdio, apesar de Robert Plant e Jimmy Page terem trabalhado juntos na década de 1990.

Nirvana

O trágico fim do Nirvana, com o suicídio de Kurt Cobain em 1994, impediu que o grupo lançasse mais discos de estúdio. Ao total, foram apenas três trabalhos. O último foi “In Utero”, de 1993.

Dire Straits

O Dire Straits fez história no rock com apenas seis discos de inéditas em seu catálogo. O último é “On Every Street”, lançado em 1991, após a reunião do grupo, que havia encerrado suas atividades em 1988.

A reunião durou até 1995 e, desde então, os envolvidos se dissociaram. O frontman Mark Knopfler se destacou com uma prolífica carreira solo – atualmente, com oito discos em seu catálogo desde 1996.

Pantera

Notável por ter contado com duas fases – a hard rock e a metal -, o Pantera acumula nove discos de estúdio se considerados ambos os períodos. Com a época “farofa” descartada, são cinco trabalhos de inéditas no total.

O último é “Reinventing The Steel”, lançado em 2000. O grupo acabou em 2003 e, em dezembro do ano seguite, Dimebag Darrell foi morto durante um show de sua outra banda, o Damageplan. Como Phil Anselmo e Vinnie Paul se odeiam e a possibilidade de contar com outro músico no lugar de Darrell tem sido frequentemente rechaçada, a chance de uma reunião sem Darrell é mínima.

Eagles

A morte de Glenn Frey deu fim ao Eagles em 2016. Contudo, dificilmente a banda lançaria um disco após “Long Road Out Of Even”, de 2007.

No total, o Eagles lançou sete discos de estúdio. Apesar de todos eles terem obtido sucesso em vendas, especialmente o platinado “Hotel California”, o álbum de maior sucesso do grupo é uma coletânea: “Their Greatest Hits (1971-1975)”, de 1976. O best of, claro, não é contabilizado na conta dos sete trabalhos mencionados.

Twisted Sister

O Twisted Sister encerrou suas atividades em 2016, após a morte do baterista A.J. Pero e de uma turnê, feita em homenagem ao músico, com Mike Portnoy no lugar dele. Contudo, o grupo já havia abdicado de gravar novidades há algum tempo.

Sete álbuns integram a discografia de estúdio do Twisted Sister. Cinco deles, lançados na década de 1980. “Still Hungry”, de 2004, e “A Twisted Christmas”, de 2006, completam a lista.

Há quem nem considere “A Twisted Christmas” como parte da discografia de estúdio, por contar com adaptações de músicas de Natal. Mas não faz diferença: com ou sem ele, o Twisted Sister não chega à dezena em seu catálogo.

The Black Crowes

Apesar de ser a banda com mais chances de se reunir no futuro, o Black Crowes acabou. Então, está na lista.

O grupo encerrou suas atividades em 2015, após desentendimentos entre os irmãos Chris e Rich Robinson. Durante os anos de existência da banda, foram lançados oito discos de estúdio. O último foi o bom “Before the Frost… Until the Freeze”, de 2009.

Cabeçote: Os produtivos últimos meses de David Bowie

O fim de David Bowie foi cercado por coincidências no que diz respeito a datas. Ele faleceu em 10 de janeiro de 2016, dois dias depois de seu aniversário e de ter lançado seu último álbum, “Blackstar”.

Graças a esta infeliz coincidência de datas, a obra de David Bowie tem sido celebrada, nos últimos dias, com diferentes tipos de tributos. Seja pelo primeiro aniversário de morte ou pelos 70 anos que o Camaleão comemoraria.

Um desses tributos, feito pela gravadora Columbia Records, é o EP “No Plan”, que apresenta três músicas inéditas de David Bowie, gravadas durante as sessões de “Blackstar”. Elas estão presentes na trilha sonora do musical “Lazarus”, dirigido por Ivo van Hove. Trata-se de uma amostra do que o Camaleão poderia ter feito se o destino tivesse lhe permitido viver um pouco mais.

O produtor Tony Visconti havia revelado, em entrevista concedida dias após o falecimento, que David Bowie sabia, desde novembro de 2015, que seu câncer era terminal. A notícia veio, inclusive, no fim de semana em que Bowie gravava as cenas para o clipe da música “Lazarus”. Contudo, mesmo em suas últimas semanas, o cantor falava em gravar uma sequência para “Blackstar”.

O tempo e o destino foram implacáveis para David Bowie – muito devido a seus abusos ao longo dos anos. Ele sentiu dores no peito em 25 de junho de 2004, enquanto se apresentava em um festival na Alemanha. Foi diagnosticada uma obstrução em uma artéria e ele precisou fazer uma angioplastia. Tudo isso enquanto ele tinha apenas 57 anos.

Desde então, David Bowie não se apresentou mais ao vivo. Já não havia mais vontade, nem ritmo para tal. Foram somente algumas participações, em shows de Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys, entre 2005 e 2006. Depois disso, deu adeus, em definitivo, aos palcos – e, de certa forma, tentou se despedir da música, apesar de não ter conseguido. Optou por aproveitar um pouco do que havia conquistado em seus anos anteriores, bem como curtir a família.

Bowie só voltou a trabalhar em algo na década seguinte, ao lançar “The Next Day”, em 2013. E, segundo relatos, seus últimos 18 meses de vida foram muito produtivos.

Sabia-se do câncer de pulmão desde meados de julho de 2014. Foi aí que David Bowie decidiu que retomaria o nível de suas produções. “Blackstar” foi gravado entre janeiro e abril de 2015, com o melhor material produzido por Bowie no período anterior, entre os últimos meses de 2014.

As primeiras demos foram entregues ao saxofonista de jazz Donny McCaslin, ao invés de qualquer outro músico de rock. O material evoluiu e as sessões de gravação ocorriam entre 11h e 16h, três vezes por semana. A saúde de David Bowie ainda não havia sido deteriorada, mas o ritmo de trabalho era um pouco menos intenso.

Após o fim da produção de “Blackstar”, David Bowie começou a trabalhar no musical “Lazarus”. As três faixas inéditas de “No Plan”, inclusive, aparecem na trilha sonora da peça, que também reúne uma série de clássicos gravados pelo músico em sua carreira.

Durante os ensaios para “Lazarus”, David Bowie manteve a sua classe. Esteve presente em boa parte dos compromissos relacionados e não reclamou de sua doença em nenhum momento, segundo relatos. Além disso, optou por não fazer nenhuma intervenção ao trabalho de direção de Ivo van Hove. Assim como o disco, tudo era feito em segredo.

Ivo sabia da doença de Bowie desde novembro de 2014, quando o próprio cantor o contou, dizendo, ainda, que não sabia se sobreviveria até a conclusão do projeto. Acabou por viver até a estreia, em dezembro de 2015.

Quando David Bowie não estava bem, simplesmente se afastava, tanto durante a produção do disco quanto do musical. Não se forçava a trabalhar demais. Somente os envolvidos sabiam do problema. Ainda assim, especialmente no período em que a peça era ensaiada – Bowie já estava mais debilitado na época -, o cantor fez o possível para participar de todos os eventos relacionados.

A noite de abertura de “Lazarus” ocorreu em 7 de dezembro de 2015, em Nova York. Foi a última aparição pública de David Bowie. A saúde do cantor já definhava, mas a aparência seguia impecável.

