A comunidade Metal deve parar de ignorar as declarações racistas de Phil Anselmo

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Traduzido por Ricardo Seelig – Collectors Room

Um dos maiores e mais influentes sites norte-americanos sobre heavy metal, o Metal Sucks, publicou um longo editorial escrito pelo seu fundador, Axl Rosenberg, a respeito das atitudes racistas de Phil Anselmo.

O texto, com o qual concordamos plenamente, está reproduzido abaixo, e é indicado para todos analisarmos o que está acontecendo com Anselmo e com alguns setores do heavy metal.

A COMUNIDADE METAL DEVE PARAR DE IGNORAR AS DECLARAÇÃO RACISTAS DE PHIL ANSELMO

É hora de todos nós pararmos de deixar as coisas fáceis para Phil Anselmo.

Um usuário do YouTube chamado Chris R postou um vídeo online, filmado na edição deste ano do Dimebash, ocorrido na sexta, 22 de janeiro, em Los Angeles. Chris admitiu que iria cortar da edição final o trecho que postou, mas que decidiu publicá-lo porque “as pessoas merecem ver isso”.

Anselmo, posteriormente, respondeu assim:

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Ok. Então Anselmo estava brincando. Ele não é um racista! Inferno, ele disse: “Hoje em dia, eu não quero ter nada a ver com essa merda de a bandeira confederada”. Então está tudo bem, certo?

Bem, na verdade, não. Por que vamos ser realistas: esta não é a primeira vez que Phil Anselmo é o centro de uma polêmica semelhante.

Por exemplo: o discurso abaixo foi feito em um show de 1995, em que o cantor afirma não ser racista antes de fazer uma série de declarações racistas. É incrivelmente perturbador, não apenas por causa do sentimento, mas porque há uma certa doença por trás da lógica da intervenção de Anselmo. É fácil ver como uma criança que observa Phil Anselmo, ou um adulto que simplesmente não é muito bom em pensar por si mesmo, pode ouvir isso e achar que faz sentido. Afinal, o que há de errado com os brancos tendo orgulho da sua herança cultural, não é mesmo?

O argumento que Anselmo negligencia é o contexto histórico e social de uma frase como “orgulho branco”. Ele é ignorante a ponto de pensar que as minorias não tem uma experiência que é única na América e no resto do mundo. A América branca nunca poderá saber realmente o que é ser negro. Anselmo está reagindo ao reconhecimento cultural moderno deste fato de uma forma que, quando você começa a pensar, é uma maneira invejosa e juvenil.

Phil Anselmo tinha 27 anos quando fez essas observações, mas é difícil descartá-las como uma indiscrição juvenil. Em 2003, quanto tinha 35 anos, um dos projetos de Anselmo, o Superjoint Ritual, lançou um disco intitulado A Lethal Dose of American Hatred (Uma Dose Letal do Ódio Americano). Este álbum traz uma canção chamada “Stealing a Page or Two from Armed and Radical Pagans” (“Roubando uma página ou duas de pagãos armados e radicais”), cuja letra contém algumas frases encantadoras sobre “não ter nada mais do covarde Maomé” e “não sentir nenhuma piedade sobre os elitistas judeus”.

Então Anselmo também estava brincando há 20 anos atrás? Será que ele tirou isso de algumas das performances de Andy Kaufman de décadas anteriores? Parece improvável.

Então, porque a Comunidade Metal continua a tolerar um comportamento como esse?

A resposta é simples: nós somos covardes.

Somos fãs do Pantera e do Down, e, sim, do Superjoint Ritual, e não queremos ter que enfrentar o dilema de admirar ou não alguém por seu talento mesmo detestando suas visões políticas pessoais. Não parecemos ter esse dilema quando lidamos com Varg Vikernes ou Dave Mustaine, mas, de alguma forma, Phil Anselmo alcançou o status de intocável. Eu não estou exatamente certo do porquê disso, mas suspeito que tenha algo a ver com o fato de que o Pantera ganhou destaque em um momento em que o metal estava sendo empurrado de volta para o underground, como resultado de o grunge ter se tornado popular. A carga do Metallica havia acabado e a banda tinha se transformado no Alternica. O Anthrax fazia a transição, deixando de ser uma banda de thrash e passando e a ser uma banda de rock. O Megadeth perseguia desajeitadamente a glória comercial, e veículos mainstream tradicionais como MTV e Rolling Stone ignoravam bandas que continuavam a produzir algo interessante (como Morbid Angel e At the Gates). O Pantera alcançou um nível de sucesso em que eles foram, para todos os efeitos, a face pública do metal na maior parte da década. E a trágica morte de Dimebag aumentou ainda mais a lenda – todo mundo agora olha para o passado com saudosismo e ninguém se lembra de como ficamos decepcionados com o último álbum do grupo, Reinventing the Steel. Acho que tudo isso incutiu em muitos de nós uma devoção cega, que, por sua vez, permitiu que o comportamento de Anselmo passasse incólume pelo escrutínio dos meios de comunicação e se tornasse o pior segredo mais bem guardado do heavy metal.

As coisas ficam ainda mais complicadas se você trabalha na indústria da música: todos são amigos de Phil Anselmo ou amigos de um amigo do cantor. As pessoas querem estar em turnê com ele ou de alguma forma se beneficiar de sua notoriedade, e ninguém quer jogar fora seus fãs, muitos deles fiéis a uma falha de seu caráter e não muito dóceis ao serem confrontados com qualquer crítica ao seu frontman favorito (as represálias a um comentário negativo em relação as posições de Mustaine são relativamente poucas, mas vamos obter muito mais mensagens de ódio se nos atrevermos a questionar a visão de mundo de Anselmo, isso eu garanto).

Então, nós olhamos para o outro lado. Nos lembramos de todas as brincadeiras e piadas racistas que ouvimos atrás de portas fechadas, e nos convencemos de que não é grande coisa, que não é algo que valha a pena chamar a atenção. Anselmo afirma que estava só brincando e escolhemos acreditar nele porque queremos acreditar nele, porque queremos ser capazes de pular enlouquecidos com “5 Minutes Alone” sem considerar o significado da letra – “você usou a cor da minha pele com um contador racista”.

Mas é um absurdo. Não há absolutamente nenhuma evidência que sugira que Phil Anselmo estava apenas brincando. Se há alguma coisa é o fato de que esta questão tem criado diversos questionamentos sobre sua conduta ao longo de sua carreira, e sugere que é algo que ele acredita tão fortemente que não pode ser ajudado, mas sim algo que precisa colocar para fora, mas quando sabe que isso é algo que o faz parecer ruim. É por isso que ele pode condenar a bandeira confederada, mas seus sentimentos sobre diversas minorias queimam como carvão quente em suas mãos, e ele simplesmente os deixa cair. É a Síndrome de Mel Gibson: o cara trabalha em uma indústria cerca por judeus e afro-americanos, mas ao beber demais começa quase involuntariamente a vomita insultos racistas e anti-semitas.

Então, a má notícia é essa: Phil Anselmo, provavelmente, é um racista.

A boa notícia: isso realmente não significa que você deve queimar todos os seus discos. Você tem a capacidade de não pensar a respeito dessas questões enquanto desfruta de sua música. É uma escolha sua.

Mas todos nós devemos parar de defender Phil Anselmo. Por que não há nada que possa realmente ser defendido em suas atitudes.

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