Entre os ensaios e a estreia do musical, David Bowie gravou dois videoclipes para promover “Blackstar”. O primeiro foi feito para a faixa que dá nome ao disco: um vídeo surrealista, dirigido por Johan Renck – o diretor de “The Last Panthers”, série para a qual a canção foi feita. Com seu senso multiartístico apurado, Bowie deu diversas sugestões para Renck durante o processo.

Em novembro, o segundo clipe foi gravado. “Lazarus”, também com direção de Johan Renck, é encarado como uma espécie de despedida por parte de David Bowie. Como dito anteriormente, na semana das filmagens, ele soube que seu câncer era terminal. Mesmo que nas entrelinhas, as cenas e a estética do vídeo transmitem a ideia de “adeus”.

John Renck nega tal hipótese. Ele disse, em recente entrevista para um documentário feito pela BBC, que o clipe de “Lazarus” não foi pensado como uma despedida. “Para mim, tem relação com o aspecto bíblico, com o homem que voltaria a renascer. Não tem nada a ver com a doença”, afirmou. Apesar disso, ganhou tais ares – com justiça. Basta assistir para entender o porquê.

Cada clipe tomou apenas cinco horas de um dia para ser gravado. Era o que a saúde de David Bowie suportava.

Em janeiro de 2016, vieram à tona o clipe de “Lazarus” (o outro vídeo havia sido lançado em novembro) de 2015, o álbum “Blackstar” e a morte de David Bowie. Mesmo com toda a tristeza que cerca este período, há de se destacar que seu adeus foi um dos mais elegantes da história da música.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Previsões e especulações sobre o rock/metal em 2017

No mundo da música, o ano de 2016 ficou marcado por ter sido ruim em geral, devido às mortes de impacto. Todavia, bons discos foram lançados e ótimos shows aconteceram no Brasil.

Em 2017, é provável que voltemos a ter bons discos de bandas de renome nas prateleiras. No metal, o maior destaque é “Machine Messiah”, do Sepultura, que sai em 13 de janeiro. “Gods Of Violence”, do Kreator (27 de janeiro) e “The Grinding Wheel”, do Overkill (10 de fevereiro), também merece atenção.

O cardápio é um pouco mais amplo no hard/classic rock. Além de “Infinite”, do Deep Purple (7 de abril), lançamentos de Gotthard (“Silver”, 13 de janeiro), Black Star Riders (“Heavy Fire”, 3 de fevereiro) e Steel Panther (“Lower The Bar”, 24 de fevereiro) estarão disponíveis para o público logo mais.

Entre as bandas que devem lançar material em 2017, mas ainda sem data marcada, estão Accept, Alice in Chains, Five Finger Death Punch, Iced Earth, Judas Priest, Mastodon, Queens Of The Stone Age, Saxon, Soundgarden e System Of A Down, entre outros. Já o aguardado disco do Guns N’ Roses com Slash e Duff McKagan não deve sair tão cedo, visto que a banda, provavelmente, passará o ano todo na estrada.

No que diz respeito a shows, enquanto 2016 começou com apresentações de grande porte no Brasil, de nomes como Iron Maiden e Rolling Stones, o ano de 2017 será um pouco mais tímido neste aspecto. As performances de maior destaque confirmadas até agora são as de Ace Frehley (março), Korn e Opeth (ambos em abril) e King Diamond (junho), além dos festivais Lollapalooza (março), Maximus (maio) e Rock In Rio (setembro).

Quanto às despedidas, apenas a do Black Sabbath, até o momento, ocorre em 2017. O Aerosmith anunciou que sairá de cena, mas só depois de alguns anos. Mesmo cenário do Deep Purple, que ainda não confirmou a aposentadoria.

Por fim, entre os retornos especulados, o único que parecia ter algum fundamento era o do Skid Row. Todavia, semanas depois de ter revelado que existiam negociações, Sebastian Bach afirmou que o retorno subiu no telhado.

Resta-nos esperar por um 2017 mais movimentado para bons assuntos. Que a seção de Obituário fique parada por um tempo.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: Os 10 melhores discos de rock/metal de 2016, por Igor Miranda

No âmbito dos lançamentos, 2016 foi um ano repleto de discos nota 7. Não é novidade que bandas novas se destacaram em meio aos veteranos preguiçosos, todavia, neste ano, nem mesmo aqueles projetos novatos com sangue nos olhos fizeram trabalhos de grande impacto.

Ainda assim, foi difícil montar este top 10, especialmente a partir da 6ª posição. Há, pelo menos, 15 álbuns em minha playlist particular que poderiam ocupar os cinco lugares restantes. E, como toda lista, este levantamento pode sofrer mudanças com o tempo.

Selecionei, abaixo, os meus 10 discos preferidos, de rock/metal, lançados em 2016. E, para quebrar o protocolo dos anos anteriores, desta vez os coloquei em ordem de preferência.

10. The Treatment – “Generation Me”

O terceiro disco desta banda britânica é tão bom quanto (ou até melhor que) seus antecessores. O repertório excelente destaca a perfeita união entre duas vertentes do hard rock: a timbragem e a pegada visceral da década de 1970 e o approach melódico dos grupos oitentistas.

09. Glenn Hughes – “Resonate”

Glenn Hughes é daquele tipo de artista que, mesmo com uma discografia extensa, não lançou um álbum verdadeiramente ruim até hoje. Desde 2008, ele não fazia um trabalho solo – passou os últimos anos envolvido com o Black Country Communion e o California Breed. “Resonate” marca o retorno de Hughes às suas concepções particulares com uma dose extra de fúria: o disco é mais pesado e chega a flertar com o metal em alguns momentos, apesar do funky hard rock dar a tônica.

08. The Chris Robinson Brotherhood – “Anyway You Love, We Know How You Feel”

O Black Crowes acabou de vez em 2015 e os irmãos Robinson caminharam para projetos solo. Enquanto “Flux”, de Rich Ronbinson, teve uma proposta mais convencional, “Anyway You Love, We Know How You Feel”, do Chris Robinson Brotherhood, foi mais ousado. Aliou elementos do blues, country e até da soul music ao seu empoeirado rock setentista.

07. Wolfmother – “Victorious

O Wolfmother foi outra banda que se superou em 2016. “Victorious” está, para mim, no mesmo nível do disco de estreia, lançado há 11 anos. Com uma quantidade maior de singles em potencial, esse trabalho é mais melódico e grudento que o antecessor “New Crown” (2014) – algo em que o grupo de Andrew Stockdale, realmente, precisava trabalhar mais.

06. Volbeat – “Seal The Deal & Let’s Boogie”

O Volbeat já é uma banda grande. E não poderia decepcionar em seu sexto disco de estúdio. “Seal The Deal & Let’s Boogie” mostrou uma faceta menos metal e mais criativa do grupo, que apostou no groove, no hard rock e até no rockabilly em algumas faixas. Para mim, é o melhor trabalho do grupo.

05. The Dead Daisies – “Make Some Noise

“Metamorfose ambulante” descreve o The Dead Daisies. Com tantas mudanças em sua formação – o guitarrista rítmico e milionário David Lowy é o único membro original -, a banda ainda consegue soar bem. Também pudera: com John Corabi, Doug Aldrich, Marco Mendoza e Brian Tichy, seria difícil não conseguir tal feito. “Make Some Noise” representa a caminhada do Dead Daisies em um hard rock cada vez mais grosseiro, com guitarras na linha de frente e inspirações setentistas.

04. Last In Line – “Heavy Crown

Idealizado como um projeto caça-níquel, o Last In Line evoluiu ao aceitar gravar um disco de estúdio. A formação reuniu os músicos do line-up original do Dio (Vivian Campbell, Vinny Appice e Jimmy Bain, falecido antes do lançamento do álbum) ao vocalista Andrew Freeman. O resultado não poderia ter sido melhor: um disco legítimo de heavy metal, com vocais imponentes, instrumental poderoso e sem tantas referências ao passado com Dio. Há elementos do hard rock, ainda que tímidos, e do doom metal, mais pulsantes, que temperam ainda mais o bom som do grupo.

03. Hell In The Club – “Shadow Of The Monster

A turma dos subgêneros do metal continua nos dando bons discos de… hard rock. Caso do Hell In The Club, formado por integrantes do Elvenking e Secret Sphere. “Shadow Of The Monster” é o melhor trabalho da banda italiana e um dos melhores que ouvi neste ano. Aqui, o grupo pratica um hard n’ heavy de padrão oitentista, mas sem os exageros da época. Tem refrão ganchudo, riff cortante e trabalho de criação apurado. Sem encheção de linguiça.

02. The Defiants – “The Defiants”

O destino (chamado Serafino Perugino, presidente da Frontiers Records) quis que membros do Danger Danger se reunissem. No disco de estreia do The Defiants, Paul Laine, Bruno Ravel e Rob Marcello fizeram, juntos, o trabalho que o DD deveria ter feito com 10 anos de Laine nos vocais. O hard rock de tempero AOR praticado pelo quarteto, completo por Van Romaine, não é necessariamente inovador, mas impressiona pelo repertório de ótimo gosto.

01. Megadeth – “Dystopia

Soube, desde janeiro, que “Dystopia” seria o melhor disco de 2016. Dave Mustaine e David Ellefson formaram um grande time ao lado de Kiko Loureiro e Chris Adler e ofereceram um dos melhores trabalhos do Megadeth. Não é exagero: bate de frente com outros registros aclamados, como “Endgame” e até os clássicos da década de 1990.

Outros 10 trabalhos que poderiam esta nesta lista (em ordem alfabética):

Alter Bridge – “The Last Hero“: Aqui, a banda está mais preocupada com a melodia, a ponto de soar mais comercial. O que, para mim, é bom.

Avenged Sevenfold – “The Stage“: Este disco retoma a identidade criativa do grupo com um ingrediente a mais: experiência. A banda se mostra menos virtuosa e mais robusta em “The Stage”.

DeWolff – “Roux-Ga-Roux”: O sexto trabalho do DeWolff em oito anos apresenta, novamente, o rock de pegada psicodélica e bluesy, com o hammond organ na linha de frente, que consagrou o grupo na Holanda. Mas falta algo mais para atingir o resto do mundo.

Inglorious – “Inglorious“: Com exceção de alguns momentos de inconstância, o disco de estreia do Inglorious é muito bom. Muito graças à imponente voz de Nathan Jones, no melhor estilo David Coverdale.

Metallica – “Hardwired…To Self-Destruct“: O Metallica lançou um ótimo meio disco. A primeira metade deste álbum é excepcional. A segunda parte é arrastada demais e soa deslocada. Não fosse isso, estaria, facilmente, em meu top 10.

Monster Truck – “Sittin’ Heavy”: O heavy rock distinto do Monster Truck ganhou ares levemente comerciais, graças à ótima produção e o bom repertório aliado aos talentos individuais dos envolvidos.

Opeth – “Sorceress“: O melhor disco do Opeth, em minha opinião. A aposta, aqui, é em um híbrido perfeito entre rock e metal progressivo, com pitadas retrô e momentos instrumentais pontuais de pegada experimental.

The Cadillac Three – “Bury Me In My Boots”: O hype em torno do Blackberry Smoke deixou de ter motivo com o The Cadillac Three. “Bury Me In My Boots” tem um southern/country rock de pegada enérgica e composições caprichadas.

The Pretty Reckless – “Who You Selling For”: O Pretty Reckless atingiu a maioridade com “Who You Selling For”, atingiu a maioridade. Agora, o grupo pratica um hard rock de influências gloriosas, de Rolling Stones a Runaways, mas com um frescor contemporâneo legítimo.

Zakk Wylde – “Book Of Shadows II”: Esperava mais da sequência de “Book Of Shadows”. Wylde perdeu a mão em composições e solos leves – “frita” até no violão. Ainda assim, o southern rock de pitadas folk deste registro proporciona bons momentos.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: Uma retrospectiva do bizarro ano de 2016 no rock/metal

A morte de Lemmy Kilmister em 28 de dezembro de 2015 parecia um presságio sobre o que viria no ano seguinte. E, realmente, foi um anúncio prévio: 2016 foi estranho. Para o bem e para o mal.

Mal nos recuperamos da ida de Lemmy e outra morte de impacto nos pegou de surpresa: o falecimento de David Bowie, em 10 de janeiro. Ele se foi aos 69 anos, vítima de um câncer de fígado, dois dias após lançar seu 25° disco de estúdio, “Blackstar”.

Dias antes, em 4 de janeiro, algo igualmente estranho, mas com teor positivo, foi anunciado publicamente: o retorno de Slash e Duff McKagan ao Guns N’ Roses. A situação se desenhava desde 2015 e os rumores da volta eram fortes, mas a informação só se concretizou em 2016.

Ainda em janeiro, no dia 22, ocorreu outro fato incrivelmente negativo: durante o Dimebash 2016, Phil Anselmo fez uma saudação nazista, com o braço direito erguido, e gritou “Poder branco”, como um membro do KKK. Ele tentou se justificar, mas só piorou: disse que estava sob influência de “vinho branco”. O texto mais acessado da coluna Cabeçote no ano falou, justamente, sobre o assunto (Leia: O heavy metal não é apenas racista, é intolerante no geral).

No mesmo dia do gesto racista de Phil Anselmo, era lançado “Dystopia”, o primeiro disco do Megadeth com Kiko Loureiro nas guitarras. A entrada de Kiko à banda também foi algo inusitado. Não por seu talento, mas pela ocasião, visto que músicos brasileiros raramente conseguem um destaque internacional tão considerável quanto ele conseguiu. E Loureiro fez bonito: “Dystopia” é um dos grandes álbuns do ano.

Janeiro se fechou com outro falecimento: Jimmy Bain, que estava com a banda Last In Line, se foi em 23 de janeiro, aos 68 anos, durante o cruzeiro do Def Leppard. A causa da morte foi um câncer no pulmão até então desconhecido.

Fevereiro foi um mês mais calmo, mas março veio com força, com a informação de que Brian Johnson estava com sérios problemas de audição. O cantor poderia ficar surdo caso continuasse a turnê de “Rock Or Bust” com o AC/DC. Ele acabou sendo afastado pelo grupo e substituído por Axl Rose nas datas remanescentes. O futuro da banda ainda é indefinido.

O tecladista Keith Emerson também morreu em março, mais especificamente no dia 11, aos 71 anos. Descobriu-se, posteriormente, que o músico havia cometido suicídio. Ele também sofria de problemas cardíacos e depressão associada ao alcoolismo. As questões emocionais de Emerson estavam diretamente relacionados à sua saúde física: lesões nos nervos o impediam de tocar em plena forma, o que o fez entrar em estado profundo de tristeza.

O obituário voltou a trabalhar com intensidade em abril, com a morte de Prince. Um dos grandes revolucionários da música pop, que flertou com o rock em distintos momentos de sua carreira, morreu no dia 21, aos 57 anos, vítima de uma overdose de opioides.

Ainda em abril, Axl Rose foi, enfim, oficializado no AC/DC, após semanas de especulação. Ele fez 23 shows com a banda, na Europa e nos Estados Unidos.

Em maio, Ozzy Osbourne ocupou os noticiários de fofoca. O motivo? O cantor terminou seu relacionamento com Sharon Osbourne, após traí-la com uma cabeleireira. Chegou a ser dado como desaparecido por um dia pela imprensa internacional, mas logo ressurgiu. Ao longo dos meses, reconciliou-se com a sua amada.

Outro assunto ligado a relacionamentos tomou os tabloides no fim de maio: Amber Heard acusou o ator e músico Johnny Depp de agredí-la física e verbalmente. O caso foi tratado paralelamente ao pedido de divórcio, entretanto, o casal chegou a um acordo – Heard recebeu US$ 7 milhões de Depp para dar fim à situação.

Ainda em maio, o obituário movimentou-se com a morte do baterista Nick Menza, aos 51 anos. Ele sofreu um ataque cardíaco durante um show de sua banda, OHM, em Los Angeles. Paul Di’Anno quase foi junto: o cantor foi hospitalizado e precisou cancelar uma turnê que faria no Brasil. Blaze Bayley, com quem Di’Anno excursionaria, disse que o colega estava com câncer no sistema linfático e problemas no joelho e nos quadris.

Junho foi o mês de alguns sustos. O principal foi a isquemia cerebral sofrida por Ian Paice. O músico foi rapidamente tratado e conseguiu se recuperar sem problemas. Joey Jordison revelou, também, que sua saída do Slipknot esteve relacionada a problemas de saúde. O caso ocorreu em 2013, mas só foi revelado ao público em 2016, no mês em questão. Ele sofreu com a mielite transversa, uma forma de esclerose múltipla.

Outro susto, já não relacionado (diretamente) à saúde, foi o fim do Aerosmith. Especulações alimentavam essa teoria, entretanto, foi em junho de 2016 que Steven Tyler afirmou que a banda acabaria – meses antes de uma turnê na América Latina, inclusive. A informação seguiu sem confirmação até novembro deste ano, quando uma turnê de despedida foi divulgada pelo grupo.

Ainda em junho, o Led Zeppelin venceu o julgamento sobre as acusações de plágio em “Stairway To Heaven”. Representantes da banda Spirit afirmavam que a banda havia roubado trechos da música “Taurus” para a lendária composição. O caso chegou ao tribunal, entretanto, Robert Plant e Jimmy Page, compositores da canção, venceram.

Julho, mês de férias escolares, também marcou um recesso nas bombas no mundo rock/metal. A volta do Temple of the Dog, com direito a shows sold-out, foi a informação daquele momento.

Em agosto, o Metallica foi divulgado como headliner do… Lollapalooza Brasil 2017. A atração pesada em um festival alternativo gerou reações mistas nas redes sociais, mas as camisas pretas vão acabar lotando o evento.

No mesmo mês, um holograma de Ronnie James Dio foi exibido durante o show do Dio Disciples, no Wacken Open Air. E o mais ridículo foi anunciado: a reprodução da imagem vai fazer uma turnê. Caça-níquel, não?

Setembro nos deu uma folga para duas polêmicas em outubro. A primeira ocorreu após uma declaração de Jonathan Davis, que afirmou que o Sepultura, em “Roots”, copiou o Korn. Os irmãos Cavalera, que antes reconheciam a “super-influência”, passaram a dizer, em entrevistas, que não era bem assim. Também em outubro, Bob Dylan foi nomeado para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Ele sequer compareceu à cerimônia.

Em novembro, chamaram a atenção a mega-turnê do Guns N’ Roses pelo Brasil, com Slash e Duff McKagan na formação e a reunião do Helloween, com Michael Kiske, Kai Hansen e os demais integrantes do grupo, cujo primeiro show será em São Paulo, no ano de 2017. O novo disco do Metallica, “Hardwired…To Self-Destruct” – o primeiro de inéditas desde “Death Magnetic”, de 2008 -, também conquistou as manchetes do segmento.

Dezembro ainda não acabou, mas trouxe alguns fatos-bomba. E o obituário se movimentou novamente, com o falecimento de Greg Lake, no dia 7, aos 69 anos. Ele sofria de um câncer não especificado. Resta-nos torcer para que Tony Iommi não tenha o mesmo destino tão cedo: ele luta contra um linfoma, mas, também neste mês, um caroço surgiu na garganta do guitarrista. Ele fará uma operação para removê-lo e ainda não se sabe se é cancerígeno ou não.

Neste mês, o Deep Purple anunciou a “The Long Goodbye Tour”, que promove o seu próximo disco, “inFinite”. O nome indica que esta será a última turnê do grupo, entretanto, a informação não foi confirmada oficialmente até o momento.

Se o Deep Purple sai de cena, o Skid Row volta à tona. Sebastian Bach revelou, em recente entrevista, que o retorno da banda com sua formação clássica está em negociação. Tão inesperado quanto o retorno do Guns N’ Roses – que aconteceu no inusitado 2016.

O ano ainda não acabou e temo que notícias inesperadas e tristes nos acometam até o dia 31. Todavia, falecimentos de músicos e despedidas de bandas mostram, mais uma vez, que os dinossauros do gênero estão indo. A “reposição” acontece em ritmo lento, graças a todos os envolvidos – grupos, engravatados e, principalmente, fãs. Independente disto, que 2017 seja um ano melhor.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: A história do disco blues de Mick Jagger que jamais foi lançado

“Blue & Lonesome”, disco dos Rolling Stones com releituras de clássicos do blues, reforçou a conexão que a banda tem com o tradicional gênero musical. Entretanto, não foi a primeira experiência de um dos integrantes do grupo com um projeto do tipo.

Em 1992, Mick Jagger trabalhou em um disco de releituras de clássicos do blues. Na época, ele contou com a colaboração do produtor Rick Rubin para tirar o projeto do papel.

A ideia

Mick Jagger pensava em gravar um álbum do tipo desde agosto de 1990, com o fim da turnê que divulgava o álbum “Steel Wheels” (1989). Entretanto, ele já trabalhava, também com Rick Rubin, em um full-length com com músicas autorais, que viria a ser “Wandering Spirit” (1993).

O frontman dos Stones deu uma pausa nas gravações de “Wandering Spirit” e retomou o projeto de blues que havia pensado. Rick Rubin, por sua vez, recomendou a contratação da banda Red Devils (foto abaixo), de Los Angeles, para acompanhar Jagger no projeto.

Antes, era necessário um teste de fogo: em maio de 1992, Mick Jagger foi a um show dos Red Devils e cantou alguns standards do blues, como “Who Do You Love?” (Bo Diddley) e “Blues With A Feeling” (Little Walter). Deu certo: com a química que rolou durante o show, Jagger se empolgou e começou a projetar o novo disco com releituras de canções blues.

Gravações

Em junho de 1992, Mick Jagger, Rick Rubin e os Red Devils começaram a trabalhar, juntos, no estúdio Ocean Way Recording, em Hollywood.

O processo de gravação foi bastante simples: Jagger pegou alguns discos de blues, tocou suas músicas favoritas apenas uma vez e pediu para que os instrumentistas fizessem uma jam a partir do que haviam escutado. A ideia era que tudo soasse espontâneo, sem ensaios.

O resultado foi uma maratona de 13 horas de gravação, regada a muito blues, que renderam mais de 12 músicas. A maior parte das canções foi gravada em takes iniciais. Nada sofisticado, assim como “Blue & Lonesome“, registrado todo ao vivo.

Material engavetado

Apesar de ter agradado, Mick Jagger nunca lançou o material gravado com os Red Devils. E não há, nem mesmo, uma justificativa aparente, visto que o material é de boa qualidade: os Devils tocam muito bem e Jagger interpreta o cancioneiro bluesy de forma legítima.

Curiosamente, Mick Jagger voltou a trabalhar em “Wandering Spirit” logo após a aventura blues. Em termos comerciais, foi a melhor aposta que Jagger poderia ter feito: o disco vendeu bem e chegou ao top 15 das paradas dos Estados Unidos e Reino Unido. Nada nas proporções dos Rolling Stones, mas um bom resultado para quem tem uma tímida discografia solo.

A única canção de tais sessões que chegou à luz do dia no catálogo de Jagger foi a versão para “Checkin’ Up On My Baby” (Sonny Boy Williamson II). A faixa está presente na coletânea “The Very Best Of Mick Jagger” (2007).

Por outro lado, há anos, as gravações têm sido distribuídas por meios não-oficiais, em formato de bootleg. Hoje em dia, evidentemente, a versão completa está presente no YouTube.

Ouça:

Mick Jagger & The Red Devils – Studio Blues Sessions (1992)

Mick Jagger (vocal)
Lester Butler (gaita)
Paul Size (guitarra)
Jonny Ray Bartel (baixo)
Bill Bateman (bateria)

1) Blues With A Feeling (Little Walter)
2) I Got My Eyes On You (Buddy Guy)
3) Still A Fool (Muddy Waters)
4) Checkin’ Up On My Baby (Sonny Boy Williamson II)
5) One Way Out (Sonny Boy Williamson II)
6) Talk To Me Baby (Elmore James)
7) Evil (Howlin’ Wolf)
8) That Ain’t Your Business (Slim Harpo)
9) Shake ‘m On Down (Bukka White)
10) Somebody Loves Me (George White’s Scandals)
11) Dream Girl Blues (J. D. Miller & Slim Harpo)
12) 40 Days, 40 Nights (B. Roth)

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente

Cabeçote: E se a formação clássica do Motörhead tivesse se reunido?

A formação clássica do Motörhead quase se reuniu nos anos 1990. Foi o que revelou o guitarrista “Fast” Eddie Clarke, em recente entrevista ao site EonMusic. Ele, Lemmy Kilmister e o baterista Phil “Philthy Animal” Taylor voltariam a tocar juntos no fim da década.

A ideia, segundo Clarke, era fazer algo diferente do que fazia a formação que seguia com Lemmy no momento, composta por Phil Campbell (guitarra) e Mikkey Dee (bateria). “Não iríamos chatear a banda atual, faríamos talvez algo acústico, mas de um jeito diferente, ter uma orquestra feminina com suspensórios e meias-calças, algo assim”, afirmou.

Lemmy demonstrou interesse, mas não quis abrir mão da formação que o acompanhava. “Sentiu-se muito culpado”, conta o guitarrista.

Um exercício de imaginação é sempre válido nesses momentos: o que teria rolado se a formação clássica do Motörhead tivesse se reunido naquele período? Seria melhor? Pior? Difícil fazer projeções do tipo, mas dá para começar imaginando o que a banda não faria na época.

Entre o fim da década de 1990 e o início do século 21, o Motörhead fez alguns de seus discos mais “diferentes”. “Snake Bite Love”, de 1998, é um disco um pouco mais melódico e menos uptempo. Quase metade das faixas ultrapassa os quatro minutos de duração – algo pouco comum na discografia da banda. Destaque (negativo) para a a música “Night Side”, citada por Lemmy como a pior gravada pelo grupo até então.

Em contrapartida, dois anos depois, o grupo lançou “We Are Motörhead”, um de seus discos mais pesados e agressivos. E, na sequência, nova mudança: “Hammered”, de 2002, é menos metal e mais rock and roll. Trata-se, ainda, de um dos discos menos admirados pelo próprio Lemmy, por seus “altos e baixos”.

Os trabalhos futuros seguiram essa linha mais rock and roll, mas sempre com momentos um pouco distintos, como a ácida “God Was Never On Your Side” e a rústica “Whorehouse Blues”. Mesmo com regularidade, o Motörhead ainda surpreendeu após sua fase mais experimental.

Não consigo imaginar essa inventividade com “Fast” Eddie Clarke e, especialmente, com Phil “Philthy Animal” Taylor. Um retorno do Motörhead clássico garantiria uma volta às raízes com prazo de validade limitado.

Taylor chegou a ser demitido, em sua última passagem pelo Motörhead, porque não conseguiu aprender a tocar “I Ain’t No Nice Guy” a tempo da gravação. Clarke, por sua vez, saiu porque a banda optou por trabalhar com Wendy O. Williams. Dá para confiar?

Enquanto o Motörhead seguiu sem Clarke e Taylor, os próprios músicos não conseguiram fazer algo de muita relevância enquanto estiveram fora. “Philthy Animal” praticamente só existiu ao lado de Lemmy – não à toa, nunca superou o fato de ter sido substituído por Mikkey Dee. Já Eddie teve bons momentos com o Fastway, mas nada além disso.

Por sorte (e bom senso), Lemmy não teve coragem de enfrentar seus fiéis escudeiros. Phil Campbell e Mikkey Dee continuaram com ele até o dia de sua morte. Deram a estabilidade que o Motörhead precisava e pela qual o grupo ficou conhecido por novas gerações.

E, por mérito, o Motörhead conseguiu seguir sem ser atrapalhado por visões romantizadas a partir de sua formação clássica. Foi uma das poucas bandas no segmento que os fãs não imploraram por reuniões que sabíamos que dariam errado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: As agonizantes últimas horas de Freddie Mercury

Nenhum relato sobre os últimos anos, dias ou momentos de Freddie Mercury é tão fiel quanto o de Jim Hutton. O cabeleireiro, morto em 2010, se relacionou com o lendário vocalista do Queen de 1985 até o último dia da vida do astro, 24 de novembro de 1991. Ele viu todo o sofrimento do cantor de perto.

O relato está presente no livro “Mercury And Me”, escrito por Jim Hutton e Tim Wapshott e lançado em 1995. Em homenagem a Mercury, cujo falecimento completa 25 anos na próxima quinta-feira (24), segue, abaixo, a tradução, adaptada, da parte do livro que descreve os últimos momentos do cantor.

Momentos derradeiros

Dores severas afligiam Freddie Mercury diariamente em seus momentos derradeiros. Segundo Jim Hutton, a última vez que Freddie Mercury esteve consciente foi em 21 de novembro de 1991, uma quinta-feira, três dias antes da morte dele, quando Hutton o visitou na Garden Lodge, mansão extravagante que Mercury tanto gostava.

Jim Hutton se deitou ao lado de Freddie Mercury. O vocalista disse, suspirando: “pronto, todos saberão”. Na ocasião, Freddie se referia à carta em que anunciava, oficialmente, que estava com Aids. Ela foi enviada à imprensa e divulgada no dia 23 de novembro, um sábado, apenas um dia antes de sua morte.

Já no dia 23, às 22h, Freddie Mercury começou a se contorcer de dor e pediu seus remédios a gritos, que eram quatro pílulas analgésicas. Descrente, Mercury havia abandonado o tratamento com AZT e outros medicamentos algum tempo antes. Jim Hutton dormiu abraçado a Freddie nesta noite.

O último dia

Na madrugada do dia 24, um domingo, Freddie Mercury acordou Jim Hutton e pediu que ele o trouxesse uma fruta. Hutton levou fatias de manga e um copo com suco, para combater a desidratação que Freddie sofria.

Pouco após às 3h, Freddie Mercury acordou Jim Hutton de forma brusca. Seu rosto mostrava desespero. Freddie abria a boca desesperadamente, apontando para a garganta. Hutton não sabia o que fazer.

Cerca de 30 minutos depois, um dos enfermeiros de Freddie Mercury, chamado Joe, chegou ao local. Ele viu que havia um pedaço de manga na garganta de Freddie, que, sem forças, não conseguia nem engolir, nem cuspir. A fruta foi retirada.

Fim da linha

Às 6h, Freddie Mercury pronunciava as suas últimas palavras: “xixi, xixi”. Joe e Jim Hutton levaram Freddie ao banheiro, pois ele não conseguia se locomover. Quando o colocaram de volta na cama, ouviram um barulho de um osso quebrando. Mercury se contorceu de dor e passou a ter convulsões.

O médico Gordon Atkinson chegou ao local e receitou uma injeção de morfina a Freddie Mercury, mas o vocalista era alérgico à substância. Horas depois, Elton John e Dave Clark, amigos de Freddie, o visitaram. O cantor estava com os olhos opacos e mal respondia a estímulos externos.

Sem forças, Freddie Mercury não conseguiu pedir para que o levassem ao banheiro. Então, fez suas necessidades na cama onde estava deitado. Jim Hutton trocou as roupas de Freddie, que, com muito esforço, subiu levemente a sua perna esquerda.

A perna logo perdeu força e, assim, Jim Hutton percebeu que Freddie Mercury estava morto. Jim abraçou Freddie e o cobriu de beijos. O sofrimento havia acabado.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Alec John Such só tocou em um disco do Bon Jovi

Alec John Such, aniversariante desta segunda-feira (14) – ele completa 65 anos na data -, só tocou em um disco do Bon Jovi. É o que seu substituto, Hugh McDonald, diz.

O Bon Jovi é a “banda margarina”. Algo no estilo da família idealizada que é apresentada em comerciais de margarinas, só que no âmbito de grupos musicais.

Em mais de 30 anos de carreira, houve sempre um esforço em esconder os escândalos do Bon Jovi. Não que eles tenham sido verdadeiros “bad boys” – o momento mais “intenso” neste sentido foi o vazamento de fotos de Jon Bon Jovi com mulheres na década de 1980 -, mas toda banda em atividade por tanto tempo tem alguns esqueletos em seu armário.

A diferença é que, no caso da banda de Nova Jersey, não se fala publicamente sobre nada. Evita-se até mesmo declarações relacionadas à saída do guitarrista Richie Sambora, em 2013. Um dos principais compositores saiu do grupo sem motivo aparente. Só depois de algum tempo, revelou-se que o músico estava cansado da rotina intensa de trabalho – e seus colegas, em especial Jon Bon Jovi, se recusaram a diminuir o ritmo.

Ao longo da trajetória da banda, o episódio com menos explicações contundentes foi a saída do baixista Alec John Such, em 1994. O músico foi demitido, mas não se fala o motivo disto publicamente.

O posto de Alec John Such foi ocupado por Hugh McDonald, velho conhecido de Jon Bon Jovi e creditado por gravar o baixo de “Runaway”, primeiro single da banda. Mas o grupo se recusa a tratá-lo como um real integrante da formação: para eles, o membro demitido é “insubstituível”. Situação constrangedora tanto para Such quanto para McDonald.

A questão é que, na verdade, Hugh McDonald sempre esteve na banda. Ao menos é o que ele afirma em algumas entrevistas e em seu antigo site, hoje desativado.

As afirmações de McDonald

Hugh McDonald afirmou, em diferentes ocasiões, que tocou em todos os álbuns do Bon Jovi, com exceção de “7800° Fahrenheit”. Isto inclui os discos com créditos a Alec John Such, como “Slippery When Wet”, “New Jersey” e “Keep The Faith”, além do álbum de estreia, onde McDonald é mencionado somente por “Runaway”.

Na extensa discografia listada em seu antigo site, Hugh McDonald acrescentou todos os discos do Bon Jovi, com exceção de “7800° Fahrenheit”. Há, ainda, menções a álbuns como “Trash” e “Hey Stoopid”, de Alice Cooper; “Love Hurts”, de Cher; “Dancin’ On The Edge”, de Lita Ford; “Ringo The 4th”, de Ringo Starr; “Shotgun Willie”, de Willie Nelson, entre outros petardos que contaram com a participação dele.

Em uma seção de perguntas e respostas listada em seu site, Hugh McDonald diz a vários fãs que tocou baixo em todos os álbuns do Bon Jovi, exceto “7800° Fahrenheit”. Ele diz que gravou o instrumento em estúdio, no entanto, não especifica se Alec John Such também gravou para esses álbuns e, em caso afirmativo, se compôs para Such gravar. Afirma, diretamente, que “tocou o baixo no estúdio” – e só.

Questionado, na mesma seção, sobre a linha de baixo de “Livin’ On A Prayer”, Hugh McDonald afirmou que antes da introdução com o instrumento ter sido inserida na gravação, a música se parecia demais com “I Can’t Help Myself”, do Four Tops. “Bruce Fairbairn, que produziu o álbum, percebeu a similaridade. Então, Richie, Jon e eu trabalhamos até chegarmos ao resultado que você pode escutar no disco”, disse McDonald, que também revelou adorar o trabalho que fez na faixa “Keep The Faith”.

Curiosamente, o “músico contratado” é o único que conversa sobre o assunto. Nem os integrantes do Bon Jovi, nem Alec John Such nunca falaram disso.

Demissão

Parece existir alguma relação entre o fato de Alec John Such não ter gravado todas as músicas pelas quais foi creditado ao longo de 10 anos e a sua demissão, em 1994. Apesar de não haver uma explicação oficial, a história que tem mais força é que a banda, em especial Jon Bon Jovi, não gostava de Such como baixista.

Em performances ao vivo, Alec John Such não parece ser um baixista ruim. Pelo contrário: toca todas as linhas sem problemas, além de, ocasionalmente, fazer bons backing vocals. O problema parecia ser mais comportamental, visto que, em 1994, Richie Sambora disse à revista Kerrang! que Such estava fora “porque se envolveu com algumas m*rdas das quais não conseguiam se desvencilhar” – provavelmente em menção ao alcoolismo do músico.

No início dos anos 1990, Alec John Such quebrou a clavícula ao sofrer um acidente de moto e, desde então, sofreu para retomar sua forma. O Bon Jovi nem se preocupou em esperar pela devida recuperação de Such, o que comprometeu a atuação do músico e fez com que ele se mergulhasse no álcool. A convivência com Jon, que já não era fácil, ficou ainda pior na turnê de “Keep The Faith”, que foi a última do baixista no grupo.

Em uma rara entrevista concedida à revista Raw em 1994, Alec John Such falou, com detalhes, sobre sua relação com os membros do Bon Jovi e sua saída da banda. Há relatos de que Jon Bon Jovi ameaçou processar o jornalista David Ling, autor da matéria, por ter “distorcido a verdade”, mas todo o papo com Such foi gravado, então, Jon recuou.

As declarações de Alec John Such foram fortes. “Não permitiram que eu desse nenhuma entrevista. Diziam que ninguém queria falar comigo e isso veio direto da boca de Jon”, disse Such, em um momento. “Jon fica dizendo que eu toco mal o tempo todo”, afirmou, em outra parte da entrevista.

Atualidade

Alec John Such não fez muita coisa desde que foi demitido do Bon Jovi. Ele empresariou algumas bandas de Nova Jersey e o 7th Heaven, de Chicago. Abriu negócios em Nova York, incluindo uma loja de motos. Em 2001, participou de um show da “One Wild Night Tour”, após sua família ter entrado em contato com a banda. Depois disso, se aposentou de vez do mercado da música. É um verdadeiro desafio encontrar uma foto atual do músico, nascido em 1956.

Já Hugh McDonald continua como “membro complementar” do Bon Jovi. Não apareceu em fotos de divulgação, nem em vídeos oficiais, até os registros relacionados ao álbum mais recente, “This House Is Not For Sale” (2016). Em 2013, quando a banda tocou no Rock In Rio, o diretor de TV da Rede Globo, Boninho, tornou público o pedido que Jon Bon Jovi fez: o cantor proibiu que McDonald e o baterista Rich Scannella, que substituía Tico Torres, fossem filmados na transmissão oficial. Houve liberação somente ao fim da performance.

Paralelamente, Hugh McDonald continuou a atuar como músico de estúdio – em um ritmo reduzido, é verdade. Entre os discos com gravações de McDonald após sua “entrada” no Bon Jovi, estão “Just Like There’s Nothing To It” (2004), de Steve Forbert; “Mi Corazon” (2001), de Jaci Velasquez; e o álbum autointitulado de Ricky Martin, lançado em 1999.

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 35 anos do razoável “Diary Of A Madman”, de Ozzy Osbourne

Ozzy Osbourne – Diary Of A Madman
Lançado em 7 de novembro de 1981

Para mim, a carreira solo de Ozzy Osbourne tem dois momentos realmente excepcionais, representados pelos discos “Blizzard Of Ozz” (1980) e “No More Tears” (1991). Não é que os outros álbuns sejam ruins, mas não chegam ao patamar de excelência na dupla anteriormente citada.

É o caso de “Diary Of A Madman”. Lançado em 7 de novembro de 1981, o segundo disco de Ozzy Osbourne é até bom, mas não tem o mesmo padrão da estreia.

O motivo parece claro: as gravações foram feitas por cerca de 30 dias, entre fevereiro e março de 1981. Não houve tempo para se trabalhar bem no álbum porque a ideia era que Ozzy voltasse logo para a estrada e terminasse a “Blizzard Of Ozz Tour”, que se esticou até uma semana depois do lançamento de “Diary Of A Madman”.

Havia background para se trabalhar melhor em “Diary Of A Madman”. A formação era a mesma do debut: Randy Rhoads na guitarra, Bob Daisley no baixo (e em maior parte das composições) e Lee Kerslake na bateria. Ozzy Osbourne estava em bom momento, apesar dos problemas com drogas pelos quais estava passando.

O potencial do grupo é bem explorado a primeira metade do disco (o famigerado “lado A”). “Over The Mountain” é um clássico, “Flying High Again” é um hard rock divertido, “You Can’t Kill Rock And Roll” é uma semi-balada interessante na qual Randy Rhoads brilha tanto no violão quanto na guitarra e “Believer” é um heavy bom e arrastado. Não à toa, com exceção de “You Can’t Kill Rock And Roll”, as faixas citadas foram as únicas tocadas ao vivo nas turnês de Ozzy Osbourne.

Na sequência, a tracklist começa a perder o fôlego. “Little Dolls”, apesar da boa performance de Lee Kerslake, tenta repertir a vibe de “Believer” sem tanto sucesso. “Tonight”, por sua vez, é açucarada demais para uma balada do Madman – soa como Night Ranger em seus momentos mais adocicados. A pesada “S.A.T.O.” vale pela intensidade, enquanto a faixa título merece atenção pelo seu instrumental bem trabalhado.

Apesar de não ser musicalmente histórico, “Diary Of A Madman” ficou marcado. Foi o último registro em estúdio de Randy Rhoads, que morreu em 19 de março de 1982, aos 25 anos, vítima de um acidente de avião. E também foi o momento final de Lee Kerslake na formação. Bob Daisley também saiu, mas voltou para o grupo de Osbourne diversas vezes. No fim das contas, Rudy Sarzo e Tommy Aldridge, que sequer tocaram, foram creditados por gravarem, respectivamente, baixo e bateria no álbum.

Em 1986, Daisley e Kerslake processaram Ozzy Osbourne, em busca de créditos e royalties de composições de “Diary Of A Madman” – e também de “Blizzard Of Ozz”. O caso ficou na justiça até 2003, quando a corte de Los Angeles dispensou a ação judicial.

No ano anterior, em 2002, Ozzy e sua esposa Sharon Osbourne deram sua resposta: contrataram Robert Trujillo e Mike Bordin para regravarem as linhas de baixo e bateria, respectivamente, de ambos os discos, que seriam relançados em edições comemorativas de 25 anos. Sharon diz que a decisão foi de Ozzy. Ele, por sua vez, culpa a esposa. Os créditos acabaram sendo dados na edição de 30 anos.

Muita polêmica para um disco nota 6 ou 7. Vale como registro final de Randy Rhoads, que mostrava, cada vez mais, seu interesse pelo violão e por arranjos clássicos, e por alguns momentos mais inspirados.

Ozzy Osbourne (vocal)
Randy Rhoads (guitarra)
Bob Daisley (baixo)
Lee Kerslake (bateria)

Músicos adicionais:
Johnny Cook (teclados)
Louis Clark (arranjos de corda em 8)

1. Over The Mountain
2. Flying High Again
3. You Can’t Kill Rock And Roll
4. Believer
5. Little Dolls
6. Tonight
7. S.A.T.O.
8. Diary Of A Madman

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: 15 músicas que foram feitas por Russ Ballard (e talvez você não saiba)

Russ Ballard é um dos melhores compositores desconhecidos do rock/pop. O músico é autor de diversos “minor hits” que nunca o colocaram no topo das paradas de sucesso, mas o fizeram chegar perto disto.

Antes de fazer carreira como compositor, Russ Ballard integrou a banda Argent, como vocalista e guitarrista, ao longo do início da década de 70. Ele saiu do grupo em 1974, dois anos antes da formação se desfazer, e investiu em duas frentes: hitmaker e artista solo.

A carreira solo de Russ Ballard não vingou. Ele lançou 10 álbuns desde 1974 – o mais recente é “It’s Good To Be Here”, divulgado no ano passado. São bons registros, quase sempre calcados no AOR/melodic rock, mas nenhum emplacou de verdade.

Ballard se firmou mesmo como compositor. Apesar de nunca ter chegado ao primeiro lugar das paradas da Billboard, ele se tornou figurinha carimbada dos charts entre o fim da década de 1970 e o início dos anos 1980.

Suas músicas foram gravadas por Ace Frehley, Rainbow, Roger Daltrey, Night Ranger e Santana, além de atrações fora do espectro roqueiro, como Frida e Anna (ambas ex-ABBA), Hot Chocolate e Elkie Brooks, entre outros. Há canções registradas por ele que você, caro leitor, provavelmente já ouviu em algum momento.

Veja, abaixo, 15 músicas compostas por Russ Ballard e eternizadas por outros artistas:

“New York Groove” (gravada originalmente pelo Hello, com versão de Ace Frehley):

“Come and Get Your Love” (Roger Daltrey):

“Since You Been Gone” (gravada originalmente por Russ Ballard, com versão do Rainbow):

“Winning” (gravada originalmente por Russ Ballard, com versão de Santana):

“On The Rebound” (gravada originalmente por Russ Ballard, com versão do Uriah Heep):

“God Gave Rock and Roll to You” (gravada originalmente pelo Argent, com versões do Petra e KISS):

“Dream On” (gravada originalmente por Russ Ballard, com versão do King Kobra):

“Liar” (gravada originalmente pelo Argent, com versão do Three Dog Night):

“Into The Night” (gravada originalmente por Russ Ballard sob o título “In The Night”, com versão do Frehley’s Comet):

“I Surrender” (gravada originalmente por Head East, com versão do Rainbow):

“I Will Be There” (Gogmagog):

“I Did It For Love” (Night Ranger):

“Let Me Rock You” (Peter Criss):

“Riding with the Angels” (gravada originalmente pelo Samson, com versão de Bruce Dickinson):

“You Can Do Magic” (America):

Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.

Cabeçote: Os 10 anos de “Live To Win”, de Paul Stanley

Paul Stanley: “Live To Win”
Lançado em 24 de outubro de 2006

Esperava-se que Paul Stanley lançasse, em algum momento, uma carreira solo. No KISS, o músico sempre se deu bem com seu eterno parceiro, Gene Simmons, mas sempre tive a sensação de que nem sempre Stanley fez o que quis, artisticamente falando, em sua banda.

Em sua biografia, “Uma vida sem máscaras“, Paul Stanley deixa claro que, desde que o início do KISS, lida com duas personas. Existe Stanley Harvey Eisen, a pessoa, e Starchild, o personagem. Somado ao fato de que o KISS é uma instituição que precisa oferecer o que os fãs desejam, dá para entender o motivo pelo qual é raro ver Stanley no primor de sua sinceridade artística.

Paul Stanley alçou voo separado dos demais em 1978, ao lado dos demais músicos do KISS, no projeto em que cada um lançou um trabalho solo. Assim como Ace Frehley, Paul Stanley pouco se preocupou em “reinventar a roda” em seu trabalho. Ainda que um pouco envolto pela persona Starchild, mostrou ao público suas influências e o que poderia oferecer “sozinho”. Foi bem recebido.

Desde então, um novo disco solo de Paul Stanley passou a ser especulado ao longo dos anos 1980, visto que ele capitaneava quase sozinho o KISS na época. Ao fim da década, Stanley começou a trabalhar em algumas demo solo e fez uma turnê com músicos contratados, incluindo Bob Kulick, irmão de Bruce Kulick e o ghost musician mais conhecido do KISS, e Eric Singer, que substituiria Eric Carr no projeto principal futuramente.

Porém, um novo álbum solo de Paul Stanley só saiu mesmo em 24 de outubro de 2006, 10 anos atrás. “Live To Win” mostra um Stanley diferente. Aqui, Paul já é um cinquentão, repleto de referências e experiências diferentes – um pouco diferente do ambicioso Starchild que queria seguir dominando o mundo em 1978.

Musicalmente, “Live To Win” não é nada inventivo. O disco todo é permeado por um pop rock de pegada contemporânea, próximo ao que bandas como Bon Jovi e Nickelback estavam fazendo à época. O diferencial está em dois aspectos: os sensos lírico e melódico de Paul Stanley. O Starchild nunca foi um virtuoso, mas sempre foi um grande compositor e se tornou um cantor muito acima da média com o tempo. São esses os elementos de destaque por aqui.

Na pegada do pop rock contemporâneo, a faixa título abre o disco com uma letra que soa como um relato pessoal da difícil trajetória de Paul Stanley, que sofreu bullying na infância e sofreu com depressão na década de 1980, após desilusões amorosas e rachaduras no KISS. A sonoridade típica da década de 2000 também se faz presente em “Lift”. Destacam-se o refrão melódico e a interpretação de Stanley.

Com direito a algumas batidas sintetizadas, a curta “Wake Up Screaming” mostra Paul Stanley mais disposto a se arriscar em tonalidades agudas. A voz do Starchild já apresenta marcas do tempo, ainda não estava tão deteriorada como nos dias de hoje. Ou seja: uma rouquidão bem-vinda. A bela “Everytime I See You Around” reforça a excelência de Stanley ao fazer baladas. Uma das melhores do disco.

“Bulletproof” aposta em uma pegada mais clássica, com vozes de apoio femininas e riffs destacados. Outro grande momento do álbum. “All About You” segura a peteca com nova interpretação de destaque por parte de Paul Stanley. Há, aqui, um solo de guitarra – algo raro neste disco. Outra boa balada, “Second To None” apresenta bons ganchos melódicos e uma letra que trata de um “amor maduro” – a inspiração parece ser a atual esposa, Erin Sutton, com quem Stanley é casado desde 2005.

“It’s Not Me” retoma a pegada pop rock contemporâneo. As guitarras só aparecem de verdade no refrão e no solo – em outros momentos, apenas colaboram com o ambiente. A açucarada balada “Loving You Without You Now” tem uma melodia que lembra “Second To None” nos versos, mas é mais ousada no refrão. “Where Angels Dare” encerra o play sem muitas surpresas, mas com mais guitarra na mixagem.

O trabalho solo também rendeu uma curta turnê, com músicos contratados, que passou por Estados Unidos e Austrália entre 2006 e 2007. No setlist, várias músicas ignoradas nos repertórios dos shows do KISS foram resgatadas, como “A Million To One” e “Magic Touch”, entre outras. Uma das apresentações, feita em Chicago, rendeu o DVD “One Live Kiss”, lançado em 2008.

Desde então, Paul Stanley nunca mais se aventurou em carreira solo. Atualmente, ele lidera um projeto de covers de soul music, chamado Soul Station, mas os shows são bastante esporádicos.

Uma pena que o Starchild nunca mais tenha alçado voos solo. “Live To Win” é um disco gostoso de se ouvir. É carregado da pessoalidade que Paul Stanley gosta de assumir quando compõe. Exala sinceridade, seja em seus versos ou em suas melodias. Era o que Stanley precisava fazer naquele momento.

Paul Stanley (vocal, guitarra, percussão, arranjos de cordas)
Corky James (guitarra, baixo)
Brad Fernquist (guitarra)
John 5 (guitarra)
Andreas Carlsson (guitarra)
Victor Indrizzo (bateria)
Greg Kurstin (piano)
Zac Rae (piano)
Harry Sommerdahl (teclados, programação)
Tommy Denander (guitarra em 1 e 3)
Bruce Kulick (baixo em 4, 7 e 9)

01. Live to Win
02. Lift
03. Wake up Screaming
04. Everytime I See You Around
05. Bulletproof
06. All About You
07. Second to None
08. It’s Not Me
09. Loving You Without You Now
10. Where Angels Dare

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Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e “fundador afastado” do site Van do Halen. Atualmente, é redator-chefe do site Cifras. Assina a coluna Cabeçote semanalmente.